Enxertia precoce da gravioleira (Annona muricata L.)
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
PROPAGAÇÃO
Enxertia precoce da gravioleira (Annona muricata L.)1
Early grafting in soursop (Annona muricata L.)
Mário Couquiti KitamuraI; Eurico Eduardo Pinto LemosII
IEng. Agrº. M.Sc. Dr. Prof. Adjunto, UFRR, km 12, Boa Vista-RR, CEP 69.301-
970,. e-mail: couquiti@uol.com.br
IIEng.Agrº. M.Sc.Ph.D.,Prof. Adjunto UFAL,BR 104, km 14, Maceió-AL, CEP 57072-
970, e-mail: eepl@uol.com.br
A enxertia constitui-se em prática mundialmente consagrada na fruticultura,
sendo usada em larga escala, nas principais espécies frutíferas, tanto de
regiões de clima temperado como de clima tropical, e sua utilização permite a
reprodução integral do genótipo que apresenta características desejáveis. Como
vantagem adicional, a propagação por enxertia possibilita que as plantas entrem
em fase de produção mais cedo (Carvalho et al., 2000).
As pesquisas com gravioleira no Brasil são relativamente recentes e, portanto,
poucos resultados práticos foram efetivamente alcançados. Na área de propagação
vegetativa, sobretudo a enxertia, são escassos os resultados de pesquisa e,
algumas vezes, muito contrastantes devido às diferentes condições climáticas
dos locais experimentados, além da influência da idade, do estado fisiológico e
fitossanitário dos porta-enxertos e das plantas matrizes fornecedoras dos
garfos e borbulhas (Pádua, 1983).
Normalmente na propagação vegetativa, utilizam-se porta-enxertos com 8 a 12
meses de idade, apresentando diâmetro médio do caule em torno de 1,0cm na zona
operatória, isto é, na altura de 20 a 25cm do coleto da planta, enxertando-os
pelos métodos de enxertia por borbulhia ou por garfagem (Melo et al., 1983;
Ledo & Fortes, 1991; Genú et al., 1992; Freitas, 1997). Conseqüentemente,
as mudas deverão estar prontas para plantio no campo com idade acima de 12
meses (considerando 3 a 4 meses após a enxertia), exigindo, portanto,
recipiente com capacidade volumétrica de 6 a 8 kg de substrato, maior demanda
de mão-de-obra, insumos, água para irrigação, área para viveiro, resultando em
maior custo de produção.
Estudos indicam que a idade do porta-enxerto determina qual o tipo de enxertia
na propagação da gravioleira. Lederman et al. (1997) verificaram que o índice
de pegamento do enxerto, utilizando porta-enxertos com 12 meses de idade, foi
superior aos de 10 meses, obtendo 97,5% de "pega", enxertando-os pelo método de
borbulhia em placa. Outros trabalhos conduzidos por Ledo e Fortes (1991),
estudando nove métodos de enxertia da gravioleira em porta-enxertos com 12
meses de idade, obtiveram maiores índices de pegamento do enxerto pelo método
de garfagem à inglesa simples e garfagem de topo em fenda cheia.
Na enxertia precoce, busca-se utilizar porta-enxertos com idade bem mais jovem
do que aqueles utilizados normalmente; conseqüentemente, pode-se reduzir
significativamente o custo de produção, em função da redução do volume de
substrato, materiais de consumo e do tempo de permanência das mudas no viveiro,
além de outras vantagens, como facilidade no manuseio, intercâmbio de
germoplasma e redução no custo do transporte. Nesse sentido, foi instalado um
experimento em julho de 2001, no Campo Experimental da Universidade Federal de
Alagoas-UFAL, no município de Maceió-AL, com o objetivo de viabilizar a
enxertia precoce da gravioleira. Este trabalho foi conduzido em condições de
viveiro, tendo sido utilizados a gravioleira 'Morada' como porta-enxerto e a
cultivar comercial 'Gigante das Alagoas' como enxerto.
As sementes utilizadas para a formação dos porta-enxertos foram extraídas de
frutos recém-colhidos da gravioleira 'Morada', semeadas diretamente em
recipientes tipo tubetes de plástico preto, rígido, de formato cônico, com
capacidade volumétrica de 0,32 litro. Esses tubetes foram dispostos em fileiras
duplas (50cm x 7cm x 7cm) sobre um suporte de ferro, de forma que mantivesse os
tubetes a 5cm acima do piso, visando à poda natural das raízes pelo vento e a
evitar possível contaminação por fungos do solo. Inicialmente, os porta-
enxertos desenvolveram-se sob sombreamento de 50%, sendo irrigados por
microaspersão. Posteriormente, por ocasião da enxertia, essas plantas foram
transferidas para ambiente com 80% de sombreamento, visando a fornecer melhores
condições para o pegamento do enxerto.
