Território e Desigualdades de Renda em Regiões Metropolitanas do Brasil
INTRODUÇÃO
Este artigo tem como objetivo contribuir analiticamente com o debate acerca das
desigualdades de renda nas regiões metropolitanas brasileiras, incorporando nos
seus determinantes explicativos a importância da localização residencial na
metrópole para uma compreensão mais ampla dessas desigualdades que,
normalmente, tendem a considerar somente as características próprias dos
indivíduos, sejam aquelas adscritas, como cor/raça e sexo, sejam as adquiridas,
como a escolaridade.
No momento em que o Brasil passou por transformações significativas na sua
estrutura econômica, como ocorreu nos anos 1990, o que colaborou para o aumento
das desigualdades no país, a educação passou a ser reivindicada como o
mecanismo por excelência para reverter esse quadro. Nesse contexto, o
desemprego tornou-se o principal fenômeno social a ocupar as preocupações tanto
dos formuladores das políticas públicas, quanto dos pesquisadores sociais que
tratam de temas relativos ao mundo do trabalho. A focalização no fenômeno do
desemprego decorreu do seu aumento generalizado, principalmente nas metrópoles
brasileiras, onde se concentrava o setor industrial.
Nos últimos anos, porém, em decorrência da redução da taxa de desemprego e do
aumento do emprego formal, o foco de discussão foi redirecionado para as
desigualdades de renda do país. As análises, de modo geral, têm enfatizado a
redução das desigualdades de renda entre os grupos sociais, medida tanto
através de indicadores sintéticos – como o índice de Gini e de Theil –, quanto
de outras formas, como as diferenças entre os estratos de renda. De qualquer
modo, o que se consegue apreender das análises efetuadas é que o país precisa
reduzir ainda mais as desigualdades que o caracterizam historicamente, para
alcançar patamares dos países mais desenvolvidos.
Tanto no momento em que o desemprego tornou-se a tônica das discussões
políticas e acadêmicas (Guimarães_e_Cardoso,_2008), quanto noutro, mais
recente, em que as desigualdades de renda tornaram-se o principal tema de
debate público, ocorreu a utilização mais explícita da teoria do capital humano
(Barros, Franco e Mendonça, 2007; Barbosa_Filho_e_Pessôa,_2009), seja para
justificar o insucesso de boa parcela de indivíduos que procuravam uma inserção
no mercado de trabalho e não conseguiam, seja para demonstrar o motivo das
diferenças de renda entre os indivíduos.
A teoria do capital humano obtém muita relevância, sobretudo nas conjunturas
que estamos mencionando, porque possui um pressuposto que é muito fácil de ser
compreendido intuitivamente: indivíduos com maior nível de escolaridade
apresentam maior nível de remuneração (Schultz,_1961;Mincer,_1974). De fato,
quando se utiliza qualquer base de dados que possua informações relativas à
renda e escolaridade, as análises vão sempre indicar que há uma correlação
positiva entre essas duas variáveis, o que possibilita concluir que o nível de
renda é, em grande medida, decorrente da escolaridade. É claro que grau de
correlação não implica, necessariamente, relação de causalidade. Porém,
independente disso, é importante ressaltar que, se há alguma causalidade entre
os dois fenômenos mencionados, torna-se importante compreender os mecanismos
que operam no sentido de tornar os mais escolarizados os que também possuem, em
média, as maiores rendas, já que se trata da relação entre dois fenômenos
sociais.
Avanços nesse sentido já foram realizados ao procurar demonstrar que a seleção
de mão de obra demandada pelo mercado de trabalho, baseada no critério de
escolaridade, tem implícita a escolha referente à posição social dos indivíduos
(Collins,_1971; Bourdieu,_2007), que, em situações de inflação de credenciais
educacionais, o mercado de trabalho, ao demandar mão de obra, seleciona os
indivíduos que apresentam os melhores atributos adquiridos, mesmo em
circunstâncias em que a escolaridade apresentada é maior que a exigência da
ocupação. Nesse caso, ocorre a existência de filas ordenadas segundo os
atributos dos indivíduos (Thurow,_1972).
Também foi desenvolvida, desde o começo dos anos 1980, uma importante
contribuição analítica que procurou focalizar as exigências de escolaridade das
ocupações em vez de tratar a escolaridade dos indivíduos (Duncan_e_Hoffman,
1981). O pressuposto desse modelo analítico é de que a escolaridade requerida
pela ocupação é mais importante que a escolaridade do indivíduo. E, ao haver
inflação de credenciais educacionais, dado o aumento generalizado do nível
educacional da população, passa a ocorrer o aumento de situações de
overeducation (sobre-educação), situação na qual as pessoas apresentam maior
nível de escolaridade que o exigido pela ocupação.
Observamos que houve importantes avanços nesse campo analítico, em que se
procurou analisar a relação da escolaridade e o nível de renda, tanto referente
à oferta de trabalho, quanto à demanda por trabalho. Tanto numa dimensão quanto
em outra foram feitas análises buscando também compreender os mecanismos que
tornam os mais escolarizados os que, em média, recebem as maiores remunerações
do trabalho. Assim, passou-se a destacar as condições sociais dos indivíduos
como justificativas para sua inserção no mercado de trabalho e, por
conseguinte, determinantes para explicação do nível de renda que obtêm. Essas
condições sociais foram compreendidas, sobretudo, pela posição ocupada pelos
indivíduos na estrutura social. Mas poucos avanços foram feitos no sentido de
considerar a inscrição dessa estrutura no espaço físico, para entender a
relação entre escolaridade e nível de renda, principalmente quando consideramos
os contextos urbano-metropolitanos. Assim, se a estrutura social se retraduz no
espaço físico (Bourdieu,_1997), sobretudo em contextos metropolitanos, torna-se
importante inserir na análise a localização residencial dos indivíduos na
metrópole para ampliar a compreensão da relação entre escolaridade e nível de
renda.
Por isso, na perspectiva de avançar nesse debate, pretendemos responder, aqui,
as seguintes perguntas:
1. A segmentação residencial do território metropolitano, referida pelo
local de moradia dos indivíduos, é relevante na explicação das diferenças
de renda obtida no mercado trabalho? Se sim, quais são os mecanismos
territoriais que explicam essas desigualdades?
2. O efeito território se dá do mesmo modo entre todas as regiões
metropolitanas brasileiras? Ou há diferenças entre elas? Neste caso, o
que explicaria essas diferenças?
Como hipóteses a essas questões, consideramos que a segmentação residencial tem
efeito na explicação das desigualdades de renda. A explicação do território
para obtenção de renda pessoal pode ser mediada pela estrutura educacional
(segundo a escolaridade) existente em cada contexto territorial, ou pelo modo
como a estrutura social se inscreve no espaço físico das metrópoles
brasileiras. Os mecanismos explicativos da relação entre território e obtenção
de renda podem estar associados aos modelos do efeito vizinhança (Wilson,_1987;
Ellen_e_Turner,_1997; Small_e_Newman,_2001), que colabora para reforçar o
padrão de segmentação residencial das metrópoles brasileiras compreendido na
dupla escala da divisão social do território: por um lado, modelo centro-
periferia, em que há correspondência entre distância física e distância social,
e, por outro, modelo favela-não favela, onde há proximidade física e distância
social (Ribeiro,_2008; Ribeiro_e_Koslinski,_2009).
