Nem "jardim encantado", nem "clube dos intelectuais desencantados"
O título deste artigo contrapõe duas metáforas. A primeira é muito conhecida,
pois foi utilizada por Max Weber (1951, 1958) para caracterizar as religiões
orientais como casos radicais de encantamento em que, apesar das diversas
condições que a China e a Índia antigas disporiam para desenvolver uma economia
racional de tipo capitalista, jamais poderiam espontaneamente chegar a ela, em
decorrência de obstáculos religiosos intransponíveis. A segunda delas é de
minha lavra, mas inspirada em Peter Berger que, em texto recente, parcialmente
publicado em português, declara existir
[...] uma subcultura internacional composta por pessoas de educação
superior no modelo ocidental, em particular no campo das humanidades
e das ciências sociais, que é de fato secularizada. Essa subcultura é
o vetor principal de crenças e valores progressistas e iluministas.
Embora sejam relativamente pouco numerosos, são muito influentes,
pois controlam as instituições que definem "oficialmente" a
realidade, principalmente o sistema educacional, os meios de
comunicação de massa e os níveis mais altos do sistema legal (2001,
pp.16-17).
A realidade que no título declaro não reproduzir nenhuma nem outra das
situações metafóricas é, em termos genéricos, a sociedade brasileira e, mais
especificamente, o campo religioso brasileiro contemporâneo. Mas este será meu
ponto de chegada, ao final da exposição.
Pretendo discutir, de início, algumas interpretações da sociologia da religião
de Max Weber, seguramente o autor clássico que exerce a maior influência não só
na sociologia contemporânea, mas nas ciências sociais em geral (Souza, 2000).
Entre as alternativas possíveis, escolhi dois autores que me parecem mais
expressivos na área da sociologia da religião e que podem ser considerados
quase "clássicos": Pierre Bourdieu (1974) e Peter Berger (1971, 2001). Como
complemento da discussão, introduzi um autor brasileiro, Antônio Flávio
Pierucci (1988, 2001, 2003), que vem se empenhando na sistematização teórica e
na clarificação de conceitos weberianos.
O primeiro deles não é propriamente um sociólogo da religião, mas um teórico da
cultura. Sua escolha, não obstante sua obra exígua na área de meu interesse,
decorre da qualidade de seu trabalho e de sua criatividade conceitual: a noção
de campos diferenciados de relações sociais, genericamente por ele utilizada em
suas análises, conduziu, em sua aplicação às relações religiosas, ao conceito
de campo religioso, largamente utilizado pela sociologia da religião, mesmo em
contextos teóricos distanciados da referência inicial.
Quanto a Peter Berger, já estamos diante de um assumido sociólogo da religião,
autor de vários outros livros além do citado, nesta área de estudos, embora um
tanto discriminado pela intelectualidade brasileira, antes por motivos
ideológicos ' é protestante, liberal e foi assessor para assuntos religiosos do
ex-presidente Nixon ' que propriamente acadêmicos. Vai além da proposta de
Bourdieu porque não se limitou a rever as teorias clássicas da religião, como
este, mas aplicou sua teoria na análise empírica, no caso das religiões norte-
americanas contemporâneas.
A seleção de ambos justifica-se também por alguns traços comuns presentes em
suas análise, entre os quais menciono três:
1. São autores teoricamente ecléticos, que partem de pressupostos das
três tradições clássicas, dos três "círculos mágicos". Bourdieu
(1974) afirma levar a sério tanto a concepção durkheimiana da origem
social da religião, quanto a afirmação marxista da realidade das
classes sociais e sua influência sobre a religião e, ainda, a idéia
weberiana da ação religiosamente orientada. Berger (1971) radicaliza
tal posição em sua "dialética do social", ao afirmar que apenas
juntas as posições weberiana ' a realidade social constituída de
significações humanas ' e durkheimiana ' a objetividade do social
contrastante com a esfera individual ' são corretas e capazes de
captar adequadamente a realidade empírica. Também Marx não está
ausente, implícito em sua afirmação de que esta realidade é um
produto coletivo da ação humana, o que para ele seria um pressuposto
da antropologia marxista. Trata-se, portanto, de sínteses teóricas
tecidas com sutileza e criatividade e não de "amálgamas grosseiras"
ou de "simples bricolages".
2. Por outro lado, ambos admitem a existência de certa analogia entre
os fenômenos religiosos e os econômicos. Bourdieu assume que o campo
religioso foi precedido por uma situação de autoconsumo, em que os
próprios consumidores dos bens religiosos eram os seus produtores.
Expropriados pelos sacerdotes, que passam a deter o monopólio
legítimo da gestão desses bens, transformam-se em leigos, estranhos
ao sagrado, porém dotados de um habitus religioso que os faz sentir a
necessidade de consumi-los. Já em Berger, há a distinção entre uma
situação de monopólio religioso, em que se tem apenas uma religião
institucionalizada, protegida pelo Estado, ao qual confere
legitimidade por lhe atribuir origem divina. Ao monopólio se
contrapõe o mercado religioso, característico das sociedades
modernas, pluralistas do ponto de vista religioso. As diferentes
igrejas ou agências religiosas competem entre si, agora diante de um
Estado neutro e assegurador da livre concorrência pela preferência
dos leigos-consumidores.
3. Nem sempre são fiéis a Weber. Ao incorporar a perspectiva
weberiana, partem dele e de seus conceitos para, no avançar de suas
reflexões, dele se distanciarem a ponto de implícita ou
explicitamente renunciarem às suas proposições fundamentais.
Permanecem os conceitos, mas agora como rótulos despidos de seus
conteúdos explicativos.
Minhas análises centrar-se-ão neste último ponto, pois que a proposta, no
momento, é justamente demonstrar que, apesar das intenções teóricas sintéticas,
Weber não é realmente integrado às interpretações dos autores, nelas aparecendo
de forma secundária, desligado de suas intenções originais.
Em seu estudo, Bourdieu parte de um pressuposto weberiano, o do "trabalho
religioso", exercido pelos protagonistas do sagrado ' sacerdote, profeta e
feiticeiro ' em luta desigual, devido ao monopólio da legitimidade detido pelo
primeiro deles, quanto à ministração dos serviços religiosos. Pondera que o
próprio Weber considerava tal idéia um aspecto secundário em sua obra, posto
que, argumenta Bourdieu, estaria mais preocupado em demonstrar a capacidade
criativa das idéias religiosas ante o materialismo histórico. Esta já é uma
suposição em si discutível, conforme desde há muito considera Gabriel Cohn,
especialista em sociologia weberiana que, diante de afirmações como esta,
advertia seus alunos do Curso de Ciências Sociais da USP para o fato de que o
pensamento de um sociólogo deste porte não poderia ser considerado tributário
do pensamento de outro, mas se sustentaria por ele próprio. Mas, mesmo assim,
entre restrições críticas, Bourdieu exalta o valor do conceito de trabalho
religioso, pois por meio dele
Weber nos fornece o meio de escapar à alternativa simplista de que
são produto suas análises mais duvidosas, ou seja, à oposição entre a
ilusão da autonomia do discurso mítico ou religioso e a teoria que
torna este discurso o reflexo direto da estrutura social (1974, p.
