Comparando as idades à primeira relação sexual, à primeira união e ao
nascimento do primeiro filho de duas coortes de mulheres brancas e negras em
Belo Horizonte: evidências quantitativas
Introdução
O objetivo deste trabalho é analisar as idades à primeira relação sexual, ao
primeiro casamento e ao nascimento do primeiro filho de mulheres brancas e
negras (autodeclaradas pretas ou pardas), de 20 a 29 anos e 50 a 59 anos, em
Belo Horizonte. As coortes de nascimento referem-se, portanto, às mulheres
nascidas entre 1973 e 1982 e de 1943 a 1952. O fato de a fecundidade,
atualmente, concentrar-se entre as mulheres com menos de 30 anos
(especificamente aquelas de 20 a 24 anos) justifica a análise da coorte mais
jovem e, para verificar se houve mudanças expressivas nestas idades, ao longo
do tempo, julgou-se apropriada a escolha da coorte mais velha, a qual iniciou o
período reprodutivo cerca de 20 a 30 anos antes da mais jovem. Adicionalmente,
a inclusão do componente racial, que tem sido pouco explorado pelos trabalhos
desenvolvidos nesta área, amplia a análise e possibilita um melhor entendimento
das desigualdades raciais no país. Por fim, por ter sido o local de uma das
mais recentes pesquisas sobre saúde sexual e reprodutiva no Brasil, o município
de Belo Horizonte possui dados atuais e representativos, que permitem análises
sobre atividade sexual, casamento e fecundidade de maneira bastante detalhada.
Duas perguntas conduzem este estudo: existem diferenças nas idades à primeira
relação sexual, à primeira união e ao nascimento do primeiro filho entre
mulheres brancas e negras, de diferentes coortes de nascimento, em Belo
Horizonte? Em caso afirmativo, elas são mais evidentes quando se considera a
coorte de nascimento ou a raça/cor autodeclarada pelas mulheres?
Para contextualizar a análise, este trabalho procura mostrar a relação dos
eventos analisados com as transformações sociais, econômicas, culturais e
políticas ocorridas no país, bem como os significados de cada um dos eventos e
a forma com que estes se relacionam com a coorte de nascimento, a escolaridade
e a raça/cor da mulher. Apresentam-se, ainda, alguns resultados de pesquisas
anteriores, que mostram como as idades à primeira relação sexual, ao primeiro
casamento e ao nascimento do primeiro filho vêm se comportando no Brasil nas
últimas décadas. A explicitação da fonte de dados, das variáveis e da
metodologia utilizadas também faz parte deste artigo, assim como os resultados
descritivos e aqueles referentes à análise de sobrevivência.
Os resultados mostram que, embora a idade ao primeiro casamento tenha
permanecido praticamente inalterada ao longo do período de tempo que separa as
duas coortes de mulheres analisadas, as idades à primeira relação sexual e ao
nascimento do primeiro filho diminuíram na coorte mais jovem, sendo que a maior
redução ocorreu na idade à primeira relação sexual, a qual passou de 21 para 18
anos. No que diz respeito à comparação entre coortes e entre grupos raciais, os
resultados sugerem que a distância entre brancas e negras é menor do que aquela
entre as mais jovens e as mais velhas.
O comportamento reprodutivo e sexual das mulheres no Brasil: uma breve revisão
da literatura
Ao longo das últimas décadas, as mulheres brasileiras vêm apresentando mudanças
notáveis em seu comportamento reprodutivo. Alguns pesquisadores têm apontado as
transformações sociais, econômicas, culturais e políticas, ocorridas no país,
como responsáveis pelas variações observadas. Estas mudanças, aliadas à difusão
de informações, à assimilação de novas idéias e atitudes reprodutivas, a ideais
de famílias menores e ao maior acesso a métodos contraceptivos, atuaram no
sentido de alterar os níveis e padrões reprodutivos das brasileiras (MERICK e
BERQUÓ, 1983; FARIA, 1989; FARIA e POTTER, 1990; GUPTA e LEITE, 2001). Outros
pesquisadores sugerem que as variações também podem ocorrer em função de
fatores comportamentais, entre os quais estão as idades em que as mulheres
iniciam sua vida sexual, se casam, têm seu primeiro filho e o intervalo entre
os nascimentos dos filhos (DAVIS e BLAKE, 1956; BONGAARTS e POTTER, 1983).
Aliadas a todos estes fatores, existem indicações de que os níveis e padrões de
fecundidade variam em função de características sociodemográficas, tais como
coorte de nascimento, escolaridade e categoria de raça/cor (MERRICK e BERQUÓ,
1983; BERCOVICH, 1991; FRIAS e CARVALHO, 1994).
Além disso, a literatura sugere que a idade na qual a mulher tem sua primeira
relação sexual exerce um efeito importante sobre a seqüência e o tempo de
eventos subseqüentes no processo reprodutivo. Por exemplo, a partir do momento
em que a mulher inicia sua vida sexual, ela passa, efetivamente, a estar
exposta ao risco de engravidar e de ter um filho nascido vivo. Neste contexto,
quanto mais jovem uma mulher inicia sua vida sexual, maior é o seu tempo de
exposição ao risco de procriar (POPULATION HANDBOOK, 1992).