Mas é preciso também considerar que os condicionamentos socioterritoriais podem
se caracterizar de modo diferente dependendo do contexto regional em que cada
metrópole está inserida. Isso é relevante porque a formação social de cada
metrópole no Brasil, apesar de seguir o padrão característico das metrópoles
latino-americanas, conforma estruturas sociais e econômicas diferentes entre
si, o que pode contribuir para diversas formas de interpretação dos mecanismos
do território metropolitano como fenômeno que ajuda a explicar as desigualdades
de renda.
Este artigo está organizado em seis seções, incluída esta Introdução. Na
segunda seção, discutimos as duas categorias representativas da segmentação
residencial do território das metrópoles brasileiras: favela e periferia. Na
terceira, apresentamos os pressupostos teóricos referentes ao efeito território
em contextos metropolitanos para análise das desigualdades observadas entre os
diversos grupos sociais existentes. Na quarta seção, apresentamos os modelos
analíticos aqui utilizados com a finalidade de testar as hipóteses levantadas e
os procedimentos metodológicos realizados. Na quinta, apresentamos a aplicação
dos modelos analíticos utilizados e realizamos análise dos resultados
encontrados à luz dos pressupostos teóricos utilizados. Por fim, nos
comentários finais, discutimos a dimensão escalar da segmentação residencial
para estudos sobre desigualdades sociais e territoriais, na perspectiva de
apontar desdobramentos possíveis nesse campo de estudo.
SEGMENTAÇÃO RESIDENCIAL METROPOLITANA: DUPLA ESCALA DA DIVISÃO SOCIAL DO
TERRITÓRIO
Duas categorias frequentemente utilizadas no Brasil foram socialmente
construídas para identificar o caráter particular do modo como se manifestou a
segregação socioespacial nas metrópoles brasileiras: periferia e favela. Embora
essas categorias expressassem noções distintas a respeito das desigualdades
territoriais metropolitanas e tenham surgido em momentos diferentes na
sociedade brasileira, ambas foram capazes de representar posições sociais
relacionais com outros lugares materializadas no espaço físico, tendo o poder
de denunciar as desigualdades territoriais metropolitanas ao contribuir para a
constituição do que se convencionou chamar de questão urbana. Essas noções
conferem ao tratamento da organização social do território metropolitano
brasileiro de um modo particular que pode ser compreendido, de um lado, pela
relação centro e periferia e, de outro, pela proximidade física e distância
social (Ribeiro,_2008).
A noção de periferia passou a ganhar conotação relevante na sociedade
brasileira e se construiu socialmente, sobretudo, em decorrência do processo de
urbanização ocorrida no país, que manifestava a diferença das condições sociais
das pessoas que não conseguiam moradia nas proximidades do local de trabalho,
tendo que buscar alternativas em bairros mais distantes do centro da cidade ou
mesmo em outros municípios das regiões metropolitanas. Essas condições sociais
eram manifestadas pela carência de infraestrutura urbana que se realizavam, em
grande medida, em loteamentos clandestinos, distantes do local de trabalho.
A questão urbana que emergiu, decorrente da identificação da periferia como
categoria social capaz de denunciar o modo como se realizava a urbanização na
sociedade brasileira, deu centralidade à inexistência ou precariedade de
moradia para parcela expressiva dos migrantes que se dirigiam aos principais
centros urbanos do país em busca de trabalho. Ou seja, a compreensão dessa
questão urbana se deu pela relação entre moradia e trabalho. Era em torno da
problemática do trabalho que a ausência ou precariedade da moradia passou a ser
compreendida, dando primazia à periferia como lugar em que se constituiu como
alternativa para reprodução da mão de obra e, por isso mesmo, servisse de
barateamento da força de trabalho.
Mas essa identificação das condições precárias em que se assentava a população
que vivia nas periferias das grandes cidades, sobretudo São Paulo e Rio de
Janeiro, ganhou expressão relevante como categoria que dimensionava a
problemática urbana ou o tipo de urbanização que se realizava no Brasil – e por
que não dizer na América Latina? – quando passou a ser associada à concepção de
espoliação urbana (Arantes,_2009).
A espoliação urbana foi originalmente formulada como:
Somatório de extorsões que se opera através da inexistência ou
precariedade de serviços de consumo coletivo que se apresentam como
socialmente necessários em relação aos níveis de subsistência e que
agudizam ainda mais a dilapidação que se realiza no âmbito das
relações de trabalho. (Kowarick,_1979:59)
A espoliação urbana revelou, assim, as condições de exploração social do urbano
que se realizavam naquele período pelo processo de periferização em curso nas
metrópoles brasileiras, sobretudo nos principais centros urbanos. Ela deu à
categoria periferia a carga política que denunciava as contradições do modo
como se realizava a urbanização e, por conseguinte, a metropolização
brasileira.
É evidente que esse processo de urbanização e metropolização já estava em curso
no país desde os anos 1930, intensificando-se a partir das décadas de 1950/
1960, apesar de diferenças temporais entre os principais centros urbanos que
mais tarde se constituíram como metrópoles. Mas, de modo geral, a sua
explicação como um fenômeno urbano particular da nossa sociedade, que retratava
o caráter das desigualdades no território metropolitano, só veio a ganhar esses
contornos a partir do final dos anos 1970 e começo dos anos 1980.
A noção de favela, por outro lado, teve uma história muito mais antiga que a de
periferia. Foi um fenômeno que apareceu na virada do século XIX para o XX, mas
sua construção social como um problema urbano ocorreu, sobretudo, a partir da
segunda década do século XX, vinculada à concepção higienista predominante
naquele momento na cidade do Rio de Janeiro. Mais tarde somou-se à concepção
sanitarista também a preocupação estética com a cidade, em que recaiu sobre a
favela um dos males a serem combatidos (Valladares,_2000).
Nos anos 1930, sobretudo a partir do surgimento do Estado Novo, a favela passou
a ser preocupação também da política de assistência social daquele momento, na
medida em que o governo getulista, ao compreender a necessidade de controle dos
trabalhadores, entendia como necessário conhecer a favela para poder também
controlá-la. E, nesse sentido, a assistência social foi o mecanismo por
excelência para cumprir essa tarefa. Foi também nesse período que ocorreu pela
primeira vez o reconhecimento institucional da favela, quando esta passou a ser
mencionada no código de obras da cidade do Rio de Janeiro (idem). A
investigação e o aprofundamento sobre as favelas passaram a ganhar maior
sistematicidade somente a partir dos anos 1950, decorrente, inclusive, da
divulgação naquele momento do censo demográfico, que pela primeira vez
apresentou dados referentes à favela (denotado como aglomerados subnormais).
