Diabetes Mellitus: desafios relacionados ao autocuidado abordados em Grupo de
Apoio Psicológico
INTRODUÇÃO
Atualmente, vive-se um descompasso entre o perfil epidemiológico da população e
o foco da assistência em saúde. Enquanto as condições crônicas prevalecem, as
ações de saúde são essencialmente curativas, voltadas para o atendimento de
agravos agudos. Para responder a essa demanda é necessário priorizar ações
relacionadas com a promoção da saúde e prevenção de complicações(1-4).
Intervenções educativas são essenciais nesse contexto de atendimento, com
vistas à inclusão das pessoas no cuidado da própria saúde.
Dentre as condições crônicas, o Diabetes Mellitus (DM) é uma morbidade
relevante devido ao acometimento populacional crescente e à natureza
incapacitante dos agravos decorrentes de suas complicações. As intervenções
profissionais visam, especialmente, à obtenção do controle glicêmico para
evitar ou minimizar tais complicações(5-6).
Entretanto, o controle glicêmico constitui um desafio na medida em que depende
da mudança de hábitos, muitas vezes arraigados culturalmente e associados a
questões subjetivas relacionadas ao modo de vida das pessoas. A troca de
experiências entre as pessoas que convivem com DM é relevante para que possam
repensar as ações cotidianas dos cuidados direcionados à doença(7).
Nesse sentido, o atendimento em saúde deve incluir atividades de cunho
educativo e também de suporte para apoiar a população no enfrentamento dos
desafios inerentes ao tratamento do DM. Assim, "habilidades avançadas de
comunicação, técnicas de mudança de comportamento, educação do paciente e
habilidades de aconselhamento são necessárias para auxiliar os pacientes com
problemas crônicos"(1).
Estudos(7-9)demonstram o potencial do trabalho em grupo para o atendimento de
pessoas com DM, na medida em que a interação e identificação com outras pessoas
que convivem com a mesma doença podem auxiliar no processo do autocuidado.
Diante do exposto, o presente estudo foi conduzido em um Centro de Pesquisa e
Extensão Universitária (CPEU), no qual uma equipe multiprofissional oferece
acompanhamento em grupo a pessoas com DM, com vistas à educação em saúde
voltada ao fortalecimento do autocuidado. Desse modo, este estudo teve por
objetivo identificar os sentimentos associados ao diagnóstico do DM, as
dificuldades inerentes ao controle glicêmico e as estratégias de enfrentamento
adotadas pelos participantes do grupo diante das demandas impostas pela doença.
Explorar aspectos relacionados ao tratamento do DM a partir da ótica de pessoas
com essa condição crônica pode oferecer subsídios para o planejamento de
intervenções mais congruentes com as particularidades que interferem na adesão
ao autocuidado.
MÉTODO
Estudo qualitativo realizado junto ao CPEU. Esse serviço está situado em uma
cidade do interior paulista e oferece acompanhamento a pessoas com DM visando
ao desenvolvimento de autonomia para o autocuidado.
Nos meses de fevereiro e agosto de cada ano, após divulgação junto à população,
por meio de jornais impressos e programas de televisão, é feito o cadastramento
das pessoas interessadas. O acompanhamento acontece ao longo do semestre, os
encontros são semanais, com duração aproximada de três horas, constando de
atendimento em grupo, seguido de avaliação de parâmetros clínicos como: peso
corporal, glicemia capilar pós-prandial, pressão arterial e circunferência
abdominal.
O CPEU conta com uma equipe multiprofissional formada por enfermeiros,
psicólogos, educadores físicos e nutricionistas, que por sua vez se subdividem
em quatro equipes, conforme as especialidades: Enfermagem, Saúde Mental,
Educação Física e Nutrição, que coordenam os atendimentos em grupo. Cada equipe
atende o grupo uma vez por mês, segundo as suas especificidades. Para assegurar
a efetivação de um trabalho interdisciplinar, a equipe multiprofissional se
reúne semanalmente, durante uma hora, para discutir o andamento das atividades.
A coleta de dados foi realizada de agosto a dezembro de 2008, durante as quatro
sessões do grupo conduzido pela equipe de Saúde Mental. As sessões grupais
foram coordenadas por uma enfermeira, mestranda em Enfermagem Psiquiátrica, e
um psicólogo. Esses profissionais participaram integralmente das atividades
realizadas no CPEU, atuando também como coordenadores do grupo.