Ainda quanto à iniciação sexual, alguns estudos sugerem que, para as mulheres
de coortes mais velhas, a virgindade deveria ser preservada até o casamento
(MIRANDA-RIBEIRO,1997). Conseqüentemente, a idade de primeira relação sexual,
para estas mulheres, não deveria acontecer antes de cerca dos 21 anos, idade em
torno da qual se casavam. Para as mulheres das coortes mais jovens, entretanto,
a virgindade feminina, embora seja apontada como importante, não está conectada
ao casamento (MIRANDA-RIBEIRO, 1997; MOORE, 2004).
Quanto ao casamento, aqui entendido como qualquer tipo de união (formal ou
informal), existe, em diversas sociedades, um consenso de que ele é o contexto
socialmente sancionado para o nascimento dos filhos. Embora a idade ao primeiro
casamento não limite, mas apenas sinalize, o início do período de tempo de
exposição efetiva ao risco de procriar, estudos mostram que ela desempenha
papel fundamental sobre quando se dará a entrada na maternidade e o número de
filhos que uma mulher poderá ter até o final de sua vida reprodutiva (HOPES AND
REALITIES, 1995).
O nascimento do primeiro filho constitui um fato extremamente relevante para a
mulher, pois marca o início de uma nova etapa em sua vida e determina seu
comportamento reprodutivo futuro. Alguns autores assinalam que a idade de
nascimento do primeiro filho está associada com a idade dos nascimentos
subseqüentes. Mulheres que têm o primeiro filho em idades mais jovens
apresentam probabilidade mais elevada de ter um segundo nascimento, ou
nascimento de ordens superiores, num espaço de tempo mais curto (BUMPASS,
RINDFUSS e JANOSIK, 1978).
Em relação à coorte de nascimento, um estudo sobre a fecundidade nas diferentes
regiões brasileiras, a partir de 1903, indica que as gerações que iniciaram o
período reprodutivo no começo do século XX, até a década de 40, apresentaram
maior estabilidade nos seus padrões de fecundidade. Em contrapartida, as
gerações a partir de 1948 são compostas por mulheres cujo período reprodutivo
iniciou-se na época em que ocorreram transformações importantes na sociedade
brasileira, ocasionando reduções expressivas nas taxas de fecundidade do país
(FRIAS e CARVALHO, 1994).
Quanto à escolaridade, pode-se considerá-la uma fonte de conhecimento, um
veículo de desenvolvimento socioeconômico e um vetor transformador de atitudes.
Assim, as mulheres mais escolarizadas tendem a adiar os eventos que marcam o
início do período reprodutivo (CASTRO MARTIN e JUAREZ, 1995). No caso da
dinâmica da fecundidade no Rio de Janeiro, entre 1991 e 2000, as mulheres mais
escolarizadas e que participavam do mercado de trabalho tinham taxas de
fecundidade específicas mais baixas que as demais e apresentavam um padrão cuja
cúspide estava no grupo entre 25 e 29 anos (CAVENAGHI e ALVES, 2003). No
Brasil, estudos mostram que, dos anos 70 em diante, as mudanças no padrão
reprodutivo caracterizaram-se, entre outras coisas, pela concentração da
fecundidade no grupo de 20 a 24 anos, o que teve papel fundamental na
conformação de um padrão reprodutivo tipicamente jovem (SIMÕES e OLIVEIRA,
1998; WONG, 2000).
Já em relação à categoria raça/cor, alguns estudos sugerem que a fecundidade
das mulheres pretas, no Brasil, até a primeira metade do século XX, era menor
do que a das brancas. A reversão deste quadro aconteceu no final dos anos 60,
quando a fecundidade das brancas declinou de forma vertiginosa. Em relação ao
padrão etário da fecundidade, segundo raça/cor, estudos empíricos sugerem que
as mulheres negras, por iniciarem sua vida sexual mais cedo e terem, em maiores
proporções, mais filhos na adolescência do que as brancas, estão sujeitas a
apresentarem um padrão de fecundidade mais jovem (BERCOVICH, 1991; PERPÉTUO,
2000).
No que se refere à situação educacional, a população negra apresenta
desvantagem em relação à branca, embora o nível educacional de ambas tenha
aumentado nas últimas décadas. Esta situação se reflete nos resultados de
fecundidade destes estratos populacionais. No caso das mulheres do Rio de
Janeiro, entre 1991 e 2000, constatou-se que as brancas possuíam TFTs mais
baixas do que as negras. Porém, observa-se que as mulheres negras com quatro
anos e mais de estudo tinham menos filhos do que as brancas com 0 a 3 anos de
estudo. Este resultado ressalta o fato de que o grau de escolaridade, mais do
que a cor da pele, influencia os níveis de fecundidade (CAVENAGHI e ALVES,
2003).