32).
Embora partindo de Weber, Bourdieu dele se distancia em um ponto essencial: na
avaliação do papel da intersubjetividade na mudança histórica. Considera a
análise weberiana dos protagonistas da ação religiosa problemática pelo seu
caráter típíco-ideal e a critica pela pobreza histórica de suas generalizações.
Propõe-se a corrigir (!) o esquema relacional entre especialistas e leigos
elaborado por Weber, passando a entendê-las não mais como relações
intersubjetivas e pessoais como sustentava este, mas como relações objetivas
entre posições estruturais, que comporia um sistema dotado de lógica e dinâmica
próprias. Não só estruturado, mas também estruturante, tal sistema seria
independente das subjetividades envolvidas.
Ao assim proceder, perde ele totalmente as intenções originais de Weber, que
teve sua motivação para fazer sociologia justamente na rejeição às idéias de
objetividade, coerção do social sobre o subjetivo, desconsiderando inclusive a
possibilidade de haver papéis sociais institucionalizados ou mesmo ação
coletiva. Esta aproximação de Bourdieu à perspectiva durkheimiana consolida-se
em sua crítica à teoria do carisma de Weber, central na explicação das mudanças
sociais para este autor. Tal crítica incide em quatro pontos interrelacionados:
no caráter natural/sobrenatural que Weber atribuía ao carisma; na
especificidade religiosa deste; na ausência de remissão da busca de salvação à
desigualdade social; e na atuação demiúrgica do líder carismático.
Quanto ao primeiro ponto, Bourdieu deve ter como referência a afirmação de
início feita por Weber, de que
O Carisma pode ser ' e só neste caso merece tal nome com pleno
sentido ' um dom que o objeto ou a pessoa possuem por natureza e que
não se pode conseguir de forma alguma. Ou pode e deve ser criado
artificialmente no objeto ou na pessoa mediante qualquer meio
extraordinário (1971, pp. 328-329, grifo meu, trad. minha).
Este texto tem que ser interpretado não como um posicionamento pessoal de
Weber, uma crença religiosa sua. Afinal, não foi ele mesmo quem afirmou não ter
"ouvido religiosamente musical"? Deve ser entendida dentro do contexto da
metodologia de sua sociologia compreensiva, que recomenda partir-se do sentido
atribuído pelos agentes. São estes que concebem o carisma desta forma, como
algo inato, ou então, que possa ser criado mediante rituais mágicos. Isso
apenas para salientar que a aquisição do carisma não é um ato voluntário,
apesar de todo o empenho do pretenso líder em ostentá-lo, mas que depende do
referendo coletivo. Além disso, esta questão da essência e da origem do
fenômeno religioso fora por Weber afastada como sociologicamente irrelevante ou
inoportuna, já no início de suas análises sobre a comunidade religiosa na obra
Economia e sociedade.
A segunda característica da teoria do carisma criticada por Bourdieu, relativa
à especificidade religiosa atribuída por Weber à mensagem profética, deve
também ser remetida aos posicionamentos teórico-metodológicos do autor
clássico, no caso, à fuga de explicações baseadas em monismos determinísticos.
As determinações entre as diferentes esferas da vida social existem, mas suas
direções nunca são previsíveis, pois que variáveis histórica e espacialmente A
mensagem religiosa ética pode, e freqüentemente está, reconhece ele, perpassada
por interesses políticos e econômicos, embora, como afirmações radicais de
valores, reflitam sobretudo interesses ideais. Mas é justamente o trabalho
religioso exercido pelo protagonista do sagrado (paradoxalmente concepção tão
exaltada por Bourdieu), no caso o profeta, que lhe confere sua essência
religiosa. Como expressão radical de valor, o autêntico carisma, que somente
existe em estado puro no momento de sua manifestação inicial, é o oposto de
toda racionalidade econômica ou burocrática, não visa o lucro e ignora as
regras. A fonte do poder político e da qualificação administrativa é
exclusivamente carismática.
Se, para Bourdieu, Weber não qualificava o profetismo como sendo movimento de
caráter político e econômico, seria justamente porque não levaria em conta a
realidade das classes sociais diferenciadas, segundo o modelo explicativo
marxista. Isto fica muito claro quando critica a noção weberiana de teodicéia:
Se a religião cumpre funções sociais, tornando-se, portanto, passível
de análise sociológica, tal se deve ao fato de que os leigos não
esperam da religião apenas justificações capazes de livrá-los da
angústia existencial da contingência e da solidão, da miséria
biológica, da doença, do sofrimento ou da morte. Contam com ela para
que lhes forneça justificações de existir como de fato existem, ou
seja, com todas as propriedades que lhe são socialmente inerentes
[...]. Assim, as teodicéias são sempre sociodicéias (1974, pp.48-49).
Mesmo refutando o materialismo histórico como teoria explicativa dos fenômenos
da desigualdade social, Weber sempre incluiu a relação classe social/tipo de
religião em suas análises, como afinidades eletivas: a magia como
característica do campesinato; entre as classes médias citadinas (no caso,
artesãos e comerciantes) e as profecias éticas; entre a burguesia e o
proletariado e a indiferença religiosa, embora a primeira tenha se identificado
ao protestantismo ascético em suas origens e o segundo, em casos de ameaças de
expoliação, tenha aderido a religiões salvacionistas. Por outro lado, no caso
das teodicéias também se preocupou em relacioná-las às condições sociais de
seus agentes, tal como aparece na dicotomia teodicéia da felicidade, dos ricos
e felizes demandando por legitimação, e a do sofrimento, dos pobres e infelizes
demandando por salvação. Mesmo no caso do hinduísmo, Weber relaciona o sistema
de castas à que seria a mais eficiente teodicéia jamais produzida pela
humanidade, a doutrina do Karma.
Por fim, a questão do caráter extraordinário do líder carismático,
enfaticamente criticada por Bourdieu. Na abordagem sociológica, não podendo tal
caráter provir da natureza ou do transcendente, embora, para ele, Weber assim o
considerasse, deveria provir necessariamente da sociedade. Mas, como em sua
leitura do autor clássico, tal fonte social não fosse considerada, seria ela
então uma inexplicável "criação ex-nihilo" (1974, p. 73). Para fugir desses
pretensos equívocos da teoria weberiana do carisma, Bourdieu propõe considerar
o profeta não como homem excepcional, mas como o homem das situações
excepcionais. Colocação essa que de novo acrescenta apenas ênfase à perspectiva
de Weber, que já se referira à estrutura carismática como sendo nascida do
entusiasmo de situações extraordinárias, em épocas de grandes atribulações de
ordem psíquica, econômica, política ou religiosa.