O delineamento experimental utilizado foi o de blocos casualizados, com quatro
tratamentos, cinco repetições e dezesseis plantas por parcela, perfazendo um
total de 320 plantas. Os tratamentos consistiram em quatro idades de porta-
enxertos (40; 55; 70 e 85 dias após a emergência-DAE).
O substrato consistiu na mistura de 50% de terra de barranco e 50% de composto
orgânico (torta de filtro de cana-de-açúcar), ambos peneirados com malha de
10mm. Foram adicionados 2,5 kg de calcário dolomítico (PRNT 100%), 5 kg de
superfosfato simples (18% P2O5) e 1 kg de cloreto de potássio (60%K2O) por m3
da mistura. O nitrogênio foi aplicado em cobertura, utilizando-se como fonte da
uréia (45%N) diluída a 0,3% e aplicada a partir de 30 dias após a emergência
das plântulas.
O método de enxertia empregado foi por garfagem de topo em fenda cheia, e os
garfos utilizados foram coletados no ápice dos ramos das plantas adultas do
clone da gravioleira 'Gigante das Alagoas', apresentando diâmetro semelhante ao
dos porta-enxertos. Com sete dias de antecedência da enxertia, foi feita a
"toalete" dos garfos, retirando suas folhas para induzir o intumescimento das
gemas e proporcionar melhor pegamento dos enxertos.
O procedimento para a enxertia consistiu nas seguintes etapas:
a) Decapitação do porta-enxerto a uma altura de 4cm, a partir do colo da
planta;
b) No porta-enxerto decapitado, colocou-se um anel de canudo plástico de
refrigerante com 2cm de comprimento e diâmetro que variou de 3,5mm a 6mm,
ligeiramente superior ao do caule da planta na região de incisão;
c) Em seguida, fez-se um corte vertical com 0,7cm de comprimento no topo do
porta-enxerto;
d) No garfo, fez-se um corte em bisel duplo, em forma de cunha, com 0,7cm de
comprimento na extremidade inferior do garfo;
e) Em seguida, efetuou-se a inserção do garfo sobre a fenda produzida no porta-
enxerto, e manualmente fez-se o ajuste do anel de canudo plástico de forma que
a justaposição enxerto/porta-enxerto fosse perfeita;
f) Finalmente, fez-se a cobertura do enxerto com saco plástico incolor e
transparente, com dimensões de 4 x 16cm, preso logo abaixo do enxerto.
Os sacos plásticos de cobertura do enxerto foram retirados aos 30 dias após a
enxertia. Não foi necessário fazer a remoção dos anéis plásticos, pois estes se
romperam naturalmente.
Foram avaliados o diâmetro e a altura dos porta-enxertos aos 40; 55; 70 e 85
dias após a emergência, e a porcentagem de enxertos "pegos", aos 60 dias após a
enxertia. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância, sendo as
médias comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.
A idade do porta-enxerto teve efeito significativo (P<0,05) sobre o pegamento
do enxerto (Tabela_1). Verificou-se que a idade de 85 dias após a emergência
(DAE) foi superior às demais quanto ao pegamento do enxerto, proporcionando
porcentagem média de pegamento de 82%, o qual foi semelhante ao obtido por
Ferreira & Clemente (1987), Ledo & Fortes (1991), Lederman et al.
(1997), em trabalhos de enxertia da gravioleira por borbulhia, utilizando como
porta-enxerto a própria gravioleira com 12 meses de idade.
Em porta-enxerto com a idade de 40 dias após a emergência, não houve pegamento
do enxerto; no entanto, com a idade de 55 dias após a emergência, verificou-se
porcentagem média de pegamento de 22,5%, o qual não diferiu estatisticamente da
idade de 70 dias após a emergência. Portanto, aos 55 e 70 dias após a
emergência, o índice de pegamento do enxerto foi baixo, sendo economicamente
inviável a sua recomendação para a produção comercial de mudas de gravioleira.
A idade do porta-enxerto, que resultou em maior índice de pegamento, foi aos 85
dias após a emergência, quando apresentou porcentagem média de pegamento de 82%
(Figura_1).
É importante ressaltar que, neste experimento, a enxertia foi realizada em
porta-enxertos jovens com idades variando entre 40 a 85 dias após a emergência,
cujos diâmetros médios na zona operatória, isto é, a 4cm de altura do coleto da
planta, se apresentavam entre 1,71 a 3,25mm (Figura_2). Em função da
precocidade dos porta-enxertos, houve muita dificuldade na operação da enxertia
devido ao manuseio de caules finos e tenros. Com o aprimoramento desta técnica,
é possível melhorar o índice de pegamento dos enxertos.