No Brasil, pesquisas sobre sexualidade e comportamento reprodutivo, realizadas
na década de 90, têm mostrado que, embora as mulheres das gerações mais jovens
estejam se casando praticamente na mesma idade em que se casavam aquelas das
gerações mais antigas, elas estão iniciando sua vida sexual e tendo o primeiro
filho cada vez mais cedo (BEMFAM, 1992 e 1996). Os resultados da PNDS '
Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, de 1996 (BEMFAM, 1996) revelam uma
queda de 9,2% na idade mediana da primeira relação sexual, quando se compra a
coorte de 45 a 49 anos com aquela de 25 a 29 anos, a qual passou de 20,7 para
18,8 anos. Esta mesma pesquisa também mostra que a idade ao primeiro casamento
permaneceu praticamente inalterada, girando em torno dos 21 anos para
diferentes coortes de mulheres. Adicionalmente, a pesquisa sugere que cerca de
50% das mulheres com menos de 25 anos, na data da entrevista, não haviam tido
filhos e que a idade mediana ao nascimento do primeiro filho, para aquelas com
mais de 25 anos, ficou em torno de 22,3 anos. Além destes aspectos, os dados da
PNDS 1996 revelam que o aumento na escolaridade resultou em idades medianas
mais elevadas de entrada na vida sexual, na vida conjugal e na maternidade.
A seguir, são apresentadas a fonte de dados, as variáveis e a metodologia
utilizadas neste estudo.
Fonte de dados, variáveis e metodologia
Fonte de dados
Este estudo é baseado nas informações coletadas pela pesquisa Saúde
Reprodutiva, Sexualidade e Raça/Cor (SRSR), realizada em 2002 pelo Centro de
Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG), englobando os municípios de Belo Horizonte e Recife. Para
fins deste estudo, somente a amostra de Belo Horizonte foi utilizada.
A pesquisa coletou informações que possibilitam a caracterização e a avaliação
da situação e da qualidade da saúde reprodutiva da população feminina dos
municípios de Belo Horizonte e Recife. Estes dados foram captados de forma a
permitir comparações por raça/cor, idade, situação socioeconômica e município
de residência, bem como a verificação da existência de diferenças
estatisticamente significantes.
Utilizou-se amostragem estratificada em três estágios para a coleta de dados da
pesquisa SRSR. No primeiro estágio, o cadastro de setores do IBGE foi usado
para estratificar e selecionar 70 setores em cada um dos municípios. Estes
setores foram selecionados por meio de amostragem sistemática, com
probabilidade proporcional ao tamanho, sendo usado como medida de tamanho o
total de domicílios particulares encontrado em cada setor por ocasião do Censo
Demográfico de 2000. Em cada um destes setores foi selecionada uma amostra de
22 domicílios, que foram visitados pelas entrevistadoras para cadastramento dos
moradores e identificação da população elegível. Nos domicílios com mais de uma
moradora elegível, foi sorteada uma mulher para participar da pesquisa
(MIRANDA-RIBEIRO e CAETANO, 2003).
No total, foram realizadas 1.301 entrevistas completas com mulheres entre 15 e
59 anos, em Belo Horizonte, as quais são representativas da população feminina
do município, neste intervalo etário. Destas mulheres, 361 possuíam entre 20 e
29 anos e 173 tinham entre 50 e 59 anos. Juntas, estas duas coortes somam 534
mulheres. Excluindo-se, porém, aquelas que se auto-declararam amarelas e
indígenas, que não fazem parte da população de interesse para o estudo
(aproximadamente 5%), estas duas coortes somam 521 mulheres autodeclaradas
brancas, pretas ou pardas, as quais são o alvo deste estudo.
Variáveis utilizadas
Foram selecionadas variáveis de diferentes seções do questionário e algumas
foram recodificadas. Embora exista, no banco de dados, a variável "idade em
anos completos", a idade da entrevistada foi gerada a partir das informações de
mês e ano de nascimento. Este procedimento visou evitar a preferência por
dígitos, que pode ocorrer nas declarações de idade relativas a anos completos.
Com base na nova variável de idade, foi construída a variável "coorte". No caso
desta investigação, existem duas coortes de interesse, a de 20 a 29 anos e a de
50 a 59 anos, denominadas "coorte 1" e "coorte 2", respectivamente.
As idades em que as mulheres experimentaram os eventos investigados também
foram construídas a partir das informações disponíveis para mês e ano. As
idades, em anos completos foram consideradas somente nos casos em que as
mulheres não sabiam informar as datas de ocorrência dos eventos.
A classificação de raça/cor foi feita a partir da resposta dada pelas próprias
entrevistadas à pergunta que segue os moldes do IBGE, cujas alternativas de
resposta são: 1) branca; 2) preta; 3) parda; 4) amarela e 5) indígena. Nesta
análise, as mulheres que se autodeclararam pretas e pardas foram agrupadas na
categoria "negra". Com isso, a variável raça/cor, na análise, é composta por
duas categorias: 1) brancas e 2) negras (pretas e pardas).