Diria que somente uma interpretação em que se rompa com qualquer continuidade
entre o indivíduo e seu contexto social, visto estrutural ou conjunturalmente,
poderia desconectar o profeta de seu tempo, de sua época, de sua situação. Para
Weber o profetismo é um tipo de relação e de dominação social calcada na
emotividade. O líder só o é porque tem liderados seguidores que acreditam em
suas virtudes excepcionais e em suas mensagens. A análise weberiana, calcada na
intersubjetividade é sim, análise sociológica, evoluindo da ação individual,
passando pela relação até chegar ao plano das institucionalizações e suas
rupturas.
Porém não é esta a percepção de Bourdieu:
Para romper com esta definição, é preciso considerar a relação entre o profeta
e os discípulos leigos como um caso particular da relação que se estabelece,
segundo Durkheim, entre um grupo e seus símbolos religiosos: o emblema não é
apenas um signo que exprime "o sentimento que a sociedade tem de si mesma"; ele
"constitui" este sentimento. Da mesma forma que o emblema, a fala e a pessoa do
profeta simbolizam as relações coletivas porque contribuíram para constituí-las
(1974, p.92).
O profeta como emblema do social, assim como o totem seria o emblema do clã.
Puro Durkheim! De Weber nada restou, a não ser a desqualificação de suas
interpretações. Em tese relativamente recente, Pierucci assim referiu-se ao
texto do autor:
Aquele compêndio sistemático de sociologia da religião publicado em
Economia e Sociedade, o qual Bourdieu sistematizou ainda mais, e
esquematizou, dando-lhe um plus inesperado de operacionalidade (2003,
p. 16).
Ainda que isso possa ser, em parte, verdadeiro, tal operacionalização custou
muito caro: nada menos o que nele há, especificamente, de sociologia
compreensiva.
Passemos ao outro autor, Peter Berger.
Berger entende a religião como uma forma de atribuição de significado à vida
natural e social que exerce função nomizadora. Na ausência de instintos
sociais, os homens sentem-se compelidos a criar uma ordem significativa, por
ele designada pela palavra "nomos", extensão do cosmos sagrado e absoluto, fora
do qual existe apenas o caos, os terrores da anomia.
Quando se dá por estabelecido o nomos como próprio da "natureza das
coisas", entendido cosmológica ou antropologicamente, se lhe dota de
uma estabilidade que deriva de fontes mais poderosas do que os
esforços históricos dos seres humanos. É este o ponto em que a
religião entra significativamente em nossa exposição. A religião é a
empresa humana mediante a qual se estabelece um cosmos sagrado. Para
dizê-lo de outra maneira, a religião é a cosmicização de um modo
sagrado (1971, p. 40, trad. minha).
Mas a religião é também uma forma de alienação, pois por meio dela a sociedade
oculta seu caráter de construção humana. Como tal, sua ordem é relativa e
precária, uma vez que pode ser transformada por um ato de vontade ou decisão.
Reconhecer-se como produto humano não permitiria que fosse legitimada e aceita
pelas novas gerações. Daí a ocultação, necessária à sua reprodução ordenada no
tempo, obtida através da remissão a um cosmos sagrado. A religião, na medida em
que produz a perda da consciência de que o mundo humano é um mundo socialmente
criado e mantido, constitui-se no agente privilegiado da falsa consciência e da
alienação. Embora use estes últimos termos, sua análise nada tem de marxista,
pois o que se oculta não é a dominação de classe, mas o caráter social da
construção da sociedade. Esta é vista por Berger como uma totalidade indivisa,
cuja transmissão se dá entre gerações. A questão em pauta é a da ordem, de sua
transmissão e manutenção. Mais próxima de Durkheim que de Marx ou mesmo de
Weber.
No entanto, em Berger a temática weberiana do sentido e da orientação normativa
da ação estão claramente presentes. No capítulo 5, denominado "O Processo de
secularização", o autor procura contextualizar a sociologia da religião de
Weber, mediante sua interpretação geral do processo de racionalização
característico do Ocidente, do papel da profecia ética, especialmente do
judaísmo e do protestantismo no desencantamento do mundo e, por fim, da
secularização no mundo moderno, que abre espaço ao pluralismo religioso
contemporâneo. Suas análises reproduzem sinteticamente as interpretações
weberianas, com alguma imprecisão, contudo, no que se refere aos conceitos de
desencantamento do mundo e de secularização. Diversamente de Bourdieu, a
influência da metodologia e da perspectiva weberiana de análise dos fenômenos
religiosos permaneceu grande no livro de Berger, mesmo que dela tenha se
afastado em textos posteriores.
Mais recentemente, Berger (2001), impressionado com o que chamou de
ressurgência das religiões nas últimas décadas do século passado, passou a
defender a discutível idéia da dessecularização. Neste novo trabalho continua a
atrapalhá-lo sua falta de clareza conceitual, principalmente no que se refere à
própria secularização. Suspendo essa discussão, no momento, para retomá-la mais
adiante, a propósito das considerações dos sociólogos da religião, inclusive
brasileiros, sobre as transformações que se deram no campo religioso na
atualidade, sobretudo no Brasil.
Em meados do século XX as análises weberianas relativas ao desencantamento do
mundo e à secularização crescente no mundo contemporâneo pareciam ter sido
confirmadas. Não que Weber adotasse uma perspectiva evolucionista de longo
alcance, que pressuporia a morte da religião em uma sociedade moderna
totalmente racionalizada pela ciência, pela tecnologia e pelo cálculo. Não.
Weber considerava que na modernidade a religião preservaria seu espaço, mas que
seria extraditada da esfera pública para a privada. Naquela predominaria um
Estado secularizado, legitimado pelo direito racional e burocraticamente
administrado. Isso não quer dizer que tais tendências o agradassem: sua
metáfora da "jaula de aço" (sempre discutida se dele mesmo ou de seu tradutor
para o inglês, Talcot Parsons) e seus lamentos de que a sociedade moderna,
burocrática e sufocante da criatividade individual seria "à prova de fuga",
revelam-no bem. Mas nesta sociedade a religião deveria persistir, isto é,
continuar sendo uma de suas esferas, porém não mais com o poder de antes,
restrita ao universo da individualidade e da família. Partindo dessas
considerações e mantendo seu espírito, considera Berger:
Tal religiosidade privada, por mais "real" que pareça ao indivíduo
que a adota, já não pode cumprir a função clássica da religião ' a de
construir um mundo comum no interior do qual toda a vida social
recebe um significado supremo que une a todos. Pelo contrário, esta
religiosidade limita-se a domínios específicos da vida social, que
efetivamente podem estar segregados dos setores secularizados da
sociedade moderna. Os valores próprios da religiosidade privada são
tipicamente alheios a outros contextos institucionais que não sejam
da esfera privada [...]. A religião manifesta-se como retórica
pública e virtude privada. Em outras palavras, até onde a religião é
comum, carece de "realidade" (1971, pp. 164-165, trad. minha).
