Intoxicação Alcoólica Aguda num Serviço de Urgência Pediátrico: revisão de 3
anos
INTRODUÇÃO
O consumo excessivo de álcool é um problema importante na nossa sociedade, em
especial entre os adolescentes. A adolescência é um período caracterizado pela
adopção de comportamentos de experimentação e de grande susceptibilidade aos
grupos de pares, potenciando o consumo de substâncias tóxicas, nomeadamente o
álcool. O consumo excessivo de álcool associa-se a comportamentos de risco e
anti-sociais pelo que deve ser considerado um problema grave de saúde pública1-
4.
O etanol é responsável por 5% do total de intoxicações em Pediatria,
principalmente a partir dos 13 anos5. Nos adolescentes, a intoxicação alcoólica
aguda (IAA) é geralmente voluntária, com fins recreativos, associada a consumos
esporádicos e intensos, fora de casa e com os pares, durante o fim-de-semana6.
O consumo de álcool pode associar-se ao de outros tóxicos legais ou ilegais6. A
apresentação clínica de uma IAA é muito variável, podendo manifestar-se como
sintomatologia ligeira (disartria e labilidade emocional) ou grave (coma,
hipotensão) 1,3,6. As manifestações clínicas nos casos de IAA são dose
dependente, podendo as taxas de alcoolemia superiores a 5g/L estar associadas a
morte4.
Apesar das observações urgentes por IAA em idade pediátrica serem cada vez mais
frequentes, não foi possível identificar nenhum estudo de admissões por IAA em
SUP em Portugal. É fundamental o conhecimento das características dos
adolescentes observados por IAA por parte dos Pediatras para uma actuação mais
uniforme e eficiente ao nível do serviço de urgência. O objectivo deste
trabalho é caracterizar o perfil e as circunstâncias dos adolescentes
observados por IAA num serviço de urgência pediátrico.
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo observacional (retrospectivo) dos adolescentes observados por IAA no
período de 1 de Janeiro de 2007 a 31 de Dezembro de 2009 (3 anos) num serviço
de urgência pediátrico num Hospital de um centro urbano. Definiu-se IAA como a
presença de um ou mais dos seguintes sintomas ou sinais: hálito etílico,
disartria, verborreia, ataxia, coma, em contexto de consumo alcoólico agudo.
Foram excluídos os casos de intoxicação acidental. As variáveis analisadas
foram: idade, sexo, mês, dia laborais/dia festivo, horário de admissão, tipo de
bebidas, internamento, complicações (hipoglicemia- glicemia capilar <60mg/dL,
hipotermia ' temperatura corporal <35ºC, hipotensão ' tensão arterial sistólica
<90mmHg e diastólica<60mmHg), exames complementares de diagnóstico (nível de
alcoolemia, pesquisa de drogas de abuso na urina), tratamento e destino após
alta.
Os dados foram analisados com o programa estatístico SPSS 17.0. A normalidade
da distribuição das variáveis foi testada com o teste de Kolmogorov-Smirnov.
Foram utilizados, quando apropriado, testes não paramétricos: teste de
correlação de Spearman e Qui-quadrado. Os valores de p<0,05 foram considerados
significativos.
RESULTADOS
Foram observados 60 casos de IAA durante os 3 anos do estudo (2007 -12 casos,
2008 ' 20 casos e 2009 ' 28 casos), sem variação das idades de admissão ao
longo do tempo. Dois adolescentes foram observados duas vezes por IAA durante o
período do estudo. A distribuição do número de casos ao longo dos meses e dos
anos está representada na figura_1, evidenciando picos em Março, Dezembro e nos
meses de Verão.
A mediana da idade foi de 15,0 anos (P25-75: 14,0-16,0), com um ligeiro
predomínio do sexo masculino (53,4%). Nas idades mais precoces (? - 15,0; P25-
75: 14,0-15,0 vs ? - 15,5; P25-75: 15,0-16,0; p=0,003), a IAA foi
significativamente mais prevalente nas raparigas. A figura_2 mostra a
distribuição dos casos de IAA segundo o sexo e a idade.
Trinta e cinco casos (58,3%) ocorreram em dias festivos e 25 casos em dias
laborais. Trinta e nove (65%) das admissões ocorreram no período nocturno
(entre as 21h e as 8h). A figura_3 mostra a distribuição dos casos de acordo
com o dia e a hora de admissão.
O tipo de bebidas ingeridas foi identificado em 41 casos (68,3%), sendo as
bebidas de alta graduação (whisky, vodka, shots) as mais frequentemente
consumidas (73,2%).
À admissão no SU, a mediana da pontuação da Escala de Coma de Glasgow foi de 14
(mínimo 7; P25-75: 11-15anos). O internamento na Unidade de Internamento de
Curta Duração foi efectuado em 42 casos (70%), com uma duração sempre inferior
a 24 horas. A mediana da pontuação da Escala de Coma de Glasgow nos
adolescentes internados (15,0; P25-75: 15,0-15,0) foi significativamente
inferior aos não internados (13,0; P25-75: 10,25-15,0; p=0.005).