Durante todo esse período, a favela foi compreendida como um problema a ser
solucionado na cidade do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que se tinha sobre ela
uma compreensão homogeneizante, no sentido de considerar que no seu interior as
pessoas possuíam as mesmas condições sociais e que todas as favelas
apresentavam semelhanças. Mas também por decorrência de investigações que se
desenvolveram a partir dos anos 1950/1960, a explicação para o fenômeno da
favela passou a ser associada às condições sociais das pessoas, às dificuldades
de obtenção de moradia e, ao mesmo tempo, à proximidade com o mercado de
trabalho. Foi somente a partir do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970,
que a heterogeneidade social (e política) da favela passou a ser reconhecida
(Silva,_2011; Perlman,_1977).
Como um fenômeno particular que se originou no Rio de Janeiro, expressão da
segregação social e, ao mesmo tempo, da proximidade territorial, a categoria
favela passou a ser associada ao modo como se deu o processo de urbanização e
metropolização no país e foi disseminada como representação para as situações
de pobreza manifestada pelas condições sociais e de infraestrutura precárias em
enclaves do território metropolitano. Ou seja, mesmo que em regiões
metropolitanas específicas do Brasil se fizesse uso de terminologias próprias
para designar certos tipos de aglomerados existentes nas cidades, a
representação social de favela acabou servindo como referencial para sua
compreensão.
Tanto a categoria periferia quanto a categoria favela constituíram-se como
representações do modo particular da segregação socioespacial nas metrópoles
brasileiras, sendo sempre acionadas para explicação das desigualdades
territoriais urbanas. Ainda que não apresentem o mesmo conteúdo que lhes foram
incorporadas entre os anos 1960 e 1980, sobretudo depois das mudanças
estruturais ocorridas no país, essas categorias continuam servindo como
referência nos estudos urbanos, mesmo que seja para interrogar o padrão de
segregação socioespacial da atualidade em contraposição ao que se constituiu no
bojo da política de substituição de importações.
Além disso, essas categorias expressam escalas diferentes de manifestação da
segmentação socioespacial nas metrópoles brasileiras. Isso é importante porque
os mecanismos geradores de desigualdades sociais, por decorrência da natureza
específica de cada um dos fenômenos sociais, podem ser apreendidos ou na
macroescala, retratados pelo conceito de periferia, ou na microescala,
retratados pelo conceito de favela.
As categorias periferia e favela, que serviram como caracterização da
segmentação residencial do território metropolitano no Brasil, mesmo tendo
sofrido questionamento quanto ao seu conteúdo, continuam sendo referência para
designação do modo particular como se caracteriza a segregação socioespacial
nas metrópoles brasileiras. É nesse sentido que procuramos utilizar essas
categorias na análise deste artigo, ao compreender que seu significado pode ter
sofrido mudança decorrente dos processos históricos em que essas categorias
sociais se inscreveram, mas que, ao mesmo tempo, continuam tendo validade para
interpretação dos fenômenos socioespaciais nas metrópoles brasileiras.
TEORIAS EXPLICATIVAS DO EFEITO TERRITÓRIO
Como as metrópoles brasileiras se constituíram espacialmente configurando
posições territoriais e escalares distintas, no que ficou conhecido como modelo
centro-periferia, por um lado, e “favela-não favela”, por outro, interessa
observar as contribuições teóricas que possibilitam analisar a validade desses
modelos socioespaciais para explicação das desigualdades de rendimento
observadas no mercado de trabalho.
Desde a década de 1970 já havia se configurado avanços nos estudos urbanos que
procuravam compreender a distribuição de renda entre os indivíduos por
decorrência, de um lado, da distribuição das atividades dispostas numa
determinada forma urbana e, de outro, das mudanças ocorridas nessa forma
urbana, podendo beneficiar determinados grupos sociais em detrimento do
constrangimento de outros. Essa distribuição de renda pode ser concebida pelas
trocas monetárias propriamente ditas, tendo em vista o preço que se paga, por
exemplo, pela distância entre o local de moradia e o local de trabalho; mas
também pode ser compreendida pelo aumento (ou diminuição) de renda por
decorrência de efeitos externos, configurando o que foi designado por David
Harvey_(1980) como renda real.
As perspectivas teóricas elaboradas para compreensão dos mecanismos que tornam
o território metropolitano importante para a explicação de outros fenômenos
sociais foram desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos, em decorrência
do surgimento dos guetos norte-americanos que ganharam destaque, sobretudo, a
partir dos anos 1980, sob a denominação de efeito vizinhança (neighborhood
effect); mas também podemos observar contribuições nesse sentido de países
europeus, em especial da França, onde houve a presença de pesquisadores que
trataram do efeito bairro.
Tanto de um lado quanto de outro do Atlântico os pesquisadores que consideraram
o efeito território (efeito bairro ou neighborhood effect) estavam preocupados
em compreender o efeito que determinado contexto social de moradia (vizinhança
ou bairro) possuía sobre diversos aspectos da vida social dos indivíduos, como
as chances de sucesso escolar, as oportunidades de emprego, dentre outros
aspectos, que normalmente colocavam em desvantagem determinados coletivos
humanos.
Essa perspectiva analítica, apesar de ter se configurado na primeira metade do
século XX, quando foram desenvolvidos os primeiros estudos da chamada Escola de
Chicago, ganhou ênfase a partir dos anos 1980, decorrente do trabalho
apresentado por W. J. Wilson – The Truly Disadvantaged: The Inner City, the
Underclass, and the Public Policy (1987) –, em que procurou pôr em questão as
explicações da pobreza na inner city de Chicago, colaborando para uma
perspectiva de análise de teor mais estruturalista.
Na época em que Wilson escreveu essa obra, estava se disseminando na sociedade
norte-americana a explicação para a pobreza urbana como decorrente da cultura
da pobreza, associada a uma concepção racial, no sentido de que a explicação
para a condição social dos indivíduos decorria das normas e valores
incorporados que não os predispunham para sair daquela situação. É o que
justificava o fato de essa pobreza se reproduzir ao longo do tempo, segundo
essa perspectiva, colaborando para o aumento da criminalidade, a elevação da
taxa de gravidez na adolescência e fora do casamento e o incremento da taxa de
desemprego, que se caracterizavam como comportamento desviante em relação às
normas vigentes. A pobreza não apenas se fazia presente na inner city, que
passou a se configurar como gueto, mas também tendia a se reproduzir. Esses
coletivos populacionais em situação de pobreza eram caracterizados, sobretudo,
por pessoas negras, que passaram a ser identificadas como underclass.
Contra essa perspectiva culturalista de explicação da pobreza urbana, Wilson
procurou demonstrar que, em decorrência de mudanças significativas ocorridas na
estrutura econômica das metrópoles norte-americanas, reconfigurando
regionalmente a localização dos ramos industriais, muitas indústrias saíram
para outras partes do país e do mundo, alterando, com isso, a composição da
estrutura de emprego. Ainner city que no passado era caracterizada pela
existência de grupos sociais em condições econômicas diversas, em que
prevalecia a mistura social, tendeu ao processo de homogeneização social com
fluxo da classe média e dos trabalhadores que migraram seja para o subúrbio da
metrópole seja para outras regiões do país, em busca da manutenção do emprego
ou do mesmo padrão de vida, levando assim à concentração dos menos
privilegiados.