Nas décadas de 1960 e 1970, em âmbito internacional, o que também repercutiu no
Brasil, o desencantamento e a secularização emergiram de forma contundente:
falava-se no exílio do sagrado (para o refúgio de grupos comunitários), em
"religião invisível" (Luckman) e em "Eclipse do sagrado" (Acquaviva). Vivia-se
o período da "crise das instituições religiosas produtoras de sentido", das
igrejas vazias, da crise de vocações religiosas para o sacerdócio, da perda da
influência das autoridades religiosas e, no Brasil, do abandono da Igreja
Católica por parte de padres que se engajavam em movimentos políticos.
Nas últimas décadas do século XX, paralelamente à expansão globalizadora
ocidental, de um lado, e à falência das experiências do socialismo real, de
outro, ressurgem as religiões no cenário mundial. O Papa João Paulo II recompôs
a autoridade da Igreja centralizada em Roma e ganhou projeção, inclusive como
vulto político de relevância internacional. Os seminários voltam a ter um
público maior de pessoas com vocação religiosa e a Igreja deixa-se revitalizar
por movimentos leigos, porém controlados de perto. No mundo todo, mas
especialmente na América Latina, tem-se o que Berger chama de "explosão
evangélica" que, juntamente com a "explosão islâmica", passa a ser a força
motriz da religiosidade em contraponto à secularização: "A contra-secularização
é um fenômeno ao menos tão importante no mundo contemporâneo quanto a
secularização" (Berger, 2001, p. 13). Seria a "revanche de Deus", conforme
radicalizava Kepel (1991), expressão que se tornou simbólica do retorno do
"Deus exilado".
Essas religiões ressurgentes, chama a atenção Berger, são conservadoras e com
forte apelo fundamentalista, características que, segundo o autor, asseguram ou
renovam as certezas solapadas pela modernidade, sobretudo das classes menos
favorecidas ' não pertencentes às elites intelectualizadas ', que têm mais
dificuldade em lidar com o relativismo e a insegurança presentes na sociedade
contemporânea. Como, normalmente, aqueles que se interessam pela segurança do
absoluto não têm mentalidade secularizada, as religiões que buscam não são as
que internalizaram racionalizações mais elaboradas. Voltaremos a essas questões
mais adiante, após análise dessa ressurgência religiosa no Brasil.
Antonio Flávio Pierucci, em artigo publicado em 1998 e em tese de livre
docência defendida em 2001 e publicada em 2003, aprofundou a análise e a
discussão de dois conceitos essenciais à compreensão da sociologia da religião
em Weber ' secularização e desencantamento do mundo. São ambos, artigo e tese,
produtos de cuidadosa e paciente pesquisa sobre os textos weberianos e de
profícuo diálogo com outros comentadores. Seu objetivo foi não só esclarecer os
conceitos, mediante sua localização nos escritos do autor, como também elucidar
o contexto em que foram empregados, ordená-los cronologicamente e, enfim,
realizar sua exegese.
Pierucci encontrou o termo secularização em oito passagens da sociologia do
direito (Economia e sociedade, cap. VII, parte 2, tomo 1), distinguindo os
seguintes empregos: expropriação dos bens eclesiásticos; destradicionalização;
racionalização formal das leis, do pensamento jurídico e do poder; surgimento
do direito natural como uma esfera diferenciada de valor; dessacralização do
pensamento; e desencantamento. Conclui o autor que, neste contexto da
sociologia jurídica e da burocratização do Estado, aparece genericamente "o
sentido forte de secularização como decadência do poder hierocrático" (1998, p.
61, grifo do autor).
Fora desse contexto, o autor constatou a utilização do termo, em todas as suas
variações gramaticais, apenas cinco vezes, três em A ética protestante e o
espírito do capitalismoe duas no ensaio sobre as seitas protestantes norte-
americanas. Nessas passagens o termo parece ter aplicações mais variadas: apego
ao material pelos protestantes, na ótica católica; ideologização do senso comum
pelos holandeses, em que a identificação entre pobreza e crença em Deus se
transmuta em identificação entre trabalho e baixos salários; confisco das
propriedades da Igreja no século VIII por Carlos Martel; e substituição da
afiliação a seitas protestantes por associações civis a que se adentram por
votação, como garantia de confiabilidade para homens de negócio. O uso
rarefeito e variado do conceito de secularização nas demais obras de Weber, em
face de sua univocidade e abundância relativa em sua sociologia jurídica, leva
Pierucci a concluir que esta constituiria seu núcleo duro e monossêmico.
Quanto ao conceito de desencantamento de mundo, Pierucci compulsou dezessete
textos ao longo da obra weberiana escrita entre os anos de 1913 e 1920, aos
quais denominou "passos". O conceito não é unívoco, pois desdobra-se em dois
tipos: desencantamento do mundo pela religião e pela ciência. O primeiro
refere-se ao processo de desmagificação procedida pela religião ética, iniciado
pelos profetas pré-exílicos israelitas e que alcançou seu ápice com a
emergência do protestantismo ascético racionalizado; o segundo, pelo
desenvolvimento da ciência, do cálculo e da tecnologia, que relegaram a
religião ao âmbito do irracional e a destituíram de sua proeminência na vida
social.
Examinando os conteúdos do conceito, Pierucci chega à seguinte contabilidade:
em 13 dos 17 "passos" considerados, o desencantamento do mundo significa
desmagificação ' o termo aparece isolado por nove vezes, e em quatro é
acompanhado pelo significado perda de sentido. Nos quatro "passos" restantes,
aparece apenas a expressão perda de sentido, o que não é nada desprezível, já
que seu uso pôde ser constatado oito vezes, isolada ou em combinação com
"desmagificação". Portanto, esses dois sentidos juntos constituem, segundo o
autor, o núcleo da significação do conceito.
O uso do termo em Weber de fato não é unívoco, lá isso é verdade. Ele
muda: dependendo da questão em tela ' e não do transcurso dos anos do
autor, atenção! ' ele se expande e se retrai, fica mais forte ou mais
fraco, mas nem por isso chega a se pôr como desbragadamente
polissêmico. É isso que pretendo deixar bem demonstrado aqui: não é
hiperpolissêmico e muito menos contraditório (Pierucci, 2001, p. 35).