Esse atendimento visa a oferecer apoio para as demandas emocionais dos
participantes, relacionadas com os desafios cotidianos inerentes aos cuidados
dispensados ao DM. Durante as atividades do grupo eram propostas técnicas
disparadoras pouco estruturadas, que incentivavam a participação dos
integrantes do grupo e possibilitavam a abordagem e discussão de temas
referentes às demandas dos participantes frente ao DM e seu tratamento.
Participaram da pesquisa 16 pessoas, componentes do grupo. As sessões foram
audiogravadas, mediante anuência de todos os participantes e, posteriormente,
transcritas na íntegra, constituindo o corpus de análise.
Os dados foram submetidos à análise temática de conteúdo(10), seguindo as
seguintes etapas: pré-análise, quando se realizou a leitura das transcrições
das sessões grupais, buscando maior contato com o conteúdo dos dados;
exploração do material, com leitura aprofundada e repetitiva com vistas a
identificar as unidades de registro, bem como classificar e codificar os dados
para a conformação de categorias; e, finalmente, o tratamento e interpretação
das categorias obtidas.
Para a sistematização dos resultados, foram selecionados relatos nos quais os
participantes utilizaram o espaço do grupo para discorrer sobre suas
trajetórias de vida desde o diagnóstico do DM, incluindo os sentimentos
relacionados à doença, as dificuldades encontradas e estratégias de
enfrentamento adotadas. Com vistas a preservar o anonimato, ao longo da
apresentação dos resultados e sua discussão, os participantes da pesquisa foram
referidos pela letra P, seguida de um número de identificação. As falas
passaram por correções gramaticais com vistas a torná-las mais claras e
compreensíveis.
Quanto aos aspectos éticos, foram seguidas as diretrizes preconizadas para
pesquisas com seres humanos pela Resolução 196/96 do Conselho de Nacional de
Saúde(11), com a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética da EERP/USP, em
reunião do dia 19 de dezembro de 2007, protocolo nº 0849/2007. Os
participantes, após terem sido orientados acerca dos objetivos da pesquisa,
assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Com vistas a responder aos objetivos que nortearam a execução do presente
estudo, a partir da análise temática das trancrições das sessões grupais foram
elaboradas três categorias: Sentimentos despertados a partir do diagnóstico do
DM, Dificuldades no controle do DM e Estratégias de enfrentamento. Os
resultados serão apresentados a seguir, juntamente com as falas que deram
sustentação para as discussões e inferências.
Sentimentos despertados a partir do diagnóstico do DM
Durante as sessões do grupo, os relatos referentes à experiência do diagnóstico
do DM foram acompanhados da rememoração dos sentimentos vivenciados naquele
período. As falas seguintes são representativas dos diferentes sentimentos
compartilhados no grupo acerca desse marcante momento na vida de cada
participante:
[...] fiquei nervoso com aquilo... Eu não aceitei [...](P11)
[...] fiquei revoltado, porque é uma coisa que você não espera na
vida [...](P4)
[...] fiquei triste, porém satisfeito. Porque poderia ser uma doença
terminal... Essa não tem cura, mas não é terminal.(P7)
Pra mim, uma doença qualquer [...] o começo para mim foi igual quando
você está resfriado... vai fazer tratamento e passa, entendeu? ...e
eu estava com 720 de glicemia [...](P9)
As falas apontam diferentes reações frente ao diagnóstico. Dentre os que
apresentaram reações emocionais negativas, prevaleceram sentimentos disfóricos
como raiva e tristeza, levando a reações de contestação e depressão,
respectivamente. Outros buscaram minimizar o efeito devastador da experiência,
utilizando-se de eufemismos, ao não se preocuparem com o diagnóstico do DM por
não conhecerem a doença e suas possíveis consequências. A possibilidade de
narrar a própria situação emocional diante do adoecimento, e também de perceber
diversas reações a partir de relatos dos outros participantes do grupo, podem
contribuir para novas interpretações e explicações para o processo de adoecer,
indicando diferentes formas de enfrentamento da situação(12).