Em contexto de condições sociais homogêneas, sob o mecanismo do isolamento
social, observou-se, por um lado, a dificuldade dos adultos de conseguirem
emprego tendo em vista a falta de qualificação necessária para as vagas
existentes decorrentes das mudanças ocorridas no processo produtivo ou falta de
informação de sua existência devido aos tipos de relacionamentos a que estavam
submetidos, em que as pessoas de modo geral se encontravam nas mesmas condições
sociais; e, por outro lado, o comportamento adquirido pelas crianças e
adolescentes tendeu a se configurar tendo por parâmetro o modo de vida
construído no gueto e, por elas, assimilado (modelo de papel). Em condições de
mistura social, as crianças e adolescentes pobres poderiam desenvolver suas
aspirações de vida por ter contato com pessoas que estivessem em padrão social
mais elevado que o seu, mas, em condições homogêneas de pobreza, suas
aspirações ficavam comprometidas porque percebiam os adultos na mesma situação
em que viviam.
Ao se utilizar da concepção do mecanismo de isolamento social, Wilson procurou
analisar como as condições sociais existentes na inner city, que perdurariam
por vários anos, colaboraram para a reprodução da pobreza, ao discutir vários
aspectos da vida dos indivíduos, tais como gravidez fora do casamento, gravidez
na adolescência, desemprego, evasão escolar etc. Esse tipo de abordagem da
pobreza colaborou para reconfigurar o debate na sociedade norte-americana,
dando importância, desde então, para as análises territoriais na explicação das
desvantagens sociais. A partir desse momento, emergiram vários estudos
favoráveis e contrários à análise de Wilson, que passaram a considerar o efeito
vizinhança (neighborhood effect).
Grande parte desses estudos atribuiu importância ao efeito da divisão social do
território sob determinadas condições históricas para explicação das vantagens
e desvantagens sociais observadas em moradores de um mesmo bairro, tanto em
situações de pobreza quanto em situações de padrão mais elevado socialmente.
Porém, mais do que perceber se o território importava na análise de
determinados fenômenos sociais, tornou-se fundamental saber quais eram os
mecanismos que contribuíam para compreender como o território provocava efeito
sobre esses fenômenos. Essas questões, que de modo geral ainda estão abertas
para determinados fenômenos que merecem ser melhor investigados, tomaram a
agenda de boa parte dos pesquisadores que tratam da pobreza urbana.
De acordo com Ellen_e_Turner_(1997), mediante um levantamento de várias
pesquisas que até então foram realizadas e que procuraram incorporar em suas
análises o efeito do território, há seis diferentes tipos de mecanismos que
devem ser considerados para interpretação do modo como o território interfere
nos resultados de alguns fenômenos sociais para indivíduos e famílias:
qualidade dos serviços locais; socialização dos adultos; influência de pares;
redes sociais; exposição ao crime e violência; distância e isolamento.
Os autores procuraram deixar claro, porém, que esses mecanismos podem
interferir em estágios diferentes da vida dos indivíduos e, além disso, em
qualquer estágio da vida nem todos os indivíduos serão afetados no mesmo grau
pelo efeito do território. Isso porque esses mecanismos irão operar de acordo
com as outras dimensões que afetam os resultados dos indivíduos, tanto familiar
como individual.
Em relação aos mecanismos apontados, aqueles que mais contribuem para
explicação de efeitos da vizinhança sobre a vida dos adultos referem-se às
redes sociais e a distância e isolamento. O primeiro decorre da qualidade e
extensão de relacionamentos que os indivíduos possuem, o que pode contribuir
para obtenção de informação sobre oportunidades de emprego, mas também para
participação cívica e política na sociedade. A análise das redes sociais deve
considerar a característica do território onde se localizam as moradias dos
indivíduos, se são homogêneos ou heterogêneos, e se a extensão dessas redes
está além das relações de vizinhança. O segundo mecanismo – distância e
isolamento – refere-se basicamente à distância física e acessibilidade para
oportunidades econômicas, sobretudo oportunidades de emprego. Estar longe das
oportunidades de emprego e não ter acesso a elas por falta de transporte
público, por exemplo, afeta negativamente as chances dos indivíduos de obter um
bom trabalho.
Small_e_Newman_(2001) também realizaram um levantamento de trabalhos que
utilizaram o efeito vizinhança para análise de vários fenômenos sociais. Dentre
os estudos que identificaram, puderam constatar que, de modo geral, esses
poderiam ser classificados segundo dois modelos gerais de mecanismos propostos
para interpretação do efeito vizinhança. O primeiro compreende os mecanismos de
socialização. Nesse sentido, procura examinar como a vizinhança socializa as
pessoas que nela crescem, sugerindo que a vizinhança (ou o bairro) molda os
indivíduos sob determinados modelos de comportamento. Por este motivo, esses
mecanismos são utilizados em estudos realizados sobre crianças e adolescentes,
tais como as chances de abandono escolar, gravidez na adolescência, entre
outros.
O segundo modelo compreende os mecanismos instrumentais, cuja preocupação é
analisar como a agência dos indivíduos é limitada pelas condições da vizinhança
(ou do bairro). Por este motivo, esses mecanismos são utilizados para explicar
o efeito vizinhança sobre fenômenos relacionados com adultos, ao invés de
crianças e adolescentes. O mais proeminente desses mecanismos corresponde ao
modelo de isolamento de redes sociais, que considera que os indivíduos em
condições de pobreza e desemprego, em um bairro cuja população encontra-se na
mesma situação, têm maiores dificuldades de encontrar informações referentes à
vaga de emprego no mercado de trabalho. Outro importante mecanismo instrumental
refere-se ao modelo de recursos, que sugere que, em bairros pobres, privados de
recursos institucionais como escolas, igrejas, áreas de recreação, por exemplo,
os pais têm maiores dificuldades de educar seus filhos.
Também na América Latina alguns estudos foram realizados, considerando o efeito
do território (bairro ou vizinhança) para interpretação dos fenômenos sociais
decorrentes das condições de pobreza urbana na região (Kaztman,_1999 e 2001).
Esses estudos tomam como referência as contribuições realizadas nos Estados
Unidos, principalmente o trabalho já mencionado de Wilson.
Os estudos realizados na América Latina sobre o efeito território1 utilizaram
diferentes bases de dados, aplicaram métodos diversos para definição das
condições sociais do bairro ou da vizinhança e também operaram de formas
distintas, alguns com análises multinomiais, outros com análise linear, outros
ainda com análise multiníveis (análise hierárquica). Isso demonstra que a
operacionalização do instrumental teórico que permite analisar o efeito
territorial se dá numa arena muito difusa e que ainda apresenta muitos desafios
metodológicos. Mas, como podemos observar, essa não é uma preocupação apenas
para os trabalhos realizados no contexto da América Latina. Segundo Small_e
Newman_(2001), algumas dificuldades são encontradas nesse tipo de estudo que
estão relacionadas com a distribuição populacional dos indivíduos, a definição
da vizinhança ou do bairro e as características da vizinhança que serão
consideradas para medir as desvantagens.