A decisão de agrupar as pretas e as pardas em uma única categoria tem duas
razões. Primeiro, porque, como constataram Carvalho, Wood e Andrade (2003),
existe uma mobilidade na autodeclaração de cor, sendo que este processo é mais
visível entre pardos e pretos. Segundo, porque, como Telles (2003) apontou, há
uma probabilidade maior de que entrevistados e entrevistadores concordem mais
sobre quem é branco do que sobre quem é preto ou pardo.
Metodologia
O primeiro passo na análise dos dados é realizar uma caracterização das
mulheres de 20 a 29 anos e de 50 a 59 anos. As distribuições segundo coorte de
nascimento, escolaridade, raça/cor e situação conjugal são descritas, enquanto
aquelas referentes às mulheres que tiveram filhos antes ou depois da primeira
união são analisadas. Quando existem freqüências esperadas menores do que
cinco, estas distribuições são comparadas por meio do teste exato de Fisher,
caso contrário, o teste qui-quadrado de Pearson é utilizado.
O segundo passo é comparar as idades à primeira relação sexual, à primeira
união e ao nascimento do primeiro filho, referentes às duas coortes analisadas
e às mulheres brancas e negras. Para tanto, as histórias das mulheres da coorte
mais velha são reconstruídas para quando elas tinham entre 20 e 29 anos. Isto
só é possível porque o banco de dados possui, além da história de nascimentos,
perguntas sobre as datas e idades, em anos completos, de primeira relação
sexual e primeiro casamento. Esta é uma característica extremamente importante
deste banco de dados, pois permite que se conheçam as datas exatas de todos os
eventos de interesse.
É importante lembrar, entretanto, que os dados não se referem somente às
mulheres com histórias de vida sexual, conjugal e reprodutiva completas. Isto
significa que, na data da entrevista, existiam mulheres nas coortes de
interesse que ainda não haviam experimentado os eventos analisados neste
estudo. Este fato não possibilita conhecer a freqüência exata associada a cada
intervalo, ou seja, os dados são censurados. A presença de censura é um
problema para as técnicas convencionais de análise descritiva. Para enfrentar
esta dificuldade, utiliza-se o método de Kaplan-Meier para estimar funções de
sobrevivência, a partir das quais são obtidas as idades medianas de ocorrência
dos eventos. Modelos de sobrevivência são adequados para análises em que o
tempo de exposição ao risco de experimentar um evento não é o mesmo para todos
os indivíduos (ALLISON, 1995). Para realizar esta análise, foi utilizado o
pacote estatístico SPSS versão 10.0.
Kaplan-Meier (KM) é um estimador não-paramétrico, utilizado para estimar
funções de sobrevivência, S(t), sendo t a idade de ocorrência do evento de
interesse. É importante esclarecer que a função de sobrevivência é a
probabilidade de que o tempo de um evento seja maior do que t, sendo t qualquer
número não negativo (ALLISON, 1995). No caso deste estudo, a menor idade
registrada na pesquisa SRSR, para cada um dos eventos, foi assumida como o
tempo de início da observação. Para primeira relação sexual, a menor idade
relatada foi de 9 anos; para o primeiro casamento, de 11 anos; e para o
nascimento do primeiro filho, de 13 anos. O estimador Kaplan-Meier é definido
da seguinte maneira:
sendo:
t a idade de ocorrência dos eventos;
o número de indivíduos sob o risco
de experimentar o evento imediatamente antes da idade tj;
<formula/> o número de eventos que
aconteceram na idade <formula/>.
Para verificar se as diferenças nas distribuições de sobrevivência e,
conseqüentemente, nas idades de ocorrência dos eventos são significativas, é
utilizado o teste log-rank. Este teste é uma das alternativas estatísticas
disponíveis para testar a hipótese nula de que as funções de sobrevivência são
iguais entre as populações estudadas (ALLISON, 1995). A expressão estatística
do teste log-rank é a seguinte:
sendo:
r o número de momentos distintos em que ocorreu o evento;
<formula/> o número de eventos que
aconteceram no grupo 1, no tempoj;
<formula/> o número esperado de eventos no
grupo 1, no tempoj, sob a hipótese de não haver diferença entre os grupos.
Neste caso, o número de eventos esperados é dado por
, sendo <formula/> o
número total de casos sob risco de um evento antes do tempoj, [/img/revistas/
rbepop/v23n1/v23n1a09fr9.gif] o número sob risco antes do tempoj no grupo 1 e
<formula/> o total de eventos no tempoj nos
grupos analisados.
Para comparar as curvas, apresentam-se, a seguir, os resultados do teste log-
rank. Embora sejam analisadas todas as comparações realizadas, somente os
gráficos que apresentam diferenças significativas são exibidos.
Quem são as brancas e negras de 20 a 29 anos e de 50 a 59 anos em Belo
Horizonte, em 2002?
A análise aqui desenvolvida se concentra nas idades que ocorreram a primeira
relação sexual, a primeira união e o nascimento do primeiro filho de mulheres
brancas e negras, entre 20 e 29 anos (coorte 1) e de 50 a 59 anos (coorte 2),
residentes em Belo Horizonte em 2002. O estudo tem por base 521 mulheres (40%
do total da amostra de Belo Horizonte), das quais 355 (68%) tinham entre 20 e
29 anos e 166 (32%) estavam no grupo etário 50-59 anos.