Quando traçamos um paralelo entre as diferentes reações dos participantes
frente ao diagnóstico do DM e a necessidade de que todos, cada qual com suas
especificidades, envolvam-se no tratamento, percebemos o desafio que é colocado
para os serviços de saúde. Há necessidade de se disponibilizarem intervenções
coerentes e diversificadas, visando a assegurar a adesão ao tratamento. Para
tanto, além de fornecer informações, é interessante que a equipe de saúde
ofereça acompanhamentos mais próximos, pormenorizados e com foco no
posicionamento assumido por cada indivíduo frente à condição de adoecimento, a
relação mantida com o processo de adoecer e os modos de lidar com as exigências
do tratamento(13).
A ponderação entre padronizar e/ou individualizar intervenções merece destaque
nas ações em saúde de cunho eminentemente educativo, visando sempre a um
incremento da adesão terapêutica(2), considerando as diferenças existentes
entre as formas de lidar com a doença, conforme nos indicam os relatos que
sustentam a presente categoria.
Dificuldades no controle do DM
Uma das características marcantes das condições crônicas em geral é o espaço
que, a partir do diagnóstico, a doença passa a ocupar na vida das pessoas. Os
relatos de alguns participantes sugerem que eles não conseguem lidar com essa
condição e simplesmente negam a existência da doença:
[...] a pior doença para mim foi o diabetes, então eu comecei a
encarar como se eu não tivesse ele, eu só tomo café com açúcar, eu
como doce depois do almoço... E eu tô vivendo bem... Então eu me
sinto melhor hoje.(P10)
[...] eu prefiro mais achar que eu não tenho nada dessas coisas [...]
(P5)
Paradoxalmente, esses participantes buscaram um grupo de apoio para pessoas com
DM de forma espontânea, o que sugere que há uma ambivalência entre o sentimento
de negação da condição e a percepção da necessidade de ampliação de sua
consciência sobre o manejo do tratamento.
No contexto da convivência com o DM, a necessidade de mudança de hábitos
simboliza fortemente a relação com a doença. Usualmente, aceitar a necessidade
dessa mudança é fonte de dificuldades relatadas no grupo, como podemos perceber
nas falas a seguir:
"[...] quando a gente descobre que tem a bendita, a vida da gente
muda bastante... Você perde todo o caminho que você tinha antes, tem
que voltar para trás.(P4)
O relato acima nos indica que incorporar uma nova forma de viver, diferente da
norma construída pelo indivíduo ao longo dos anos, parece ser um processo
doloroso por implicar renúncias e necessidade de formular readaptações no
viver.
A adaptação do paciente frente ao diagnóstico do DM impõe a criação gradativa
de uma identidade relacionada com a doença(8). Porém, tendo-se em vista a
relação implícita do processo saúde-doença-cuidado com a forma como as pessoas
percebem a realidade concreta, a construção de tal identidade parece ser
dificultada pela própria característica silenciosa dos primeiros sintomas do
DM, que é uma condição na qual o portador não se sente doente(14).
Nesse sentido, uma "importante tensão dialética se apresenta entre uma doença
que não é assumida pelo doente e a necessidade de aproximar-se do serviço de
saúde, devido aos riscos ameaçadores da vida"(14). Essa relação fica evidente
nas falas dos participantes do presente estudo, que buscaram o serviço por
decisão própria e, no entanto, proferem relatos como os descritos
anteriormente, que denotam a negação da condição de adoecimento a ponto de
negligenciarem o autocuidado, chegando a adotar hábitos de risco.
Os relatos descritos até aqui nos permitiram vislumbrar a complexidade inerente
ao processo de mudança de hábitos. Nesse contexto, em seus relatos, os
participantes do grupo enfatizaram a reeducação alimentar como o maior desafio:
[...] eu não consigo sequer fazer regime para perder peso, que eu sei
que preciso. [...] Então eu fico pensando: se eu não consigo nem
fazer regime, como que eu vou conseguir o resto?(P4)
Pode juntar todo mundo para ver o que é mais[difícil],se não é o
regime alimentar.(P11)
[...] a gente não pode comer muito mesmo, porque já perdeu a saúde.
[...](P16)
Os relatos acima transcritos indicaram que alguns participantes percebem o
controle alimentar como um martírio, considerando-o como uma meta de tratamento
difícil de ser concretizada. Assim, exibem reações que podem variar desde a
raiva e inconformismo diante das inúmeras "perdas" e restrições que vivenciam
em seu cotidiano durante o longo processo de adoecimento até sentimentos de
descrença e culpa por transgredirem as restrições e recomendações preconizadas
pela equipe de saúde. O estado emocional predominante é de fracasso e
desmoralização, ao perceberem que não conseguem se aproximar das metas que
gostariam de alcançar para preservar sua saúde.