Ellen_e_Turner_(1997) também fizeram um levantamento de pesquisas que
consideram o efeito da vizinhança e constataram que, referente ao procedimento
metodológico utilizado, há alguns desafios que precisam ser superados nos
estudos que adotam essa perspectiva analítica: é difícil identificar e medir as
condições do ambiente da vizinhança que desempenha um papel mais importante na
formação dos resultados para as famílias e indivíduos; o efeito da vizinhança
pode ser não linear e, por isso, não ser claramente discernível; é difícil
separar o efeito da vizinhança do efeito da família, principalmente
características que são difíceis de medir e observar.
Apesar de discutirem o motivo pelo qual esses aspectos referentes à metodologia
desafiam as pesquisas que utilizam o efeito vizinhança e de apreenderem que
essa dimensão importa para análise de determinados fenômenos sociais, os
autores reconhecem a dificuldade de superá-los e apontam diferentes usos feitos
nas pesquisas para tentar contornar esses desafios. Porém, tanto na análise
feita porEllen_e_Turner_(1997) quanto na avaliação de Small_e_Newman_(2001), a
preocupação na discussão desses aspectos metodológicos está relacionada ao fato
de a vizinhança ou o bairro serem territórios construídos socialmente, embora
se estabeleçam barreiras geográficas em suas definições. Pela imposição dos
dados que serão utilizados, tendo em vista o modo como estão disponibilizados,
a análise do território metropolitano que considera o aporte conceitual e
teórico do efeito vizinhança e seus mecanismos deve ser feita considerando as
distâncias existentes entre o conteúdo teórico dos conceitos e o modo como o
território é empiricamente apreendido.
Isso é inteiramente significativo para o nosso caso, pois a segmentação
residencial que utilizaremos não, necessariamente, corresponde às condições
sociais homogêneas no espaço urbano metropolitano. Todavia, podemos perceber
que, embora estas condições não sejam satisfeitas, há distinções importantes
quando se considera a relação entre moradores da periferia metropolitana e o
núcleo metropolitano, de um lado, e moradores de favela e moradores de não
favela, de outro.
METODOLOGIA
O procedimento operacional para realização dos testes de hipóteses neste artigo
consiste na realização de análise de dados secundários decorrentes de pesquisas
domiciliares do tipo survey, construídas pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), que compõem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(PNAD). A PNAD é uma pesquisa amostral que é levada a campo em todos os anos,
com exceção daqueles nos quais ocorrem os censos demográficos. Desde seu
surgimento, no final da década de 1960, ela não foi realizada somente em 1994,
além dos anos em que os censos demográficos foram realizados, a saber: 1970,
1980, 1991, 2000 e 2010. Portanto, esta pesquisa possui uma série histórica
anual de mais de quatro décadas, como poucas existentes no país.
A PNAD é uma pesquisa de abrangência nacional, sendo também representativa para
todas as unidades da Federação (UF) e para nove regiões metropolitanas – Belém,
Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro,
Salvador e São Paulo. O Distrito Federal, apesar de ser uma unidade da
Federação, também é classificado como região metropolitana. Por isso, quando
fizermos referência ao conjunto das regiões metropolitanas estaremos
considerando, além das nove regiões supracitadas, o Distrito Federal (ou
Brasília). Os procedimentos analíticos efetuados neste artigo se referem ao
conjunto das regiões metropolitanas, aqui denominado de Brasil Metropolitano, e
à comparação entre elas.
O tipo de análise estatística que nos permitirá testar as hipóteses corresponde
à análise de regressão linear múltipla, baseada no Método de Mínimos Quadrados
Ordinários (MQO). A regressão linear múltipla nos possibilita testar o efeito
conjugado de diversas variáveis, denominadas de variáveis independentes ou
explicativas, sobre a variável dependente ou variável a ser explicada. A
consideração necessária é que a variável dependente seja contínua, o que
corresponde à característica do rendimento do trabalho principal dos indivíduos
– a variável dependente deste artigo.
As análises realizadas neste artigo recorrem ao uso de métodos quantitativos
referentes à análise de regressão contrastando três modelos analíticos: modelo
de Mincer (teoria do capital humano); modelo credencialista; modelo
daovereducation. O primeiro modelo consiste na utilização dos anos de
escolaridade dos indivíduos e de uma variável proxy da experiência de trabalho
para avaliar o nível de renda dos indivíduos. O segundo modelo incorpora no
modelo anterior os níveis de escolaridade dos indivíduos, correspondente ao que
poderíamos denominar de títulos ou credenciais educacionais. Esses dois
primeiros modelos possibilitam realizar análise pelo lado da oferta do mercado
de trabalho, pois focam nas características dos indivíduos. O terceiro modelo –
overeducation – consiste na utilização de variáveis relativas aos anos de
escolaridade requerida pela ocupação à situação de sobre-educação
(overeducation) – quando os indivíduos possuem mais escolaridade que a ocupação
exige – e à situação de subeducação (undereducation) – quando os indivíduos
possuem menos escolaridade que a exigida pelas ocupações –, além de variável
proxyda experiência de trabalho. Esse modelo focaliza o lado da demanda por
trabalho.
Associadas às variáveis próprias de cada modelo analítico foram acrescentadas
as variáveis referentes à posição social dos indivíduos e à segmentação
residencial na metrópole, além das variáveis de controle (sexo e cor/raça),
como pode ser visto noQuadro_1. A posição social dos indivíduos foi observada
segundo um esquema de classes construído a partir da ocupação dos responsáveis
pelos domicílios (Ribeiro_e_Ribeiro,_2013). A segmentação residencial na
metrópole foi considerada em duas escalas: favela-não favela; núcleo-
periferia2. A favela foi considerada como sendo os aglomerados subnormais
existentes nas pesquisas domiciliares do IBGE. A periferia corresponde aos
municípios metropolitanos com exceção do município núcleo principal, aquele que
dá nome à região metropolitana. Foram consideradas apenas as pessoas de 25 a 59
anos de idade. A partir de 25 anos porque se procurou considerar as pessoas
que, a rigor, já estariam em condições de possuir o nível superior de
escolaridade; até 59 anos de idade porque nossa preocupação foi considerar as
pessoas que ainda não se encontram na idade de se aposentar, como são as
mulheres de 60 anos ou mais. Para tanto, foram considerados os dados de 1998,
2003 e 2009 da PNAD/IBGE.
Quadro 1 Variáveis do Modelo de Regressão
Variáveis CaracterísticaCategoria de Referência
Log renda/hora Contínua
Anos de escolaridade Discreta
Fundamental Dummy Superior
Médio Dummy Superior
Escolaridade requerida Contínua
Sobre-educação Contínua
Subeducação Contínua
Exp Discreta
Exp2 Discreta
Sexo: feminino Dummy Masculino
Cor: parda Dummy Branca
Cor: preta Dummy Branca
Dirigentes Dummy Profissionais de Nível Superior
Peq. empregadores Dummy Profissionais de Nível Superior
Ocup. médias Dummy Profissionais de Nível Superior
Trab. secundário Dummy Profissionais de Nível Superior
Oper. Constr. Civil Dummy Profissionais de Nível Superior
Trab. terc. espec. Dummy Profissionais de Nível Superior
Trab. terc. não espec. Dummy Profissionais de Nível Superior
Trab. agrícolas Dummy Profissionais de Nível Superior
Favela Dummy Não favela
Periferia Dummy Núcleo
Fonte: Elaboração própria com base em PNAD/IBGE (1998, 2003 e 2009).
