Imagem da enfermeira: revisão da literatura
REVISÃO
Imagem da enfermeira: revisão da literatura
Nurse's image: literature review
Imagen de la enfermera: revisión de la literatura
Taís Maria NaudererI; Maria Alice Dias da Silva LimaII
IEnfermeira. Aluna do Programa de Mestrado da UFRGS. Bolsita do CAPES
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto da Escola de Enfermagem
da UFRGS
1. INTRODUÇÃO
A imagem da enfermeira (será utilizado o substantivo feminino, de acordo com a
designação cultural genérica utilizada para essa categoria profissional),
conforme identificada pela sociedade, compõe-se de estereótipos, demonstrando
desconhecimento sobre esse trabalho ou caráter depreciativo em relação à
profissão. A figura da enfermeira é identificada com distorções e, muitas
vezes, com desvalorização social, devido à idéia de que a profissão tem baixa
remuneração e é subalterna a outros profissionais, especialmente ao médico.
Levando-se em conta a desinformação da população em relação à realidade
profissional, surgem algumas questões: Qual a imagem utilizada pela sociedade
para identificar a enfermeira? Quais são os fatores que influenciam a
construção dessa imagem? Houve alguma mudança nessa imagem em algum momento?
Assim, este artigo apresenta uma revisão teórica acerca do tema, propondo
reflexões a partir desses questionamentos.
2. IMAGEM
A imagem significa o quadro que uma pessoa tem do objeto de sua vivência. Seu
conceito está intimamente ligado à idéia de prestígio social e sua construção
relaciona-se a concepções, sentimentos e atitudes. Imagem pode significar
também a opinião (contra ou a favor) que o público pode ter de uma instituição,
organização ou personalidade ou ainda o conceito que uma pessoa goza junto a
outrem(1).
A imagem de qualquer categoria profissional na sociedade pode ser associada a
poder, reconhecimento e status. O que a sociedade pensa do profissional é tão
importante quanto aquilo que ele é, pois a projeção de uma imagem negativa
dificulta o desenvolvimento da profissão e o seu reconhecimento por parte da
sociedade(2).
A imagem profissional da enfermeira é uma rede de representações sociais da
profissão. Para Silva, Padilha e Borenstein (3:588) "é representada por um
conjunto de conceitos, afirmações e explicações, reproduz e é reproduzida pelas
ideologias originadas no contexto das práticas sociais, internas/externas a
ela".
Assim, a imagem profissional remete à identidade da profissão, relacionada às
suas características e significados exclusivos. Essa relação imagem/identidade
é um fenômeno histórico, social e político, configurando-se em uma totalidade
contraditória, múltipla e mutável(3).
História da Enfermagem
A imagem da enfermeira é influenciada pela história da enfermagem. As primeiras
referências a enfermeiras são encontradas no Velho Testamento Bíblico. A
palavra enfermeira é derivada do latim nutrix que corresponde à "mãe
enfermeira", imagem associada a uma mulher que acompanhava uma criança que
geralmente não era sua, como uma babá. Ao longo dos séculos a palavra
"enfermeira" evoluiu até ser associada a uma pessoa que cuida de enfermos, não
necessariamente do sexo feminino(4).
A Enfermagem surgiu como uma resposta intuitiva ao desejo de manter as pessoas
saudáveis, proporcionar conforto e proteção aos doentes, constituindo a Imagem
Folclórica da Enfermeira (5). O papel de enfermeira era assumido por aquelas
mulheres que apresentavam desejo e habilidade para cuidar. O conhecimento que
essas mulheres desenvolviam e acumulavam sobre saúde era passado oralmente de
geração para geração. Naquela época existia uma relação íntima da religião e do
folclore com as artes curativas(6).
A Imagem Religiosa da Enfermeira(5) se desenvolveu na Era Cristã e Idade Média,
com organizações voltadas para a caridade e o cuidado de doentes, pobres,
órfãos, viúvos, idosos, escravos e prisioneiros(4). Nessa fase, as mulheres
solteiras (diaconisas), as virgens e as viúvas tiveram oportunidades de
trabalho jamais imaginadas. À medida que a Enfermagem desenvolvia uma imagem
associada à religião, uma disciplina cada vez mais rígida era exigida e a
obediência absoluta às ordens médicas e dos pastores era determinada(4).
No passado, os cuidados aos doentes eram considerados como inatos à mulher,
inscritos no seu patrimônio genético e associados ao amor maternal. O impacto
disso, associado à divisão sexual do trabalho e à influência dos valores
religiosos veiculados desde a idade média, colaboram para a desvalorização
econômica lenta, mas segura, do conjunto de práticas de cuidado asseguradas
pelas mulheres(7). Amor e doação estão associados ao exercício da obediência e
humildade, contribuindo para que faça parte do ideário da sociedade que as
enfermeiras trabalhem sempre a serviço do outro, sem uma remuneração justa ou
mesmo condições de trabalho que possibilitem um digno exercício da profissão
(8).