Na coorte 1, 158 mulheres (45%) se autodeclararam brancas e 197 (55%) negras,
enquanto na coorte 2 esses números corresponderam a 86 (52%) e 80 (48%),
respectivamente.
O fato de mais de 50% das mulheres mais jovens terem se autodeclarado negras
não causa surpresa, uma vez que, no Brasil, existe uma certa mobilidade na
classificação de cor, a qual pode ser afetada por diversos fatores, sendo um
deles a idade (CARVALHO, WOOD e ANDRADE, 2003). Além disso, dada a intensidade
da miscigenação entre a população brasileira, é de se esperar que, nas coortes
mais jovens, haja mais pessoas autodeclaradas pardas, o que aumentaria a
proporção de negros. A Tabela_1 apresenta uma síntese de alguns dos resultados
obtidos para estas mulheres.
Em relação à escolaridade, os dados revelam diferenças segundo raça/cor e
coorte de nascimento. Na coorte 1 (20 a 29 anos), por exemplo, enquanto 11,7%
das mulheres negras informaram ter de 1 a 4 anos de estudo, apenas 3,8% das
brancas relataram o mesmo. A diferença se inverte para aquelas com 12 anos e
mais de estudo, com 27,8% das brancas presentes na categoria, contra 14,7% das
negras. O teste exato de Fisher mostra que estas diferenças são significativas
(valor-p=0,004). Estes diferenciais também são observados na coorte 2,
indicando que, em ambas as coortes, as mulheres brancas apresentam maior
escolaridade, apesar da melhora nos níveis educacionais das negras. Assim como
no caso anterior, a diferença por raça/cor também é significativa (valor-
p=0,001).
Quanto à situação conjugal, os dados da pesquisa SRSR revelam que a proporção
de mulheres casadas ou unidas, na coorte mais jovem (coorte 1), é superior para
as negras (37%) em comparação com as brancas (34%). Esta situação se inverte na
coorte 2, com 70% de brancas e 60% de negras casadas ou unidas. Em ambos os
casos, os resultados não são estatisticamente significantes (valor-p=0,0505 e
0,197, respectivamente).
Na coorte 1, chama a atenção a diferença observada entre os porcentuais de
separadas/divorciadas, quando se comparam os dois grupos de raça/cor. Entre as
brancas, 13% informaram ser divorciadas ou separadas, ao passo que, entre as
negras, apenas 5% declararam estar na mesma situação. Ao nível de significância
de 5%, a diferença entre brancas e negras é significativa (valor-p=0,043).
Outro aspecto interessante revelado pelos dados da pesquisa SRSR refere-se à
distribuição de mulheres que tiveram o nascimento do primeiro filho antes ou
depois da primeira união. Em Belo Horizonte, os resultados indicam que o
nascimento do primeiro filho geralmente acontece dentro de uma união. Na coorte
1, cerca de 80% das mulheres tiveram o primeiro filho após terem se unido. Foi
possível, entretanto, observar uma variação segundo raça/cor, sendo que as
brancas apresentaram proporção mais elevada de nascimentos depois da união do
que as negras (84% e 78%, respectivamente). Na coorte 2, cerca de 95% das
mulheres tiveram o primeiro filho depois de casadas. O teste exato de Fisher
indica que, tanto no caso da coorte 1 como no da coorte 2, a diferença não é
estatisticamente significativa (valor-p=0,518 e 0,248, respectivamente). A
maior proporção de mulheres com nascimentos pré-união, na coorte mais jovem,
sugere que houve uma alteração na forma de entrada na maternidade.
A fim de estudar a idade ao nascimento do primeiro filho de mulheres de duas
gerações distintas, a parturição das mesmas é verificada em dois pontos: até os
19 anos e até os 24 anos. Como esta análise envolve histórias de nascimentos
incompletas, nesta etapa, as seguintes estratégias são utilizadas:
·para comparar a parturição que as duas coortes apresentaram até os
19 anos, as 521 mulheres da amostra selecionada são incluídas na
análise;
· para comparar a parturição até os 24 anos, somente as mulheres com
mais de 24 anos são incluídas, perfazendo, assim, um total de 319
mulheres.
A Tabela_2 apresenta os resultados das parturições até os 19 anos1 e até os 24
anos, para as coortes estudadas.
Verifica-se que, na coorte 1, 77% das brancas e 75% das negras permaneceram na
parturição de ordem zero, ou seja, não tiveram nenhum filho até os 19 anos.
Entre aquelas que registraram uma parturição até esta idade, a proporção é
ligeiramente mais elevada para as negras (21%) em comparação às brancas (18%).
Estes resultados são compatíveis com as observações realizadas por Bercovich
(1991) e Perpétuo (2000), as quais sugerem que, por apresentarem maiores
proporções de filhos na adolescência, as negras estão sujeitas a uma
fecundidade mais rejuvenescida do que as brancas.