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Na hipótese levantada neste artigo, discutimos que a segmentação residencial do
território das metrópoles pode exercer efeito explicativo sobre os diferenciais
de rendimento obtidos no mercado de trabalho entre os indivíduos. Assim, nosso
objetivo é avaliar o efeito explicativo das duas dimensões da segmentação
residencial do território que incorporamos à análise dos determinantes de
renda, além de sua relação com a variável escolaridade que está sendo tratada
de formas distintas, de acordo com os diferentes modelos analíticos utilizados.
Diante disso, buscaremos discutir os mecanismos sociais decorrentes dos
resultados apresentados.
O Quadro_2 apresenta o resultado do efeito explicativo de todas as variáveis
independentes para o Brasil Metropolitano, nos anos de 19983, 2003 e 2009.
Nosso propósito aqui é focalizar nas variáveis referentes à segmentação
residencial do território metropolitano. Porém, antes, é relevante apresentar,
mesmo que de modo sucinto, os retornos decorrentes da escolaridade nos três
modelos analíticos utilizados, inclusive para explicar as diferenças das
interpretações de cada um deles.
Quadro 2 Coeficientes Não Padronizados da Regressão Linear1 Brasil
Metropolitano
Variáveis2 1998 2003 2009
Belém -0,069 ns -0,047 ns – -0,076 * -0,066 ns -0,075 *
Fortaleza -0,146 *** -0,144 *** – -0,201 *** -0,195 *** -0,192 ***
Recife -0,172 *** -0,145 *** – -0,042 ns -0,028 ns -0,042 ns
Salvador 0,145 ** 0,151 ** – -0,020 ns -0,028 ns -0,029 ns
Belo -0,167 *** -0,165 *** – -0,135 *** -0,126 *** -0,129 ***
Horizonte
Rio de -0,171 *** -0,168 *** – -0,125 *** -0,118 *** -0,131 ***
Janeiro
São Paulo -0,069 *** -0,070 *** – -0,108 *** -0,097 *** -0,097 ***
Curitiba -0,190 *** -0,182 *** – -0,114 *** -0,115 *** -0,116 ***
Porto Alegre -0,209 *** -0,203 *** – -0,142 *** -0,135 *** -0,142 ***
Fonte: Microdados da PNAD/IBGE. Nota: (1) Variável dependente: logaritmo
natural do rendimento do trabalho principal de pessoas de 25 a 59 anos de
idade; (2) * p-val < 0,1; ** p-val < 0,05; *** p-val < 0,001.
Quando observamos os retornos de morar em favela, percebemos que apenas nas
regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo os resultados são
estatisticamente significativos ao nível de 1%, em todos os anos e em todos os
modelos analíticos. A região metropolitana de Porto Alegre também apresenta
retornos estatisticamente significativos ao nível de 5% para todos os anos e em
todos os modelos. As demais regiões metropolitanas não mostram comportamento
homogêneo ao longo do tempo e entre os modelos analíticos, o que nos leva a
considerar a importância dessa escala de análise, sobretudo, para as regiões
metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Em relação aos retornos decorrentes de morar na periferia em relação a morar no
núcleo metropolitano, observamos também que os resultados se apresentaram
estatisticamente significativos para seis regiões metropolitanas, em todos os
anos e em todos os modelos: Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São
Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Esse resultado sugere que a segmentação
residencial observada pela relação núcleo-periferia ajuda a explicar as
diferenças de obtenção de renda entre os indivíduos no mercado de trabalho, no
sentido de que os indivíduos moradores de periferia, na maior parte das regiões
metropolitanas, ganham, em média, menos que os moradores do núcleo
metropolitano. Isso, por sua vez, nos leva à consideração da importância dessa
escala espacial para compreensão das desigualdades de oportunidades do mercado
de trabalho.
Em todos os modelos analíticos que testamos, podemos perceber que a segmentação
residencial do território metropolitano contribui para a explicação das
diferenças de obtenção de rendimento do trabalho, seja entre moradores de
favela e de não favela, seja entre moradores da periferia metropolitana e do
núcleo metropolitano. Apesar disso, observamos que as pequenas diferenças na
obtenção de rendimento, verificadas pela segmentação residencial do território
metropolitano, apresentam efeitos estatisticamente significativos para o
conjunto das regiões metropolitanas.
A desvantagem na obtenção de rendimentos dos moradores de favela e da periferia
metropolitana em relação, respectivamente, aos moradores de não favela e do
núcleo metropolitano pode ser decorrente de mecanismos diferentes, tendo em
vista o modo como se organiza socialmente o território metropolitano no Brasil.
De modo geral, as favelas brasileiras concentram-se no município núcleo das
regiões metropolitanas, onde também está concentrada boa parte dos empregos,
sobretudo, os de melhores remunerações (Ribeiro, Rodrigues e Corrêa, 2009).
Neste caso, podemos observar que os moradores de favela estão fisicamente
próximos do mercado de trabalho, apesar de sua desvantagem ser decorrente de
sua distância social, pois, como se sabe, os moradores de favela, em geral,
apresentam condições socialmente desvalorizadas em relação aos moradores de não
favela.
Portanto, se há desvantagem entre os moradores de favela em relação aos
moradores de não favela na obtenção de rendimento no mercado de trabalho, os
mecanismos que favorecem essas diferenças são carregados de efeitos simbólicos
de desvalorização social, utilizando-se as características dos moradores e de
suas condições de moradia como signo, associado às condições sociais dos
moradores de favela, que caracterizam o modo como se apresenta a segregação
residencial nas metrópoles brasileiras. Assim, é possível que estejam operando
conjuntamente dois mecanismos: discriminação e isolamento de redes sociais. A
discriminação decorreria do estigma que os demandantes de trabalho teriam em
relação aos moradores de favela. Neste caso, a favela pode ser compreendida
como um tropo social, na medida em que seria usada para descredenciar aqueles
que nela moram, não obstante seus atributos pessoais como a escolaridade. O
isolamento de redes sociais decorreria da não interação social com grupos que
ocupam posições mais elevadas na estrutura social, dificultando a possibilidade
de obtenção de empregos de maior remuneração no mercado de trabalho.
Por outro lado, os mecanismos que deixam os moradores da periferia
metropolitana em desvantagem na obtenção de rendimentos em relação aos
moradores do núcleo podem ser decorrentes não necessariamente da forma como se
apresenta a segregação residencial nas metrópoles brasileiras, mas da maneira
como se apresenta a segmentação residencial, por um lado, e a localização de
empregos na metrópole, por outro. Como o mercado de trabalho tende a concentrar
parcela significativa dos empregos no núcleo metropolitano, sobretudo, os
empregos de maior remuneração, e a periferia normalmente concentra parcela
expressiva da população de condição social mais precária, são dois os
mecanismos que podem explicar as desvantagens dos moradores da periferia na
obtenção de rendimento: distância física e redes sociais.