É perceptível a angústia dos participantes quando se referem à dificuldade de
adaptação frente às necessidades impostas pela doença. Estudos também indicam a
alimentação como um desafio relevante para as pessoas que convivem com o DM,
sendo apontadas dificuldades significativas de seguir as orientações dos
profissionais(15-16).
A discrepância entre os hábitos adotados pelos familiares e o restante da rede
social e os hábitos alimentares "prescritos" pelos profissionais para a pessoa
com DM foi um fator sinalizado como dificultador da adesão às metas da
reeducação alimentar, como indicam as falas seguintes:
[...] na minha casa eu até prejudiquei o meu sogro, meu marido, meu
filho, eu falei: olha, vocês não comprem pão aqui não; comprou, eu
como! [...](P5)
[...] eu é que tenho que me cuidar, porque o meu marido fala assim:
Come um pouquinho[de doce],não faz mal! Eu falei: Não, não quero, não
posso comer doce, aí ontem, de tanto ele insistir, eu comi um pedaço
de doce de abóbora. [...](P10)
[...] se eu sair fora, igual agora, que eu fiquei duas semanas, não
tive condições de fazer tudo[reeducação alimentar] certinho...(P5)
Dentre os fatores que influenciam a reeducação alimentar, o fator financeiro
também foi mencionado como um dificultador relevante:
[...] isso atinge a maioria do povão, a parte econômica, porque não é
barato também você manter uma alimentação de acordo com o diabetes...
E os testes, as fitas, tudo... a insulina, tudo caro, também é tudo
caro.(P7)
[...][mesa]farta com qualidade, tem que ter dinheiro. (...) se você
for comprar o arroz integral.(P9)
Tais falas sinalizam a complexidade inerente à mudança dos hábitos alimentares,
tendo-se em vista a diversidade de fatores envolvidos. Quando se pensa nos
costumes alimentares de uma população, existem dificuldades de mudanças
relacionadas a diversos fatores, tais como os hábitos condicionados, a rotina
de horários, o valor cultural associado aos alimentos, além de questões
socioeconômicas(15).
Podemos apontar os modelos teóricos direcionados para condições crônicas como
possibilidades de direcionamentos mais assertivos das intervenções
implementadas nesse contexto. Por exemplo, o Modelo Transteórico, que propõe
estágios para o alcance da mudança de comportamentos, incluindo a possibilidade
de recaídas, mostrou-se eficaz em outro estudo para direcionar intervenções
visando à mudança de hábitos alimentares(17).
As orientações profissionais para as pessoas que convivem com o DM condicionam
uma nova rotina de cuidados diários relacionados com a doença, como a prática
de atividade física, o monitoramento dos níveis glicêmicos e o exame dos pés
(5,6). Nesse contexto, os participantes do grupo também referem dificuldades,
como sinalizam os relatos a seguir:
[...] tem 14 dias que eu não venho fazendo o teste... é que eu estou
numa tensão muito grande [...](P2)
Ficar olhando o pé para saber se não está inflamado, para saber se
não vai cortar o pé, é triste... A realidade é triste demais.(P1)
Quando a diabetes estava alta, eu ficava andando na cidade, ia longe
a pé, e não comia muito e estava com a diabete alta. (P6)
Os relatos permitiram conhecer a forma com que os participantes do grupo lidam
com as demandas de cuidados referentes ao DM. O conhecimento interfere de forma
significativa nos comportamentos de autocuidado(17), bem como na percepção que
os pacientes têm acerca da doença(8).
Podemos perceber certa relativização do cuidado, com adoção de certas manobras
compensatórias quando a glicemia está alta, pratica-se muita atividade física e
reduz-se o consumo alimentar. Alguns percebem as atividades de autocuidado como
prescrições a serem cumpridas e a referência aos cuidados é desvinculada da
manutenção da saúde, mas adquire uma conotação mais ampla, como uma forma de
"tratar" o DM.
Nas intervenções profissionais direcionadas a essa população é importante que
se estimule a percepção de que tais hábitos são também buscados por pessoas com
a intenção de alcançar um estilo de vida saudável, para que "pessoas
diabéticas" se tornem "pessoas com diabetes", cujas vidas não precisam ter,
necessariamente, o DM como foco central(8).