O Renascimento (séc. XIV a XVI) provocou uma revolta contra a supremacia da
Igreja Católica, quando foram dissolvidas ordens religiosas e o trabalho das
mulheres nessas ordens foi extinto, iniciando os "Anos Negros da Enfermagem". O
papel das mulheres na sociedade mudou: deveriam resignar-se aos limites de seus
lares e obedecer a seus maridos. Assim, o cuidado aos doentes foi deixado a
cargo de um grupo mulheres que compreendia prisioneiras e prostitutas que eram
forçadas a trabalhar como serventes domésticas(4). A Enfermagem naquela época
era considerada um serviço doméstico, sendo pouco desejável, em virtude das
longas horas, da baixa remuneração e do estressante trabalho. A denominada
Imagem Servil da Enfermeira(5) representava uma mulher gorda, velha, bêbada,
com uma aparência desagradável, por vezes masculinizada e insensível(4).
As características marcantes de gênero em uma profissão quase que
exclusivamente feminina contribuíram com essa imagem de obediência e submissão.
Fazia parte da formação advertir as enfermeiras que não era necessário dominar
o conhecimento médico, mas realizar tarefas domésticas de rotina, sem
julgamento crítico ou iniciativa(9). Com isso eram garantidas a subordinação e
a dependência de seu trabalho ao médico, o que interferiu na evolução da
profissão, visto que suas precursoras preocupavam-se em enaltecer os valores
referentes à beleza dessa atividade e às perspectivas de vida dedicada ao
próximo.
No Brasil, a Enfermagem surgiu com elementos exclusivamente do sexo masculino,
primeiramente com os índios, nas figuras dos feiticeiros, pajés e curandeiros,
que se ocupavam dos cuidados aos que adoeciam em suas tribos, e mais tarde com
os jesuítas, voluntários leigos e escravos, selecionados para tal tarefa(10).
No Brasil do século XVI, a Enfermagem tinha um cunho essencialmente prático,
razão pela qual eram extremamente simplificados os requisitos para o exercício
da função de enfermeira. Essa condição perdurou até o início do século XX,
sendo que, nesse período não era exigido qualquer nível de escolarização para
aqueles que exerciam a profissão e a prática era embasada em conhecimentos
puramente empíricos(10).
No Brasil, Ana Néri, considerada pelo Governo Brasileiro de sua época a Mãe dos
Brasileiros e, até os dias de hoje, símbolo da Enfermagem nacional, tinha como
maiores virtudes abnegação, obediência e dedicação, sendo que o Estado Novo
institucionalizou seu heroísmo, patriotismo e resignação. Assim, a imagem que
permaneceu no país é a de que a enfermeira deveria ser alguém disciplinado e
obediente, alguém que não exercesse crítica social, porém socorresse e
consolasse as vítimas da sociedade(10).
A primeira escola de enfermeiras no Brasil surgiu em 1890, nas dependências do
Hospício Nacional de Alienados, pela necessidade de formação de profissionais
de Enfermagem para tal instituição, pois as irmãs de caridade, responsáveis
pelos cuidados aos doentes, haviam abandonado o hospício por incompatibilidade
com o seu diretor. Essa escola, chamada Alfredo Pinto, era baseada no modelo da
Escola de Salpetrière e tinha sua organização e direção realizada por médicos
(11). A Escola Ana Néri, fundada em 1923, foi a primeira no Brasil a ministrar
o ensino sistematizado de Enfermagem baseado no modelo nightingaleano, a cargo
de enfermeiras americanas e foi pioneira também na exigência de escolaridade
mínima para ingresso: curso normal ou equivalente(10).
Havia uma desvalorização da profissão de enfermeira no Brasil do início do
século passado. Na criação do Serviço de Enfermeiras do Departamento Nacional
de Saúde Pública, em 1922, uma das organizadoras evitou em seu discurso
utilizar a palavra "enfermeira", preferindo o termo "nurse",ao se referir às
profissionais formadas sob sua supervisão, tentando assim diferenciá-las. O
termo não teve a aderência esperada, prevalecendo as formas de denominação
diferencial com a enfermeira de alto padrão ou diplomada, as quais indicavam
uma categoria diferente de profissionais, com uma formação mais exigente(8).