A distância do local de concentração de empregos torna mais difícil para os
moradores da periferia a procura por emprego, sobretudo aqueles de maior
remuneração. Essa dificuldade é decorrente, por um lado, da acessibilidade dos
indivíduos associada às precárias condições de mobilidade urbana nas metrópoles
brasileiras e, por outro, pelo constrangimento imposto pelo preço do
deslocamento.
Diferente dos moradores de favela, que normalmente estão próximos do mercado de
trabalho, as dificuldades de inserção dos moradores em redes sociais que
poderiam colaborar para obtenção de informação sobre empregos de maior
remuneração, por exemplo, são decorrentes da distância física que os grupos
sociais da periferia possuem em relação àqueles que se localizam no núcleo
metropolitano. Ou seja, neste caso, a segmentação residencial torna difícil o
estabelecimento de vínculos sociais mais amplos e heterogêneos entre os
moradores da periferia e do núcleo metropolitano. Mesmo que na sociedade
contemporânea o uso das tecnologias da comunicação e informação esteja mais
disseminado, o que poderia facilitar o estabelecimento de vínculos sociais à
distância física, essa não é uma realidade do conjunto da região metropolitana.
Há ainda uma grande desigualdade de posse de microcomputador entre os
domicílios de acordo com sua localização no território metropolitano, estando
mais desfavorecidos aqueles que moram na periferia ou em favela (Ribeiro_et
al.,_2013).
Podemos supor, todavia, que, tanto na situação da favela quanto da periferia
metropolitana, os recursos institucionais são de pior qualidade que os
existentes seja na não favela seja no núcleo metropolitano. Neste sentido, além
das dificuldades já apontadas que colocam em desvantagem os moradores de favela
e de periferia, a superação dessas desvantagens exige esforço redobrado para os
indivíduos que se localizam nesses contextos territoriais, na medida em que os
recursos que poderiam contrabalançar as desigualdades territoriais decorrentes
dos outros mecanismos apontados anteriormente colaboram para reforçar ainda
mais essas desigualdades.
Essa análise do conjunto das regiões metropolitanas, todavia, esconde as
diferenças existentes entre elas no que se refere ao efeito explicativo da
segmentação residencial do território metropolitano sobre os diferenciais de
rendimento do trabalho, tanto em relação à análise da microescala quanto à
análise da macroescala. Ao considerar a importância dessas escalas analíticas
na comparação entre as regiões metropolitanas, constatamos que somente no Rio
de Janeiro e em São Paulo as duas escalas apresentam efeitos explicativos
significativos para todos os anos analisados. Ou seja, somente nas regiões
metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo o efeito explicativo da relação
entre favela e não favela e da relação entre periferia e núcleo metropolitano
se demonstrou significativo ao nível de 1% em todos os anos analisados. E isso
se apresentou para todos os modelos analíticos testados.
Nesse sentido, podemos considerar a importância de contrastar as duas escalas
para análise dos diferenciais de rendimento do trabalho relevante apenas nessas
duas regiões metropolitanas – Rio de Janeiro e São Paulo –, que são, aliás, as
principais metrópoles brasileiras, onde há as maiores concentrações
populacionais e também onde a estrutura econômica é mais complexa e, por
conseguinte, é mais complexo também o mercado de trabalho. Além disso, podemos
dizer que, por diversas razões, são as metrópoles que expressam o modelo urbano
brasileiro de dupla distância (Ribeiro_e_Koslinski,_2009): o Rio de Janeiro
como consequência da sua própria formação histórica; São Paulo, em razão de na
década de 1980 ter havido uma explosão de favelas no seu principal município,
sobretudo em suas áreas centrais.
COMENTÁRIOS FINAIS
Vimos que, ao considerar o conjunto das regiões metropolitanas, a dupla escala
de análise da segmentação residencial do território metropolitano se mostrou
importante para gerar elementos empíricos que nos permitissem construir
hipóteses sobre os mecanismos que explicam as diferenças entre os indivíduos na
obtenção de rendimento do trabalho. Vimos também na microescala, ao considerar
a comparação entre as regiões metropolitanas, que somente no Rio de Janeiro e
em São Paulo constatamos diferenças, entre favela e não favela, relevantes na
análise dos rendimentos do trabalho. Porém, na macroescala observamos
importância das diferenças entre núcleo e periferia na explicação dos
diferenciais de rendimento nas regiões metropolitanas de Fortaleza, Belo
Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Diante desses
resultados encontrados, surge o questionamento sobre a importância da escala
para as análises do “efeito território”.
Questionamentos como esses – e outros referentes à construção de modelos
analíticos do efeito território – têm sido realizados por diversos
pesquisadores na perspectiva de aperfeiçoamento dos modelos de análise empírica
e de construção de hipóteses explicativas sobre seus mecanismos, o que
justifica nosso interesse na reflexão dos procedimentos metodológicos para além
dos próprios resultados empíricos encontrados. Nesse sentido, torna-se
relevante levarmos alguns desses questionamentos em consideração para uma
melhor interpretação do efeito território. Além disso, vale destacar que esse
tipo de abordagem relativa ao efeito território tende a ganhar maior relevância
porque, cada vez mais, os seres humanos vivem em sociedades urbanas, na medida
em que o urbano tem enorme importância na reprodução das relações sociais
(Lefebvre,_1999).
Roger Andersson e Sako Musterd (2010) realizaram um estudo de três áreas
metropolitanas da Suécia para analisar qual escala é mais apropriada para
análise do efeito território, de modo a colaborar para o campo disciplinar dos
estudos urbanos que tem cada vez mais se desenvolvido nas últimas décadas
referente aoneighborhood effects, mas que ainda apresenta muitas limitações ou
mesmo questões metodológicas ainda sem consenso. Nesse estudo, os autores
compararam três escalas territoriais para analisar qual dessas escalas seria
mais adequada para compreensão das diferentes posições de renda entre os
indivíduos. A partir da definição geográfica de escala, em que o nível mais
elevado era a escala dos municípios que compõem as áreas metropolitanas, os
autores testaram os seus efeitos, para o ano de 2002, utilizando-se de quatro
variáveis de contexto – a porcentagem de desempregados em 1999, a porcentagem
de não migrantes em 1999, a porcentagem com renda nos três últimos decis de
renda em 1999 e a porcentagem com renda nos três primeiros decis de renda neste
mesmo ano. Para tanto, realizaram uma análise de regressão multinível, na
perspectiva de separar os efeitos decorrentes dos indivíduos, propriamente
dito, dos efeitos decorrentes do contexto em que estão inseridos. Os resultados
encontrados por Andersson e Musterd demonstram que os efeitos da escala do
município, que corresponde ao maior nível, foram os mais fracos, atestando que
as escalas de menor nível espacial exercem maior influência sobre as chances
dos indivíduos.