Na fuga à polissemia, em si louvável, contudo o autor projeta-se na direção
contrária, rumo ao estreitamento do conceito além do que, talvez, o próprio
Weber pretendeu. Digo isso a partir da leitura atenta dos 17 "passos" pinçados
pelo analista, de sua contextualização bibliográfica e dos comentários
pertinentes realizados sobre eles. Meu ponto de partida será o primeiro
"passo", onde parece haver um equívoco de leitura por parte de Pierucci. Vamos
a ele:
A ação orientada segundo representações mágicas, por exemplo, tem
muitas vezes um caráter subjetivamente muito mais racional com
relação a fins do que qualquer comportamento "religioso" não mágico,
posto que a religiosidade, à medida que avança o desencantamento do
mundo, se vê obrigada a aceitar referências de sentido cada vez mais
subjetivamente irracionais com relação a fins (referências "de
convicção" ou místicas, por exemplo) (Weber, "Sobre algumas
categorias da sociologia compreensiva", p. 47, apud Pierucci, 2003,
p. 16).
Neste texto Weber inverte, como bem o percebe Pierucci, sua tradicional
oposição entre magia e religião, considerando esta irracional diante daquela. O
que aqui está sendo discutido por Weber é justamente a distinção entre formas
alternativas de acesso ao supra sensível. Não é sem motivo, portanto, que
Pierucci elabore uma excelente análise sobre a questão, chamando a atenção para
o que Weber enfatiza a esse propósito ao longo de seus escritos e omite no
texto citado: o caráter sistemático e racional da profecia cosmogônica diante
do caráter parcelar da manipulação mágica. O fato de esta dicotomia entre o
carisma mágico e o carisma religioso ter sido focada pelo próprio Weber mostra
que o desencantamento de mundo a que ele se refere no "passo 1" é aquele
realizado pela religião, e não pela ciência. Tanto é assim que suas referências
às expressões tidas, neste texto, como mais irracionais, em face da magia no
que se refere aos seus fins, são as profecias éticas (de convicção) ou
místicas, e não as intrinsecamente racionais, como seriam no caso do
"desendeusamento" da religião pela ciência. São irracionais quanto aos fins por
se tratar de valores incapazes de serem cientificamente verificados ou
validados, e por remeter a um imaginário absolutamente transcendente. No
entanto, são capazes de orientar comportamentos, estes sim, muito mais
racionalizados do que os dos rituais mágicos.
Se minha leitura está correta, o significado do desencantamento não é a perda
de sentido, como pretende Pierucci (2003, p. 47), mas justamente o seu
contrário ' ganho de sentido! Sendo o mundo desencantado pela religião, esta,
ao mesmo tempo em que desmagifica, confere sentido ao mundo, mesmo que apelando
a valores subjetivamente irracionais e remetendo ao transcendente.
Contrariamente à religião profética, racionalizada e eticizada, a magia não
pode conferir sentidos cosmológicos mais amplos por ser deles desprovida; seus
sentidos são imediatos e parciais, como bem afirma o próprio Pierucci:
Magia não porta racionalidade teórica, nem sistêmica, mas prática.
Não prático-ética, mas prático-técnica. Uma racionalidade
subjetivamente significativa apenas se encarada de modo avulso,
desconexo, desconjuntado. Uma racionalidade elementar, não sistêmica.
Os atos mágicos não se perfilam numa seqüência significativa, não se
ordenam num plexo homogêneo de sentido, não são capazes de travejar
coerentemente uma conduta de vida. Não "fazem sentido", um sentido
que arregimente a vida de sua dispersão constitutiva (2003, p. 80,
grifos do autor).
Tal caráter evidentemente antimágico do desencantamento religioso do mundo não
anula mas, ao contrário, constitui seu poder de conferição de sentido de vida
eticamente racionalizada. Creio que essa mesma leitura possa ser estendida à
interpretação de Pierucci relativa ao "passo 3", a saber:
Quanto mais o intelectualismo repele a crença na magia, e com isso os
processos do mundo ficam desencantados, perdem seu sentido mágico e
doravante apenas "são" e "acontecem" mas não "significam" mais nada,
tanto mais urgentemente resulta a exigência, em relação ao mundo e à
"conduta de vida" como um todo, de que sejam postos em uma ordem
significativa e "plena de sentido" (Weber, Economia e sociedade, apud
Pierucci, 2003, p. 48).
Não há dúvida alguma de que, no texto, a ênfase na desmagificação está dada,
conforme Pierucci registra. No entanto, o agente da desmagificação no contexto
do pensamento weberiano não é a ciência, mas a religião. O que se perde é o
"sentido mágico", que, como sabemos, tem uma racionalidade apenas embrionária e
prática. O intelectualismo que repele a magia é o dos profetas éticos, dotados
da "cultura intelectual de sua época", conforme assevera Weber, não o dos
cientistas afeitos ao cálculo e à racionalidade instrumental. Somente aqueles
profetas é que podem apresentar o mundo em uma ordem significativa, conferindo-
lhe sentido, já que para os cientistas, afeitos ao "espírito de sua época",
isto seria impossível. Portanto, mais uma vez temos ganho e não perda de
sentido, contrariamente ao que supõe Pierucci.
Não poderia ser de outra maneira. Não só porque quem desmagifica é a profecia
ética, mas também porque não se pode desmagificar sem oferecer uma visão de
mundo coerente, sistêmica e cosmicizante como alternativa dentro do campo
religioso. Desmagifica-se ao mesmo tempo e mediante a plena conferição de
sentido capaz de integrar história, biografia e natureza. E quem pode fazer
isso é somente a profecia ética, não a ciência, reitero. Da mesma forma afirmo
que não só nesses dois "passos" a idéia de ganho está implícita ou
explicitamente presente, mas em todos os outros oito em que a desmagificação
seja referida. Haveria apenas perda de sentido nos casos em que Weber se refere
ao desencantamento de mundo pela ciência, sobretudo nos textos de A ciência
como vocação ("passos" 7 a 12). Aí, sim, aparece claramente a questão da perda
de sentido, pois esta é a vocação da ciência, qual seja, a de remeter a
religião ao campo do irracional e de afirmar a carência de sentido vinculada a
origens e fins últimos.
Embora Pierucci insista em vincular à desmagificação a perda de sentido, no que
se refere ao conceito de desencantamento de mundo weberiano, ele próprio
termina por reconhecer que não se pode, dentro do universo religioso,
desmagificar sem conferir sentido. É apenas no contexto da expansão da ciência
moderna que se poderia encontrar um desencantamento ao mesmo tempo
desmagificador e despojado de sentido:
É deveras intrigante observar como a noção de um sentido metafísico
que transforma o mundo em cosmos ordenado, quando considerado do
ponto de vista do desencantamento de mundo, tem em Weber uma dupla
entrada e, mais importante, uma dupla direção. O judaísmo profético,
quando desencanta o mundo, confere-lhe um sentido homogêneo, tal como
explica Weber, longamente, no final da seção de Economia e sociedade
dedicada ao profeta; em compensação, a ciência empírica moderna,
quando desencanta o mundo, retira-lhe o sentido, transformando este
mundo num mero mecanismo causal, em cosmos da causalidade natural,
conforme dito e repetido n'A ciência como vocação e na Consideração
intermediária.[...] Pode-se desencantar o mundo ordenando-o sob um
sentido que unifica, como fez a profecia ético-metafísica, e pode-se
desencantá-lo estilhaçando este sentido unitário, como tem feito a
ciência empírico-matemática(2003, p. 185, grifos do autor).