Na coorte 2, cerca de 85% das brancas e das negras tiveram parturição de ordem
zero até os 19 anos e em torno de 10% atingiram a parturição de ordem um até
esta mesma idade.
A comparação entre as coortes de mulheres de mesmo grupo de raça/cor revela que
a proporção de mulheres brancas da coorte 1 que atingiram a parturição de ordem
um até os 19 anos é bem superior à da coorte 2. Entre as brancas mais jovens,
18% chegaram à parturição de ordem um até os 19 anos, enquanto para as brancas
mais velhas somente 9% tiveram um filho até esta idade. Esta situação também se
repete entre as negras, para as quais chama a atenção o fato de a parturição de
ordem um ser duas vezes maior para as mais jovens, em relação às mais velhas '
21% e 10%, respectivamente. Isto indica que as mais jovens estão tendo filho
mais cedo ' cerca de 1/4 delas já haviam tido pelo menos um filho até os 19
anos, contra cerca de menos de 15% na coorte mais velha.
Os resultados relativos à parturição atingida até os 24 anos indicam que, na
coorte 1, a maior proporção de mulheres com parturição de ordem zero até os 24
anos é verificado para as brancas (57%, contra 50% entre as negras). Já o
porcentual de negras da coorte 1 que chegaram até os 24 anos com parturição de
ordem um é mais elevado do que o de brancas ' 29% e 26%, respectivamente. Estas
comparações não são significativas (valor-p=0,361).
Para a coorte 2, um aspecto interessante, revelado pelos resultados relativos
às parturições atingidas pelas mulheres brancas e negras até os 24 anos,
refere-se ao fato de que, na parturição de ordem um, encontra-se o dobro de
mulheres brancas do que de negras (26% e 10%, respectivamente). Esta comparação
não é significativa (valor-p=0,088).
Quando se consideram as brancas das duas coortes, observa-se que a proporção de
jovens, ou seja, de mulheres da coorte 1 que chegaram à parturição de ordem um
até os 24 anos é muito similar à da coorte 2, ficando em torno dos 26%. Neste
caso, o teste exato de Fisher indica que a comparação não é estatisticamente
significativa (valor-p=0,105). Já para as negras, o porcentual de jovens com
parturição de ordem um até os 24 anos (29%) é quase três vezes maior do que o
verificado entre as mulheres da geração mais velha (10%). Ao nível de
significância de 5% a comparação entre negras mais jovens e mais velhas é
significativa (valor-p=0,030). Tendo em vista que a variável parturição refere-
se a filhos nascidos vivos, uma das possíveis explicações para este resultado
pode estar na melhora das condições de saúde das mulheres negras mais jovens,
em relação às mais velhas, em particular da saúde reprodutiva (OLIVEIRA, 1999).
Adicionalmente, vale ressaltar que, na coorte 2, a parturição de ordem zero é
mais alta entre as negras. Este resultado pode estar associado com a proporção
de negras que nunca se casaram,2 ou com as maiores dificuldades no mercado de
casamento enfrentadas pelas negras da coorte mais velha.
As curvas de sobrevivência e seus respectivos testes de significância (log-
rank), assim como as idades medianas relativas ao início da vida sexual, ao
primeiro casamento e ao nascimento do primeiro filho, são apresentadas a
seguir.
As idades de interesse
Idade à primeira relação sexual
As curvas de sobrevivência apresentadas no Gráfico_1 permitem comparar a idade
de início da vida sexual das mulheres da coorte 1 com as da coorte 2.
As curvas mostram que as mulheres mais jovens iniciaram sua vida sexual mais
cedo do que as mulheres da coorte mais velha. O teste log-rank mostra que esta
diferença é estatisticamente significante (valor-p<0,001). Adicionalmente, a
comparação das idades medianas indica uma diferença de cerca de três anos na
idade de início da vida sexual de uma coorte para a outra (18 anos para as mais
jovens e 21 anos para as mais velhas).
A comparação da idade de início da vida sexual das mulheres brancas e negras,
da coorte mais jovem, mostra similaridades em relação à idade de início da vida
sexual. Os resultados revelam que, tanto para brancas quanto para as negras, a
idade mediana de primeira relação sexual é de 18 anos. O teste log-rank mostra
que a diferença na idade de primeira relação sexual entre brancas e negras da
coorte mais jovem não é estatisticamente significante (valor-p=0,2127).
Já na coorte 2, até os 17 anos, as mulheres negras iniciavam a vida sexual mais
jovens do que as brancas. Para as idades acima dos 17 anos, as brancas tinham a
primeira relação sexual mais cedo do que as negras. Entre as mulheres mais
velhas, a idade mediana de início da vida sexual para as brancas era de 19 anos
e, para as negras, de 22 anos. O resultado do teste log-rank revela que não há
diferença estatisticamente significativa entre brancas e negras (valor-
p=0,1944).