Pela limitação imposta decorrente do tipo de dados utilizados na análise deste
trabalho sobre o efeito da segmentação residencial do território metropolitano
– que se utilizou da PNAD –, o recorte territorial empregado, em que, de um
lado, separou a favela do conjunto da região metropolitana e, de outro, separou
o núcleo metropolitano da periferia metropolitana, apesar de expressar escalas
diferentes, não chegou a ser um recorte escalar de nível significativo para
testar o efeito territorial sobre as chances dos indivíduos no mercado de
trabalho – o efeito de contexto social relevante para os indivíduos, para sua
socialização, para sua relação com a sociedade. Nesse sentido, podemos afirmar
que o efeito da segmentação residencial do território metropolitano poderia ser
mais expressivo se fosse possível realizar um recorte escalar num nível menor.
A importância do território na análise das desigualdades de renda seria ainda
maior que a observada pelos resultados estatísticos encontrados e analisados.
Assim, sugerimos que estudos que procuram analisar o efeito da segmentação
residencial do território metropolitano utilizem de base de dados capaz de
apreender escalas espaciais como a do bairro ou da vizinhança.
Todavia, temos que considerar também a dificuldade de definição do que seja a
vizinhança. Como Small_e_Newman_(2001)salientaram, essa definição pode ser
feita de diversas maneiras, podendo compreender a vizinhança como espaço
social, como conjunto de relacionamentos, como conjunto de instituições
existentes, ou ainda como unidade simbólica. Mas, qualquer que seja a
definição, sua operacionalização para os estudos que se preocupam em
compreender as desvantagens sociais será limitada pela base de dados utilizada.
No nosso caso, a definição da segmentação residencial do território
metropolitano decorreu apenas de sua definição geográfica, sem compreender
nessa definição variáveis de contexto. Contudo, essa definição geográfica, que
também decorreu dos limites da base de dados utilizada, se apoiou na literatura
que demonstra como a estrutura social se expressa nas diferentes condições de
vida dos moradores de favela e dos moradores de não favela, por um lado, e dos
moradores do núcleo e dos moradores da periferia, por outro. Porém, a
literatura que faz referência à periferia não a compreende, tão somente, a
partir dos municípios metropolitanos que não seja o município núcleo. Ao
contrário, dentro do próprio município núcleo podem existir bairros de
periferia. Se os dados possibilitassem observar essas diferenças, possivelmente
os resultados do efeito da segmentação residencial do território metropolitano
seriam mais expressivos do que foi demonstrado aqui.
A análise que empreendemos sobre a segmentação residencial do território
metropolitano se utilizou da concepção de neighborhood effect, elaborado a
partir dos estudos urbanos realizados nos Estados Unidos da América desde os
anos 1980 (Wilson,_1987). Apesar da utilização dessa concepção para as análises
realizadas neste artigo, tivemos a preocupação de operacionalizá-lo a partir da
compreensão do modo particular de constituição das metrópoles brasileiras, em
que se definiu ao longo do tempo um modo específico de segmentação residencial,
expressão também da segregação socioespacial, que se caracteriza pela dupla
escala: de um lado, a distância social e a proximidade física (favela e não
favela) e, de outro, a distância física e a distância social (núcleo e
periferia) (Ribeiro_e_Koslinski,_2009).
Porém, como observou Wacquant_(2001), ao comparar o gueto norte-americano e a
banlieu francesa, a transposição de categorias que foram construídas espacial e
historicamente em outros lugares, corre-se o risco de transposição também de
outras realidades. Essa observação leva-nos também a questionar o significado
das categorias que traduzem a particularidade da segmentação residencial para
todas as regiões metropolitanas.
A favela, que é uma das expressões de desigualdades sociais e territoriais das
metrópoles brasileiras – uma das formas de reconhecimento coletivo da distinção
social; designa uma desigualdade que vai além das diferenças de condições de
vida e dos atributos dos indivíduos –, não é uma realidade de todas as regiões
metropolitanas, ao mesmo tempo que as relações que se dão entre moradores de
favela e moradores de não favela podem não ser as mesmas naquelas regiões
metropolitanas onde elas existem. Como vimos, as regiões metropolitanas que, de
fato, expressam diferenças nas chances dos indivíduos no mercado de trabalho na
análise sobre as favelas são as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de
São Paulo. Foi nessas regiões metropolitanas que se conformou um modo
particular da morfologia urbana, em que as favelas ganharam expressão
quantitativa e qualitativa, no sentido de que elas se constituíram socialmente,
servindo como representação coletiva da segregação socioespacial das metrópoles
brasileiras.
A periferia, por outro lado, é uma categoria social que também expressa a
segmentação residencial das metrópoles brasileiras. Mesmo que o conteúdo que
antes essa categoria incorporava tenha se modificado (o que se coloca para nós
como um questionamento), é uma categoria que consegue expressar as
desigualdades sociais manifestadas no território metropolitano para um conjunto
mais amplo de regiões metropolitanas. Porém, embora possamos analisar boa parte
das metrópoles brasileiras segundo essa concepção, é importante considerar que
em algumas regiões metropolitanas essa dicotomia núcleo-periferia não é
diretamente observável, na medida em que as condições sociais tanto dos
moradores do “núcleo” quanto dos moradores da “periferia” são mais homogêneas,
apesar de serem condições homogêneas precárias, como são ainda algumas regiões
metropolitanas do Norte e do Nordeste. Isso também pode significar que o que
compreendemos como núcleo se realiza em uma escala muito diferente do que
conseguimos apreender, demonstrando que os processos e as escalas são
diferentes entre as regiões metropolitanas. Mas que, de todo modo, nos
possibilita interrogar sobre a transposição de realidades quando transportamos
categorias, mesmo que nos limites da fronteira nacional.
Nesse sentido, compreendemos que nosso estudo acrescenta ao debate do efeito
território sobre as oportunidades relativas ao mercado de trabalho a
importância da escala espacial de análise, uma vez que ela pode apresentar
efeitos distintos nos contextos metropolitanos, como vimos nos diferentes
efeitos favela-não favela e núcleo-periferia. Isso é relevante para a
compreensão dos mecanismos que operam em cada nível territorial de modo a
pensar em alternativas de superação das desigualdades sociais que se viabilizam
por meio do território.
Destaca-se, todavia, que este artigo avança na análise do efeito territorial
quando considera três modelos analíticos para sua operacionalização: dois
modelos que focalizam o efeito território visto pelas características da oferta
de trabalho (Mincer e Credencialismo), pois apresentam os atributos de
escolaridade dos indivíduos; um modelo que apresenta o efeito da escolaridade
exigida pelas ocupações, portanto relativo à demanda por trabalho
(overeducation). Em todos eles pudemos observar a importância do território
para compreensão das desigualdades de renda no mercado de trabalho. Isso
comprova, a nosso ver, que, mesmo havendo mudanças no efeito da escolaridade
quando se contrapõem os três modelos analíticos, o território continua
exercendo explicação sobre as desigualdades de obtenção de renda no mercado de
trabalho, o que nos informa que seu efeito independe, pelo menos diretamente,
das demais variáveis. E se o território, independente dos atributos
apresentados pelos indivíduos ou dos atributos exigidos deles, exerce efeito
sobre a explicação das desigualdades existentes no mercado de trabalho, o campo
analítico relativo ao mundo do trabalho deve considerar, cada vez mais, as
contribuições da sociologia urbana para ampliar sua compreensão dos mecanismos
geradores de desigualdades.