Reconhece, portanto, que a conferição de sentido é concomitante à
desmagificação, no caso do desencantamento religioso, admitindo inclusive que
Aqui, sim, talvez caiba pensar em plurivocidade do desencantamento,
mais ou menos na direção apontada por Ricoeur, para evitar que o
conceito se torne vítima de uma univocidade acanhada (Idem, p. 183).
Mas, mesmo assim, insiste:
Talvez, digo eu, e vou logo acrescentando: contanto que não seja para
dissipar em metaforizações e inconsistências sem qualquer serventia
técnico-científica esse núcleo duro do conceito que na sociologia
tardia de Weber alberga o tempo todo uma plurivocidade binária
concomitante e não estratificada (Idem, ibidem).
Tal reconhecimento, que vem atenuar a tendência a uma excessiva restrição do
conteúdo sociológico do conceito weberiano de desencantamento, poderia, ainda,
ser mais bem explicitado quanto às suas especificidades: se em sua primeira
forma pode ser entendido como desmagificação, não o é na segunda forma. Neste
caso corresponderia a um outro processo, pois é preciso supor que, no caso do
Ocidente moderno, analisado por Weber, a religião atacada pelos fundamentos da
racionalidade técnico-científica já havia se expurgado dos componentes mágicos
mais evidentes. Diante da magia, afirmava-se racionalizada ritual e
doutrinariamente. É a essência da crença ético-religiosa que é contestada pela
ciência emergente, a qual se torna forma de saber hegemônica, ou seja, é antes
"desendeusamento" que desmagificação. E é justamente por remover a crença em
deuses que afasta o sentido conferido pela religião, relegada à
irracionalidade. Mas a religião ética, ao mesmo tempo em que resiste à
modernidade, tentando preservar-se, de certa forma preparou-lhe o caminho, ao
moldar mentalidades desencantadas e racionalizadas, com ela eletivamente
afinadas.
Infelizmente este reconhecimento, por parte de Pierucci, do caráter conferidor
de sentido e não seu anulador, contido no processo de desencantamento do mundo
pela religião, não teve maiores conseqüências em sua análise, pois continuou a
classificar os textos weberianos ("os passos", referidos anteriormente) como
oscilando entre significados contraditórios de desmagificação e ausência de
sentido. A constatação não altera sua contabilidade nem matiza a diversidade
dos conteúdos/sentidos compulsados. Insiste, portanto, na contradição a um só
tempo lógica e teórica entre desmagificação e perda de sentido no contexto do
desencantamento de mundo propriamente dito.
Retomemos esta seqüência histórica entre os dois momentos do amplo processo de
desencantamento de mundo captado por Weber. Ater-me-ei aos dois conceitos
focalizados, desencantamento e secularização. Em sua busca dos sentidos de
ambos os conceitos, tal como os entendia Weber, Pierucci aproxima-se de suas
obras, seleciona e analisa os textos em que foram utilizados, relacionando-os
entre si e com o horizonte mais amplo de Weber: a racionalidade característica
do Ocidente. Trabalho paciente, criterioso e produtivo, apesar da discutível
superposição acima exposta, no primeiro dos conceitos, entre desmagificação e
perda de sentido. Nesta exposição irei apenas ao essencial para a análise que,
a partir deles, pretende focalizar suas implicações relativas à realidade
religiosa brasileira.
Há um longo e contínuo processo de racionalização na civilização ocidental,
cujo destino último ("o destino do nosso tempo") seria o surgimento da ciência
e seu progresso ininterrupto. Neste processo, podem-se observar dois momentos
cruciais. O primeiro é o célebre desencantamento do mundo. Corresponde ao fim
de uma etapa da vida da humanidade em que a magia seria a forma predominante de
crença, instrumentalizada para fins utilitários e econômicos. Apesar de ter a
sua racionalidade específica, fixada pela tradição, incentivava práticas
sociais descontínuas e isoladas, que inibiam a exploração e a incorporação mais
eficiente da natureza. Com o aparecimento da religião ética por meio das
profecias, a mensagem religiosa racionaliza, metodiza e moraliza as relações,
desmagificando o universo de crenças. Este seria o sentido principal do termo
desencantamento percebido por Pierucci nos textos de Weber. Seria, portanto, a
atuação da religião sobre a magia, embora esta não tenha sido eliminada de
todo, persistindo submissa e enfraquecida em certas simbioses com a própria
religião. No fundo, seria a descosmicização do sagrado, que deixa de ser
imanente e se transcendentaliza, abrindo caminho para a atuação racional do
homem no mundo. Processo longo, que se inicia com os profetas judaicos,
retroage com o catolicismo e chega a seu ápice com o protestantismo ascético.
Com ele a vida humana individual e social ganha um sentido capaz de explicá-la
em sua totalidade.
O segundo momento seria o da secularização. A racionalização avança, sendo
agora a vez da ciência, mas também da tecnologia e do cálculo atuarem sobre a
religião, restringindo seu campo de ação dentro da sociedade. Não mais tendo
influência sobre o Estado, que se legitima pelo direito racional, resta-lhe o
estreito espaço da subjetividade. Na modernidade, o novo agente racionalizador
não a provê de um novo sentido, mas elimina os já existentes. A secularização
seria um processo que se dá no plano estrutural da vida social. Sociedade
secularizada é aquela em que a religião permanece, repetindo agora Berger,
"como retórica pública e virtude privada".
Armado do aparato conceitual weberiano, Pierucci opôs-se às interpretações que
viam na ressurgência das religiões a queda de mais um paradigma sociológico, o
da secularização. Não se refere ele a Berger, que se enquadraria muito bem
entre seus adversários teóricos, uma vez que rejeitou a teoria da secularização
e passou a usar os termos dessecularização e contra-secularização. Em verdade,
esta crítica poderia ter sido feita. Mencionei anteriormente que Berger faz
certa confusão entre os conceitos de desencantamento e secularização, não os
distinguindo como racionalização, respectivamente, dentro do campo religioso
(que atua sobre as mentalidades) e dentro do campo científico (fenômeno
socioestrutural). Em decorrência disso, o autor norte-americano considera que a
secularização pode se dar não apenas no plano da sociedade, mas também na
esfera da cultura e da subjetividade.
As baterias de Pierucci voltaram-se contra aqueles a quem designa "sociólogos
religiosos da religião", pois, de alguma forma, não apenas acreditariam como se
regozijariam da dessecularização. Suas críticas recaíram em várias direções, a
saber:
* Trariam a idéia de um Weber ao mesmo tempo evolucionista e profético, no
sentido de que teria previsto o fim das religiões no mundo moderno.