Verificaram-se 5 casos (8,3%) de hipotermia. Em 2 casos, verificou-se
hipotensão. Não se identificaram casos de hipoglicemia.
A pesquisa de níveis de etanol no sangue foi realizada em 3 adolescentes, todos
com valores superiores a 1,5g/L.
A pesquisa de drogas de abuso na urina foi realizada em 37 casos (61,7%), sendo
positiva em três para cannabis.
Nos 42 casos internados foi efectuada fluidoterapia endovenosa. Em 2 casos de
hipotensão grave foi necessária terapêutica de suporte com aminas. Nas
situações de hipotermia foi efectuado aquecimento físico com cobertores
aquecidos.
Após a alta, a orientação mais frequente foi para o Médico Assistente (60,3%),
seguida da Consulta de Medicina do Adolescente (25,8%) e Consulta de
Pedopsiquiatria (5,2%). Em 5 casos, desconhece-se a orientação após a alta.
DISCUSSÃO
O estudo documentou o consumo excessivo de álcool entre os adolescentes como um
problema emergente da sociedade actual, traduzido pelo aumento da prevalência
da IAA e em idades cada vez mais precoces.
Quando analisado o número de casos por sexo, não foi verificada diferença
estatisticamente significativa. No entanto, quando estratificados os casos pela
idade, constatou-se um franco predomínio do sexo feminino nas idades mais
precoces, ao contrário da maioria dos estudos1-3. Este facto pode ser
justificado pelo desenvolvimento mais precoce das raparigas e,
consequentemente, saídas mais precoces com os pares, associado à imaturidade do
metabolismo hepático.
Observou-se, também, um predomínio de admissões nos dias festivos e no período
nocturno, coincidindo com o maior números de saídas dos adolescentes para bares
e discotecas, onde é mais fácil o acesso às bebidas alcoólicas1,2,7. Como é
demonstrado na figura_3, verificou-se uma relação evidente entre as admissões
diurnas e os dias laborais, provavelmente relacionado com o consumo de álcool
em meio escolar / à saída da escola.
Nos casos em que foi possível a sua identificação, as bebidas mais
frequentemente consumidas foram as de alta graduação, tal como previamente
demonstrado1,8. Atendendo à legislação actualmente em vigor no nosso país que
proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, é preocupante a
facilidade com que os adolescentes têm acesso a estas bebidas.
No nosso hospital, a maioria dos adolescentes foi internada na Unidade de
Internamento de Curta Duração para vigilância de possíveis complicações e
recuperação completa do estado de consciência. De notar, apesar do número
reduzido de adolescentes que não foram internados, uma relação estatisticamente
significativa entre a gravidade (definida pela pontuação na Escala de Coma de
Glasgow) e o internamento.
As complicações agudas da IAA foram relativamente raras, não sendo descrito
nenhum caso de hipoglicemia e apenas 5 casos de hipotermia. A inexistência de
qualquer caso de hipoglicemia pode ser explicada pelo facto de estes serem
consumos esporádicos e esta ser uma complicação mais frequente no alcoolismo
crónico. De salientar 2 casos de hipotensão grave com necessidade de
fluidoterapia e suporte aminérgico.
Neste estudo, a pesquisa de níveis de etanol no sangue foi realizada numa
amostra reduzida devido às limitações técnicas do serviço, não sendo possível
retirar conclusões com significado estatístico. O consumo concomitante de
outras drogas de abuso é uma situação frequente e descrita em vários outros
estudos6,9. Foram apenas identificados três casos de consumo concomitante de
cannabis na amostra estudada.
A orientação dos adolescentes admitidos no SU por IAA após a alta é um aspecto
fundamental da actuação com o objectivo de evitar a reincidência do consumo, as
readmissões e contextualizar o consumo na avaliação global do adolescente.
Apesar de, no nosso estudo, os adolescentes terem sido maioritariamente
orientados para o Médico Assistente, desde a criação da Consulta de Medicina do
Adolescente em 2009, a maioria dos adolescentes passou a ser orientada para
esta consulta, o que permitiu uma reavaliação posterior, em meio hospitalar,
com o despiste de problemas médicos e sociais associados assim como de outros
factores/comportamentos de risco.
A principal limitação deste estudo é devida ao desenho retrospectivo do mesmo.
O carácter retrospectivo do estudo limita a qualidade da informação,
nomeadamente a inexistência de critérios uniformes entre os elementos da equipa
médica que atendem os adolescentes, bem como a falta de algumas informações /
imprecisões relativamente aos dados analisados. Outra limitação deste trabalho
está relacionada com a população alvo (adolescentes alcoolizados), o que
dificulta a anamnese.
CONCLUSÕES
As observações urgentes por IAA em idade pediátrica estão a tornar-se cada vez
mais frequentes na sociedade actual, pelo que é fundamental os Pediatras
conhecerem as características dos adolescentes com IAA para uma actuação mais
uniforme e eficiente ao nível do serviço de urgência. O perfil do indivíduo que
recorre ao SU por IAA é um adolescente admitido maioritariamente no período
nocturno e em dias festivos, com consumo de bebida de elevada graduação e cujas
complicações são relativamente raras.