Foi somente no final do ano de 1961, por força de legislação, que a formação de
Enfermeiras no Brasil foi incluída no sistema educacional universitário,
estabelecendo-se como pré-requisito para ingresso o curso secundário completo
ou equivalente. No entanto a idéia de que as enfermeiras são profissionais de
baixa qualificação ainda permanece, assim como permanece também a terminologia
diferencial adotada a partir da década de 20(10).
A formação em Enfermagem no Brasil, que no seu princípio voltava-se para as
práticas preventivas e para os problemas básicos da maioria da população, foi
aos poucos se distanciando disso e acompanhando os avanços do ensino e das
práticas médicas, em acordo com o modelo econômico vigente na época. No início
da década de 70, as disciplinas de saúde pública não eram mais obrigatórias no
currículo mínimo da graduação e o domínio das técnicas avançadas em saúde se
fazia necessário, pois as equipes médicas precisavam de enfermeiras
especializadas para atuarem em seus centros cirúrgicos sofisticados e afins,
para uma assistência muito mais curativa, restrita a uma minoria da população
(10). Assim, pode-se depreender que as enfermeiras demonstraram não ter buscado
manter sua identidade na saúde preventiva, área que embasou seu início como
profissão. A formação voltada para as práticas hospitalares reforçou o
estereótipo de auxiliar dos médicos, pois partiu deles a necessidade de
especialização e distanciamento da saúde pública, por motivos financeiros que
muito pouco atingiam as enfermeiras.
3. IMAGEM DA ENFERMEIRA
A imagem da enfermeira é uma preocupação mundial, tendo em vista a produção
científica acerca do tema encontrada na literatura, indicando que há décadas o
assunto é pertinente e merece a atenção dos profissionais. Artigos recentes têm
sido produzidos na Austrália(12,13), China(14) e Egito(15), mostrando que o
tema é objeto de estudo de relevância para a Enfermagem.
A profissão de Enfermagem evoluiu, assim como seu ensino, porém a figura da
enfermeira hoje é ainda permeada pelos conceitos e estereótipos associados à
função de auxiliar o médico e à falta de vida social pela total dedicação à
profissão(4,12), à figura de fadas e feiticeiras(9) e até ao erotismo e
sensualidade(16).
São numerosas as referências associando as enfermeiras a figuras de anjos de
branco, santas e religiosas, que podem ser explicadas tanto na cor predominante
dos uniformes ou nas origens da profissão, como nas virtudes desejadas tanto
para as religiosas como para as enfermeiras, tais como: obediência, respeito à
hierarquia e humildade(10). As enfermeiras também são vistas como anjos que
protegem vidas humanas, aproximando-se muitas vezes a super-heróis, que não
sentem dores, não têm necessidades, horários ou família(8).
O caráter manual atribuído ao cuidado direto aos doentes contribui para sua
desvalorização, visto que as atividades práticas são percebidas como de
inferioridade em relação ao trabalho intelectual, próprio do médico, e como
fator de desvalorização social(17,18). Outro aspecto relevante trata dos
diferentes graus de formação da equipe de Enfermagem, dos quais a sociedade, de
um modo geral não percebe a diferença, quando é atendida por esses
profissionais. A falta de identificação dos níveis dos profissionais de
enfermagem ocasiona frustração e diminui o desejo dos estudantes e dos
profissionais de continuarem na profissão, sendo mais simples procurar outra,
que tenha maior reconhecimento e valorização social(8).
A formação em Enfermagem não tem contribuído para a mudança na postura e,
conseqüentemente, na imagem da enfermeira. A educação em Enfermagem ainda
carrega a concepção de que as enfermeiras devem ser disciplinadas e obedientes,
sem valorizar em suas atividades de ensino o desenvolvimento de uma postura
crítica, dando prioridade a aspectos de conduta e moral(19).
O agrupamento dos diversos fatores acima descritos, associado ao baixo status
social e à falta de estabelecimento de limites de atuação, denota nas
profissionais insatisfação e sentimentos de impotência e pessimismo diante dos
rumos da profissão(17). Em associação e/ou decorrência disso, a imagem que as
enfermeiras têm de si também é negativa, o que contribui para um baixo grau de
auto-realização. A auto-imagem da enfermeira é uma responsabilidade da educação
em Enfermagem, espaço no qual os professores deveriam estimular o
desenvolvimento do autoconceito e da auto-estima positivos nos alunos, para
embasar mudanças significativas na imagem profissional, tornando-a mais
positiva(2).
Um estudo realizado sobre a imagem da enfermeira na imprensa escrita(20)
concluiu que a enfermeira não é devidamente reconhecida pelo público, sendo
confundida com os outros trabalhadores em Enfermagem e até com diferentes
profissionais da área da saúde, como nutricionistas e fisioterapeutas.