* A religião jamais tornará a retomar sua relevância social, pois a ciência
seria, segundo Weber, "o destino de nosso tempo".
* O ressurgimento das religiões no mundo contemporâneo é um produto da
secularização ' somente esta poderia gerar o pluralismo religioso.
* Fatos empíricos tais como o crescimento das antigas religiões julgadas
estagnadas ou o aparecimento de novas religiões, grupos religiosos e de
uma religiosidade difusa e informe, nada significariam de especial.
Demonstrariam apenas o surgimento de "comunidades emocionais" sem maior
relevância social.
* A persistência da crença em Deus por parte da grande maioria das pessoas
também nada significa. São apenas dados empíricos.
Fui um dos agraciados com o (des)qualificativo de "sociólogo religioso da
religião". Tive, em duas oportunidades, uma pequena citação transcrita por ele,
como exemplar desta minha filiação, no artigo sobre secularização e em sua
tese. Remeto-me a essa citação para, a partir dela, esclarecer minhas
concepções.
Vale ouvir o que tem sido dito por aqui mesmo, no Brasil. Cito como
exemplo significativo a formulação de um pesquisador da USP,
altamente prestigiado nos meios brasileiros de sociologia da
religião, apenas para ter por onde acessar esta grande onda formada
pelos defensores do reencantamento do mundo: "As análises de Weber
foram válidas para um período encerrado da história do Ocidente: o
apogeu da racionalidade num mundo desencantado, em que o sagrado se
exilou. Mais recentemente vivemos o período do chamado retorno do
sagrado' ou revanche de Deus', em que este mundo, de alguma forma,
se reencanta. Mesmo se considerarmos a realidade do terceiro mundo em
geral e do Brasil em particular, em que o sagrado persistiu, é
inegável que a religião aí se revitalizou, paralelamente ao
reencantamento primeiro mundista" (Pierucci, 1998, pp. 46-47).
Este texto foi escrito há quase dez anos, um simples comentário que me pediram
pra redigir para a apresentação de seminário sobre misticismo e novas
religiões. Nele eu aceito a idéia de reencantamento das religiões no mundo
moderno, baseado em minhas leituras sobre a realidade religiosa mundial. Mas o
período encerrado da história a que me referia não era o da racionalidade
desencantada, da ciência, ou da modernidade, mas o do seu apogeu, que teria se
dado em meados do século XX. Após isso, não só teria se dado, então, a grande
ressurgência da religião, mas a própria ciência vinha sendo contestada pelo não
cumprimento da totalidade de suas promessas e pelos efeitos colaterais danosos
que seu desenvolvimento, sobretudo o tecnologicamente aplicado, causaram.
Nessa passagem específica, vale dizer, apenas uso o termo desencantamento de
forma adjetivada ("mundo desencantado"), para qualificar tal período. Utilizei-
me da expressão "reencantamento" por duas vezes, justamente porque a
ressurgência religiosa se daria no plano das realidades culturais e das
subjetividades, o que não implica em dessecularização, ou seja, retomada da
influência da religião no plano socioestrutural. Não significava, também,
nenhum reconhecimento ou insinuação relativa ao fim do paradigma da
secularização, embora a concisão do texto pudesse permitir tal interpretação.
Ao final, menciono a persistência do sagrado, no caso brasileiro. Com isso quis
dizer que houve, no Brasil, uma persistência do encantamento. Defendo essa
posição com base em análises da realidade religiosa brasileira desde a época
colonial até o Brasil contemporâneo. Reafirmo a impropriedade de se entender o
desencantamento estritamente como desmagificação. O desencantamento em Weber é
visto como processo que implica na "desmagificação da atitude ou da mentalidade
religiosa" (Idem, p. 43). Como processo, pode refluir (caso do catolicismo em
relação ao judaísmo) ou intensificar-se e chegar ao seu ápice (caso do
protestantismo ascético). Mas é um processo que transcorre na esfera da
subjetividade; nas palavras de Pierucci, trata-se de incidências no plano da
atitude e da mentalidade, nada tendo a ver com secularização, se não como uma
forma inicial de racionalização que lhe prepara o campo:
Não é preciso conhecer muito de sociologia de Weber para daí deduzir,
seguindo as regras básicas de seu pensamento, que não há
racionalização possível da conduta de vida ' e é isto que no fundo
interessa a Weber como indagação sociológica significativa ' sem que
se quebre, não só o feitiço, mas o poder do feitiço sobre a mente das
pessoas (Idem, p. 56).
Na formação da sociedade brasileira nada houve de semelhante à ética
protestante, no campo religioso, desde seus primórdios. O país foi inicialmente
povoado por aldeões portugueses e degredados que trouxeram consigo seus santos
e demônios, seu culto às almas. Formou-se a partir daí um catolicismo popular
acentuadamente mágico, voltado ao controle dos males deste mundo, centrado no
ato devocional. Trata-se do conhecido "catolicismo rústico", componente
essencial da "cultura rústica" tal como a caracterizaram Antonio Candido de
Mello e Souza (1972), Maria Isaura Pereira de Queiroz (1965, 1968) e Duglas
Teixeira Monteiro (1974). Conviveu aqui com religiões afrobrasileiras e
indígenas, com as quais trocou deuses, crenças e rituais, formando uma
mentalidade religiosa híbrida e sincrética, densamente mágica e encantada. Não
se quebrou o feitiço, nem sua influência sobre a mentalidade popular.
Ao longo dos períodos colonial e imperial e de quase todo o republicano,
delgadas camadas populacionais urbanas litorâneas, sobre as quais atuaram
sobretudo ordens religiosas afinadas com o projeto de romanização do
catolicismo no Brasil, permaneceram mais próximas a um catolicismo ortodoxo,
romanizado. Hoje, apesar de religião ainda majoritária, a maior parte dos
católicos é formal, despossuída de habitus religioso, sendo que provavelmente
um terço deles (conforme apontam os resultados de minhas pesquisas atuais)
freqüentam outros grupos religiosos, têm crenças e práticas não católicas,
sobretudo mágicas. Isto para não falar na Renovação Carismática, movimento
leigo ao mesmo tempo incentivado e controlado pela hierarquia. Apesar de fiel à
Igreja e ao sacerdócio, e embora seja um movimento basicamente formado por
pessoas de classe média, sua religiosidade é bastante emotiva, incluindo
elementos mágicos em seus cultos, voltados às curas e à solução de problemas
pessoais de natureza diversa. Uma espécie de pentecostalismo católico.