A comparação do comportamento da idade de primeira relação sexual de mulheres
brancas da coorte 1 e da coorte 2 mostra que as mais jovens iniciaram a vida
sexual mais cedo do que as mais velhas, sendo que a idade mediana à primeira
relação sexual para as brancas da coorte 1 é de 18 anos e, para as da coorte 2,
corresponde a 19 anos.
O Gráfico_2 permite verificar que, também entre as negras, as mais jovens
iniciaram a vida sexual antes das negras da coorte mais velha.
É importante salientar que o resultado do teste log-rank indica que a diferença
nestas curvas é significante (valor-p<0,0001). Quanto à idade mediana de
primeira relação, para as negras da coorte 1 é de 18 anos e, para as da coorte
2, 22 anos.
Idade ao primeiro casamento
Para a interpretação dos resultados relativos à idade à primeira união, é
importante lembrar que são incluídas tanto as uniões formais quanto as
informais. Neste contexto, a idade mediana de primeira união das mulheres da
coorte 1 e da coorte 2 são muito próximas: 22,8 e 23,3 anos, respectivamente. O
teste de log-rank confirma que não há diferença nos resultados obtidos para
estas duas coortes (valor-p=0.8055). Entre as mulheres da coorte mais velha,
entretanto, as brancas se casavam, pela primeira vez, um ano mais cedo do que
as negras, sendo a idade mediana de primeiro casamento das brancas de 22,6 anos
e, das negras, de 23,7 anos. A diferença entre a idade de casamento destas duas
coortes não é estatisticamente significativa (valor-p=0,4583). É importante
ressaltar que, entre as mulheres mais velhas, a idade ao primeiro casamento era
bastante próxima à idade à primeira relação sexual, o que sugere que, diferente
das jovens, a iniciação sexual das mulheres da coorte mais velha acontecia no
casamento (MIRANDA-RIBEIRO, 1997).
Entre as mulheres brancas, as idades de entrada na primeira união são
praticamente as mesmas:3 22,3 anos para a coorte mais jovem e 22,6 anos para a
mais velha. O teste log-rank também não foi significativo para este caso
(valor-p=0,9225).
A análise da idade de primeiro casamento para as mulheres negras de ambas as
coortes indica que as mais jovens apresentam comportamento muito similar ao das
mais velhas. Segundo os dados, as negras da coorte 1 têm uma idade mediana de
primeiro casamento de 23,2 anos e as da coorte 2, de 23,7 anos. Também neste
caso, a diferença entre a idade de casamento das mulheres destas coortes não é
estatisticamente significativa (valor-p=0,6708).
Idade ao nascimento do primeiro filho
Em relação à idade ao nascimento do primeiro filho, os resultados indicam que a
diferença entre as mulheres da coorte 1 e as da coorte 2 não é significativa
(valor-p=0,2284). Vale lembrar, entretanto, que as mulheres mais jovens
começaram a vida sexual mais cedo do que as da coorte 2, sendo plausível que
apresentem uma idade de primeiro filho menor, pois iniciaram seu tempo de
exposição ao risco de conceber mais cedo do que as mulheres da geração mais
velha. A idade mediana de nascimento do primeiro filho é de 24 anos, para a
coorte 1, e 24,7 anos, para a coorte 2.
Já os resultados obtidos para a idade ao nascimento do primeiro filho para as
brancas e negras da coorte 1 mostram que, embora os dois contingentes femininos
apresentem velocidade de início da maternidade muito similar, ela é ainda mais
rápida para as negras. A idade mediana corresponde a 25,2 anos, para as
brancas, e a 23,2 anos, para as negras. Adicionalmente, é importante esclarecer
que o teste log-rank, embora não significativo, apresenta probabilidade de
significância próxima ao valor limite (valor-p=0,0730).
A comparação entre as mulheres brancas e negras da coorte 2 revela que, nas
idades mais jovens, a probabilidade de as negras terem o primeiro filho antes
das brancas é mais elevada. Porém, a partir de cerca de 20 anos, esta
probabilidade passa a ser mais elevada para as brancas. O teste log-rank também
não foi significativo para este caso (p=0,3374). A idade mediana ao primeiro
filho é de 24 anos, para as brancas, e de 25,3 anos, para as negras.
Os resultados alcançados para as mulheres brancas de ambas as coortes indicam
que as mais jovens apresentam maior probabilidade de terem o nascimento do
primeiro filho mais cedo, quando comparadas às da coorte mais velha, embora a
diferença não seja significativa (valor-p=0,5720). Vale lembrar que a idade
mediana de nascimento do primeiro filho é de 25,2 anos para as brancas da
coorte 1 e de 24 anos para as da coorte 2.
As curvas relacionadas à idade de nascimento do primeiro filho das mulheres
negras sugerem que há diferença significativa entre as duas coortes (valor-
p=0,026). As negras da coorte 1, conforme o Gráfico_3, têm probabilidade de
terem o primeiro filho mais jovens. Este resultado é compatível com aquele
observado para a idade de primeira relação sexual, que indica que as negras
mais jovens também iniciaram a atividade sexual mais cedo do que as mais
velhas. A idade mediana de nascimento do primeiro filho das negras da coorte 1
é de 23,2 anos, mais baixa que a das negras da coorte 2, de 25,3 anos.