Apesar do enfoque do presente estudo circunscrever-se ao DM, ao longo das
sessões do grupo os participantes referiram que, no curso de suas vidas, a
doença não era o único e às vezes nem o maior desafio, como se pode observar
nos relatos a seguir:
Tô tomando insulina, e até o começo do ano eu não tomava remédio pra
diabetes, depois fui fazer tratamento pro vírus da Hepatite C. [...]
(P8)
É porque eu já tenho a pressão alta, já tenho um mioma, e outras
preocupações [...](P)
...tem dia assim, que bate aquele negócio assim, quer morrer, quer
morrer, é uma depressão...(P2)
Tais relatos indicam que alguns fatores, como a presença de comorbidades, podem
dificultar a adesão ao tratamento do DM. A associação entre DM e depressão é
prevista em estudos(18-19) que demonstram que essa condição crônica constitui
um fator negativo relevante para a adesão ao tratamento e mudanças de hábitos.
Dessa forma, durante os planejamentos dos cuidados em saúde deve-se atentar
para a presença de comorbidades psicológicas, como a depressão e ansiedade, com
vistas a buscar medidas terapêuticas efetivas.
Além dos problemas relacionados à saúde, também são descritas dificuldades
associadas à família, problemas de perdas por morte, doenças e sobrecargas que
são igualmente relevantes na vida dos participantes do grupo:
[...] eu tenho um problema com a minha mãe, sabe? Essa doença,
Alzheimer, é duro de aturar, viu? Porque tem hora que extrapola você
também. [...](P2)
Porque eu vim de um trauma assim com a perda dos meus filhos e meu
marido pirou com a perda deles e eu também tava entrando nessa
[choro]... Da onde eu senti força para viver foi aqui. [...](P2)
Em estudo realizado com grupo de mulheres com DM as participantes relataram
sentir raiva de si mesmas por não conseguirem alcançar a almejada mudança de
hábitos; foi constatada ainda que a sobrecarga de responsabilidades perante os
cuidados da família também é um fator que contribui para a não efetivação
dessas mudanças(18).
Pelo próprio modus operandido grupo de apoio, cuja execução era baseada nas
demandas dos próprios pacientes, pode-se compreender de forma mais genuína as
necessidades dos participantes, que apesar de estarem engajados em um serviço
direcionado para o apoio na terapêutica do DM, traziam consigo demandas de
ordem emocional derivadas de outros problemas de saúde ou pessoais, próprios ou
de pessoas do entorno familiar, que influenciavam diretamente na adesão ao
tratamento e, consequentemente, na obtenção do controle glicêmico(20).
Estratégias de enfrentamento
Na análise dos dados, apesar das dificuldades relatadas, algumas falas
demonstraram convivências relativamente positivas com o DM e maior capacidade
de enfrentamento:
[...] tem que aceitar tudo essas coisas, você aceitando fica mais
fácil. [...](P12)
[...] se a gente não aceitar, a gente vai ficar sofrendo a vida
inteira. [...] Então a gente tem que aceitar e fazer tudo de melhor
pra saúde da gente.(P2)
[...] já passei muitos bons momentos que, sendo diabética, estava
totalmente controlada.(P3)
[...] saber que tem o problema e saber conviver com ele [...]
consequentemente, você tem qualidade de vida. [...](P7)
A partir dos relatos coligidos, os participantes indicaram que, apesar da crise
que o diagnóstico do DM instaurou em suas vidas, o aprendizado de uma
convivência saudável com a doença pode ser alcançado, seja por meio de uma
aceitação passiva e conformista ou de um posicionamento mais ativo perante a
doença e o tratamento, acreditando na possibilidade de reagir de forma mais
serena às demandas emocionais e de agir de modo organizado para obtenção de
melhor controle.
Intervenções mais efetivas no tratamento do DM são alcançadas quando o problema
das doenças crônicas não é contextualizado simplesmente como um sistema
orgânico a ser monitorado ou um processo fisiológico, mas quando são
subsidiadas pelos contextos e condições individuais, que influenciam na adesão
ao tratamento(2).