Concluiu-se também que a função gerencial do trabalho é pouco expressiva e as
atividades de pesquisa da enfermeira são desconhecidas, havendo,
respectivamente, uma e nenhuma referência a estas dimensões. Entretanto, nem só
de aspectos negativos sua imagem é constituída: foi constatada a utilização do
termo enfermeira como sinônimo de prestação de cuidados, com conotação de
carinho e eficiência. Mesmo assim, a análise das autoras desse trabalho mostra
que o espaço ocupado pela Enfermagem na imprensa tem contribuído para reforçar
aspectos negativos, distantes da imagem que as enfermeiras fazem de si mesmas.
Em outro estudo(2),realizado com alunos ingressantes no curso, a influência da
mídia na imagem pública da enfermeira não é tão determinante quanto parece,
pois esse fator ficou em 4º lugar dentre os que influenciaram a imagem
atribuída à enfermeira pelos acadêmicos, tendo menos influência que
experiências vivenciadas em situações de doença, relacionamento com familiares
ou amigas que sejam enfermeiras e antecedentes de trabalho no campo da saúde.
Há ainda autoras(16) que, mesmo referindo em seus estudos a falta de definição
da imagem da enfermeira, o que possibilita incômodas interpretações e
representações por parte da sociedade, defendem que é nessa falta de
delineamento que reside a força da imagem da enfermeira, pois assim "ela pode
metamorfosear-se em formas tão ricas e sedutoras"(16:35). A Enfermagem deveria
alargar suas percepções e não valorizar tanto os estereótipos, tais como o da
enfermeira prostituta que, na tentativa de ser combatido, acabou por instituir
a rigidez moralizante da conduta profissional. Essa situação é classificada
como um diálogo de surdos, no qual ataca-se a forma com o conteúdo.
Identificam-se diferentes correntes sócio-econômicas que influenciam as
práticas de Enfermagem, entre elas a tecnicidade, a revalorização entre quem
presta e quem recebe cuidados e o desenvolvimento em saúde. Essas influências
modificam o papel da enfermeira, bem como as expectativas desse papel e, assim,
a imagem da enfermeira também se transforma à medida que é abalada a
estabilidade do papel. A Enfermagem é identificada com uma formação religiosa
matrilinear e uma formação médica patrilinear e, para distanciar-se de suas
origens religiosas, as enfermeiras procuraram especializar-se na tecnicidade,
reforçando dessa forma sua associação ao médico(7). Ou seja, para tentar
desvencilhar-se de um estereótipo, as enfermeiras acabam por aproximarem-se de
outro, o que contribui para a confusão de seu papel e de sua imagem.
A contradição central que atravessa a profissão de Enfermagem é a que se
estabelece entre o reconhecimento do papel psicossocial como o papel dominante
da profissão, pretensamente concessor de uma verdadeira autonomia em relação ao
médico, e o fato de o seu estatuto social na equipe de saúde ser totalmente
determinado pela posição objetiva na produção dos cuidados, que o associa ao
tecnicismo e à tecnologia, novamente aproximado ao trabalho do médico(21).
A discrepância entre a percepção das enfermeiras sobre a imagem pública de sua
profissão e a sua própria percepção como profissional prejudica o potencial de
sua prática e reforça a incongruência entre a ideal e a atual realidade
profissional(12). Alguns fatores contribuem para a manutenção dos estereótipos
da imagem da enfermeira, tais como a existência de hierarquia entre médico e
enfermeira, a condição feminina da profissão, o reforço da mídia ao reproduzir
as tradicionais imagens das enfermeiras. Assim, uma melhoria na imagem pública
da enfermeira se faz essencial(12).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As informações acerca da imagem da enfermeira relatadas na literatura, em sua
maioria, remetem à história da Enfermagem como profissão e à sua evolução,
relacionadas ao momento histórico, mais especialmente ao papel da mulher em
cada época. Esses aspectos influenciam significativamente a imagem da
enfermeira nos dias de hoje e, mesmo que ocorridos em determinados períodos
históricos, separados por grandes espaços de tempo, misturam-se no momento
atual, provocando um anacronismo e dificultando ainda mais a definição de uma
identidade profissional da enfermeira.
Considera-se pequena a produção científica sobre o tema no país, uma vez que é
de grande relevância. Entende-se que a imagem pública da enfermeira influencia
sua prática profissional, pois a opinião pública é considerada poderosa na
determinação da estrutura social e nas normas da sociedade. Assim, clarificar
os impactos dos estereótipos públicos da imagem da enfermeira pode corroborar
para aumentar sua credibilidade na imagem pública(12). Mais estudos precisam
ser realizados, tanto na tentativa de definir melhor a imagem pública da
enfermeira como na proposição de medidas que possam contribuir para mudar esta
realidade.