Considerações finais
Existem diferenças nas idades à primeira relação sexual, à primeira união e ao
nascimento do primeiro filho quando se comparam mulheres brancas e negras de
diferentes coortes de idade, em Belo Horizonte?
Os resultados sugerem que sim. As mulheres da geração mais jovem estão
começando a vida sexual mais cedo do que iniciavam as mais velhas. A diferença
na idade de iniciação fica em torno de três anos, sendo 18 anos a idade mediana
de primeira relação sexual, para as mais jovens, e 21 anos, para as mais
velhas. Uma possível explicação para esta mudança pode estar aliada às
transformações sociais e culturais ocorridas no país nas últimas décadas,
mencionadas anteriormente, as quais podem ter tornado as normas e valores
relativos ao comportamento sexual mais liberais em comparação a tempos
passados, permitindo, por exemplo, que as jovens iniciem sua vida sexual antes
do casamento.
O fato de as mulheres mais jovens iniciarem sua vida sexual mais cedo pode ter
implicações tanto no plano individual como no social. No plano individual,
jovens que iniciam sua vida sexual sem estarem suficientemente esclarecidas a
respeito, por exemplo, do papel dos métodos contraceptivos poderão ter que
enfrentar desafios, como a ocorrência de infecções sexualmente transmissíveis e
uma gravidez não planejada. No plano social, o início da vida sexual por
mulheres cada vez mais jovens tem implicações em diversas esferas, entre as
quais podem ser citadas a da saúde e a da escola. No âmbito da saúde, os
serviços devem estar mais preparados para atender a uma clientela com
características e demandas mais específicas. Adicionalmente, as escolas devem
repensar a sua postura diante do novo comportamento das jovens, assumindo, em
conjunto com a família, um papel mais ativo no que se refere à educação
afetivo-sexual, a qual, para acompanhar o rejuvenescimento da idade de
iniciação sexual, precisa começar em idades cada vez mais jovens.
Além da idade de início da vida sexual, também constataram-se diferenças no
comportamento da idade de nascimento do primeiro filho. Embora as mulheres da
geração mais jovem estejam iniciando a vida sexual mais cedo do que as da
geração mais velha, elas estão tendo o primeiro filho um pouco mais tarde. Duas
hipóteses podem ser cogitadas para explicar este resultado. Primeiro, a
maternidade pode estar acontecendo mais tarde, mesmo em vista do início da vida
sexual mais cedo, em função do maior acesso à contracepção nos dias atuais. Em
segundo lugar, conforme sugerido para o caso do Rio de Janeiro, a maior
escolaridade das mulheres mais jovens, em relação às mais velhas, pode
funcionar como fonte de conhecimento e de transformação de atitudes em relação
ao comportamento sexual, conjugal e reprodutivo. Assim, mulheres mais
escolarizadas tendem a adiar a entrada na maternidade.
Os resultados não indicam, porém, diferenças na idade à primeira união das
mulheres das diferentes gerações. Ao longo destes 20 a 30 anos que separam
estas coortes, a idade de primeiro casamento permaneceu praticamente a mesma,
em torno dos 23 anos. Em face das mudanças verificadas nas outras duas idades,
as razões da estabilidade na idade de primeiro casamento mereceriam uma
investigação mais detalhada.
Quanto às diferenças entre as duas coortes e entre as duas categorias de raça/
cor, os resultados evidenciam que os maiores diferenciais ocorrem entre as duas
coortes analisadas. Embora pequenas diferenças na idade de primeiro casamento e
de nascimento do primeiro filho ainda persistam entre brancas e negras na
geração mais jovem, elas diminuíram consideravelmente em relação às diferenças
que existiam entre as mulheres da coorte mais velha. Infelizmente, os dados
referentes à escolaridade não são retrospectivos e, por isso, não se pode
investigar a relação desta variável com os eventos analisados, o que poderia
tornar a análise mais rica e informativa. Da mesma forma que Cavenaghi e Alves
(2004) afirmam que a escolaridade é mais importante do que a cor da pele na
determinação da fecundidade no Rio de Janeiro, os resultados apresentados aqui
sugerem que a coorte de nascimento é mais importante que a cor da pele quando
se analisam os diferenciais nas idades à primeira relação sexual e ao
nascimento do primeiro filho entre as mulheres em Belo Horizonte. Isto, no
entanto, não quer dizer que o recorte por raça/cor deva ser ignorado em estudos
desta natureza. Adicionalmente, cabe pensar que, em face dos resultados
encontrados, o efeito coorte pode ser considerado um representante para as
possíveis mudanças ocorridas nas normas, valores e acesso à informação e aos
serviços quando se comparam as idades de acontecimento dos eventos incluídos na
análise.
Por fim, cabe ressaltar que os aspectos aqui investigados apontam fortemente
para a importância da realização de um estudo de natureza qualitativa, que pode
esclarecer muitas questões relacionadas aos comportamentos sexual, conjugal e
reprodutivo das mulheres em Belo Horizonte.