Ao mesmo tempo que a mudança de hábitos é vista como uma dificuldade para
alguns membros do grupo, outros buscam formas diferentes de enxergar o mesmo
desafio. Com relação à reeducação alimentar, alguns membros do grupo referem:
[...] o corpo da gente é outro, a disposição é outra [...](P4)
[...] eu estou me cuidando com aquilo que não pode [...] eu estou me
sentindo bem [...] eu sinto que eu posso tudo, sem exagero.(P2)
Nesses relatos, podemos notar que algumas pessoas conseguem identificar a
mudança de hábitos alimentares como reeducação e, assim, buscam o equilíbrio
entre vontade e moderação, percebendo essa mudança como positiva para suas
vidas, ressaltando seus benefícios para o corpo e reconhecendo que o
descontrole pode ser prejudicial.
O relato abaixo demonstra uma estratégia compartilhada por um participante do
grupo para a incorporação da atividade física como um hábito do cotidiano:
[...] eu não fazia caminhada... teve um dia que eu levantei mais
cedo, [...] aí eu peguei o aparelhinho e fui medir, estava 160 a
glicemia, falei: quer saber, eu não vou tomar[medicamento]nada agora
não, vou fazer uma caminhada, aí eu saí 40 minutos, quando eu voltei,
fui medir, foi pra 75 ... aí, agora, eu passei a fazer caminhada.(P8)
Mas eu ando sim, quando a diabetes estava alta eu ficava andando na
cidade, ia longe a pé, e não comia muito e estava com a diabete alta.
[...](P16)
Tais relatos indicam que a atividade física, adotada após o diagnóstico do DM,
passou a ser vista como uma prática positiva, porém o exercício físico é
utilizado por alguns dos participantes como estratégia para baixar os níveis
glicêmicos, ou seja, uma prática terapêutica. São poucos os que referem os
benefícios inerentes a essa prática, independentemente da sua capacidade de
redução dos níveis glicêmicos.
Nesse sentido, a informação é uma ferramenta preciosa, tendo-se em vista que,
quando as pessoas têm pouco conhecimento em relação à doença e à dinâmica do
controle glicêmico, resistem a incorporar os comportamentos de autocuidado, o
que dificulta a adesão terapêutica e, consequentemente, o controle dos níveis
glicêmicos(21).
Os relatos ilustrativos da presente categoria indicaram que alguns
participantes do grupo alcançaram uma maior conscientização acerca do papel que
algumas atividades de autocuidado têm para a manutenção da saúde, inclusive
reconhecendo na condição de adoecimento um estímulo para o autocuidado e uma
oportunidade para a valorização da vida.
No contexto da convivência com o DM e as mudanças necessárias para o seu
tratamento, percebemos, dentre os relatos, a presença da família como uma fonte
de apoio no enfrentamento da doença no cotidiano. Os relatos seguintes denotam
a importância que tais vínculos representam para a subjetividade de cada
participante que convive com o DM, sendo que alguns familiares conseguem ser
participantes ativos nesse processo de autocuidado:
[...] a família pega no pé com o que ela come, quando ela come muito.
(P5)
[...] diminui bastante as coisas assim, então eu tento fazer o que
está pedindo, eu vejo pela minha mãe[que também tem DM],ela tem 87
anos, ela não quer morrer, ela fala que não quer.(P12)
Eu, além de me cuidar, a minha esposa é que nem um sargentão na minha
casa, lá não sai fora do ritmo não, tem que... ela vai em cima da
letra ali e eu sou obrigado.(P4)
A família é considerada como fonte de apoio para a pessoa com DM(22), no
entanto, essa relação se torna tensa quando o foco é a questão da
hereditariedade, a qual indica que a gênese da doença está relacionada à
predisposição genética familiar(5), conforme destado nos relatos a seguir:
A mãe tinha[DM]também, por isso que eu acho que é hereditário.(P7)
[...] o dia em que eu fiquei sabendo, eu fiquei muito triste e
revoltada, e eu pensei: por que só eu? Se eu tenho dois irmãos, por
que só eu?(P10)
Por outro lado, a hereditariedade às vezes funciona como preparação
subjetiva para a possibilidade de desenvolvimento futuro da doença,
como nos indica o relato seguinte:
[...] eu, pra mim, como ela é hereditária, minha mãe é diabética,
então não me pegou assim, de surpresa. [...](P7)
A estreita influência da família no processo de enfrentamento do DM também é um
fator que deve ser considerado nas intervenções direcionadas às pessoas
acometidas. A tendência, quando uma pessoa participa de um processo educativo
em DM, é de que o conhecimento obtido alcance também a família, podendo
favorecer a adoção de hábitos saudáveis, tanto da parte do paciente quanto de
sua rede familiar. Esse processo pode influenciar de forma positiva a adesão ao
tratamento e controle glicêmico(22).