Weber tinha acabado de redigir a Ética protestante, quando o protestantismo de
conversão se firmava e começava a crescer entre nós. Embora com algum potencial
ético e racionalizador, tratava-se de formas pentecostais (inicialmente a
Assembléia de Deus e a Congregação Cristã) centradas nas manifestações de dons
miraculosos do espírito; mais tarde, em meados do século XX, surgem as igrejas
fundadas por pastores brasileiros como O Brasil para Cristo e Deus é Amor. São
as únicas igrejas protestantes que realmente se desenvolveram, plenas de
emotividade e encantadas pelas manifestações do Espírito Santo, e vêm se
desdobrando em "ondas" até o presente ' as igrejas neopentecostais fundadas a
partir da década de 1970, podem ser consideradas a última manifestação dessa
natureza (IURD, Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo, entre
outras).1
É em plena época da consolidação do Estado republicano modernizante e do surto
de urbanização e industrialização a partir dos anos de 1930 que os grupos
pentecostais iniciam seu percurso para se tornar religiões de massa,
rivalizando com o catolicismo popular. Além deles, várias modalidades de cultos
afrobrasileiros, tais como umbanda, candomblé, batuque e outros, fixaram-se
sobretudo no cenário urbano, onde adquiriram uma importância cultural maior que
o número de seus adeptos faria supor. Religiões mágicas, encantadas, portanto.
Juntas compuseram todas elas um campo religioso amplo e popular, no Brasil do
século XX urbano e rural.
Insisto que não houve, de forma significativa, nada semelhante à mensagem
profética racionalizadora neste contexto religioso prenhe de encantamento. Os
grupos protestantes históricos (batistas, presbiterianos metodistas),
potenciais herdeiros da racionalidade e da ascese puritana tradicional, são
minoritários, crescendo apenas vegetativamente, a não ser quando também se
pentecostalizam e, portanto, aderem à milagrosa manifestação do Espírito
(Mendonça, 1984; Mendonça e Velasques Filho, 1990). Por outro lado, os
pentecostais em geral assimilaram uma doutrina de origem norte-americana, a
Teologia da Prosperidade, que nada tem a ver com a metodização da prática
econômica levada a efeito pela ética protestante tradicional. Volta-se ao
consumo, à fruição dos bens deste mundo, ao gasto irresponsável (Mariano,
1999). Os maiores grupos religiosos brasileiros, inclusive os católicos '
lembre-se de que Weber considerou o surgimento do catolicismo um retrocesso no
processo de desencantamento ' permanecem com sua mentalidade encantada,
buscando e participando de rituais mágicos. A afirmação do mistério, a crença
no milagre e a prática da magia continuam encantando o cotidiano da grande
maioria dos religiosos brasileiros, avessos às fidelidades religiosas e à
racionalização do comportamento.
Sendo a racionalização mediante o desencantamento ' isto é, a desmagificação '
um passo teoricamente prévio porém historicamente não efetivado no Brasil, mas
antecedente necessário à posterior racionalização secularizante na análise
weberiana referente à emergência do capitalismo no mundo ocidental, como teria
se dado a secularização no Brasil? Esta é a questão pertinente, pois, não
obstante a permanência do encantamento no plano das mentalidades, o Brasil é,
de fato, secularizado: existe a separação entre Igreja e Estado, a
administração realiza-se a partir de códigos legais e órgãos executivos
seculares, sem nenhuma influência decisiva por parte de grupos religiosos. A
ciência, a tecnologia e o cálculo racional presidem às atividades produtivas.
Minha hipótese para explicar tal descompasso é de que nossa modernização
racionalizante é extra-religiosa. Sem contar com a racionalização prévia da
desmagificação/desencantamento, a modernidade foi introduzida com maiores
esforços pelos seus agentes, em especial o Estado. Talvez em razão disso, em
alguns episódios da República nascente ' refiro-me a Canudos e ao Contestado '
ela tenha sido conseguida por meio da força das armas e do poder bélico do
exército. Mas o Estado também soube agir de maneira mais sutil, por exemplo com
a massificação dos rudimentos da racionalidade ' leitura, escrita, matemática
elementar, procedimentos do conhecimento científico ' e com a crescente
universalização do sistema educacional de ensino básico. O Estado e seus
aliados privados ' tais como grupos de produtores de bens e serviços, nacionais
e estrangeiros, mecanismos de comunicação de massa ', em esforço conjunto,
tiveram êxito em construir uma nação secularizada, de economia fundada na
racionalidade instrumental capitalista. Mas tal racionalidade é relativa, uma
vez que lhe falta o fundamento das mentalidades desencantadas, mesmo que
religiosas. Não seria, talvez, esta a razão pela qual as classes médias e mesmo
as elites instruídas e bem postas profissionalmente, desempenhando funções
ligadas à tecnologia de ponta, se sintam no Brasil atraídas por esoterismos,
por discursos da Nova Era, por filosofias religiosas de origem oriental?2
Creio que esta interpretação de nossa permanência num estado de semi-
encantamento e secularização relativa não esteja em desacordo com a teoria
weberiana. Desde logo porque desencantamento e secularização são processos que,
embora busquem a racionalidade, são reversíveis. Se houve momentos históricos
em que tais processos se deram de maneira plena e absoluta ' vale lembrar o
desenvolvimento inicial do protestantismo ascético e o mundo secularizado
contemporâneo de Weber, há também casos de retrocesso, resistências e impasses.
A sociedade brasileira, com sua religiosidade que permanece em parte encantada
pois que renitentemente mágica, é um caso particular da realidade em que a
generalidade típico-ideal do método weberiano não é capaz de abarcar
plenamente. E isso nenhuma surpresa deveria causar, pois, é sabido, ou deveria
sê-lo, que os tipos ideais não são fins em si mesmos, são instrumentais. Devem
ser construídos com base na realidade, mas não a esgotam nem a substituem. E a
realidade concreta, à qual o tipo é usado como instrumento heurístico, não
necessita reproduzi-lo, pode dele distanciar-se, diferir, pois não são tipos
empíricos, nem muito menos de abrangência universal. Cada sociedade, cada
momento histórico, tem a sua fisionomia própria, que cabe ao pesquisador
captar.
Os referenciais weberianos, seus conceitos típico-ideais, sua interpretação
quanto ao processo de racionalização crescente da civilização ocidental não
podem ser usados de maneira fundamentalista. Com efeito, isso descaracterizaria
seu método e significaria a perda da concretude histórica à qual Weber
objetivava alcançar. Proceder assim seria recair no mesmo erro já cometido em
relação a Marx, isto é, deixar que os resultados de sua análise, tidos como
paradigmáticos, prevalecessem sobre sua metodologia e suas intenções. Que Weber
continue a ser o instigante autor que sempre foi e que não se crie, em nome de
uma suposta ortodoxia teórico-conceitual, uma esterilização da criatividade e
da imaginação sociológicas.
Notas
1 Entre outros autores, ver Souza (1969) e Campos (1997).
2 Trata-se de uma hipótese a ser considerada, embora o mesmo fenômeno atinja,
em certa medida, a Europa ocidental, conforme chama a atenção Cecília Mariz
(2001).