A convivência de alguns dos participantes com a doença é fortemente
influenciada pelo medo das complicações futuras, o que podem estimular a adoção
de práticas de autocuidado. Conhecer os medos relacionados à doença foi
condição para incentivar o autocuidado e alavancar estratégias de
enfrentamento, conforme se pode constatar nos seguintes relatos:
Porque eu sei que, se eu não fizesse, eu sei que poderia perder meus
rins, ficar cega, perder os membros [...] eu não quero ser uma
pessoa... chegar na velhice sem uma perna, ficar cega, eu não quero
isso para mim, então por isso que eu me cuido. [...](P10)
[...] quando eu vejo todo esse povão falando dessas coisas tão
perigosas que agora eu tô tendo consciência, eu fico em pânico.(P5)
Percebe-se que os participantes, apesar de saudáveis, têm medo das complicações
futuras e, ao mesmo tempo em que o medo é um sentimento negativo, pode
estimular posicionamentos de autocuidado. Tais medos (da possibilidade de
amputações, da auto-aplicação de insulina, da extrema dependência de cuidados
fornecidos por outros e, no limite, da morte) fazem parte de um processo
natural, inerente ao adoecimento, pois são relacionados à nova identidade, que
é conformada com o diagnóstico do DM(8).
Ao considerarmos os desafios impostos na vida da pessoa que recebe o
diagnóstico e as dificuldades relacionadas à adoção das mudanças inerentes ao
tratamento, a demanda por apoio profissional torna-se crescente. Nessa
perspectiva, o atendimento em grupo propiciou um clima aberto para livres
expressões de idéias e sentimentos, permitindo aos participantes relatarem suas
experiências, examinando seus sentimentos mais genuínos e buscando desenvol-ver
seus recursos para a elaboração das emoções mobilizadas(23).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do objetivo de identificar, entre os participantes do grupo, os
sentimentos associados ao diagnóstico do DM, as dificuldades inerentes ao
controle glicêmico e as estratégias de enfrentamento adotadas diante das
demandas impostas, podemos perceber entre os membros do grupo diferentes modos
de lidar com os desafios suscitados pela doença no cotidiano.
O conjunto de dados contribuiu para delimitar categorias que possibilitaram
atender aos objetivos do estudo, à medida que permitiram construir um panorama
dos sentimentos relacionados à doença, bem como descrever possibilidades e
limites para o enfrentamento da demanda de cuidados relacionados com seu
manejo.
Na categoria "Sentimentos despertados pelo diagnóstico do DM" foram
apresentados sentimentos, a maioria com conotação negativa, relacionados ao
diagnóstico e tratamento da doença. Nas categorias "Dificuldades no controle do
DM" e "Estratégias de enfrentamento", a mudança de hábitos foi o fator referido
com maior ênfase pelos participantes, cujos relatos apresentaram diferentes
posicionamentos frente a tais cuidados, abarcando desde dificuldades, que na
maioria das vezes suscitam baixa adesão, até situações nas quais é perceptível
uma relação mais harmoniosa e estabilizada com tais condições adversas.
Um dado relevante foi o aparecimento da reeducação alimentar como fator mais
desafiador para os participantes da pesquisa, o que evidencia a
responsabilidade que os profissionais de saúde têm de olhar com mais cuidado
para essa problemática, que certamente exige intervenções multiprofissionais
para garantir um cuidado mais ampliado, tendo-se em vista a diversidade de
fatores relacionados com o processo de alimentação e sua representação no
cotidiano dos participantes e suas famílias.
Ao analisarmos os sentimentos gerados a partir do diagnóstico do DM, a forma
como se dá a convivência com a doença no cotidiano, os fatores relacionados com
a mudança de hábitos e também a existência de outras demandas de saúde além do
manejo do DM, podem-se perceber as principais diferenças que os participantes
apresentam, seja na forma como se colocam diante dos desafios, as estratégias
desenvolvidas para lidar com a doença, os apoios disponíveis no contexto
familiar e na comunidade, bem como os entraves encontrados. Assim, pode-se
inferir que tais características e posicionamentos assumidos frente às
dificuldades influenciam diretamente na adesão ao tratamento e constituem
elementos relevantes que devem ser considerados no planejamento de intervenções
mais efetivas.