Análise de fatores associados ao significado do trabalho
1. INTRODUÇÃO
O tema do trabalho, inserido no contexto da vida, tem sido estudado no campo da
Psicologia Organizacional. O trabalho tem sido visto não somente como forma de
obter renda, mas também como atividade que proporciona realização pessoal,
status social, possibilidade de estabelecer e manter contatos interpessoais e,
dessa forma, uma vida mais significante (SOARES, 1992). Entretanto, diversas
disciplinas reivindicam o trabalho como uma de suas áreas de estudo; somente
para citar algumas, podem-se mencionar Sociologia Industrial, Teoria
Organizacional, Administração, Relações Industriais, Psicologia Social do
Trabalho, Sociologia das Ocupações (THOMPSON, 1989).
Não se discute o significado do trabalho na vida das pessoas sem analisar o
significado da vida na sociedade moderna, que tem sofrido alterações devido a
novas tecnologias e novas estruturas de força de trabalho, implicando mudanças
nos valores dos conceitos relacionados ao trabalho (MOW, 1987).
A importância do trabalho pode ser verificada pela constatação da quantidade de
horas por dia que as pessoas permanecem nessa atividade. Também são relevantes
os dias, os meses e os anos gastos na preparação para essa atividade, seja na
formação escolar, que dá a capacitação básica para exercer as atividades na
profissão escolhida, seja no treinamento específico, normalmente nas primeiras
organizações em que as pessoas trabalham, para adquirir os conhecimentos para o
bom desempenho na função dentro da organização.
Segundo Baldry et al. (2007, p.12), a
"era industrial consolidou uma separação geográfica e social do
trabalho de todos os outros domínios da vida social e dos conjuntos
de relações sociais que caracterizam a família, a comunidade, o
lazer, a política e a religião".
No entanto, quando se analisa o significado do trabalho na vida das pessoas
empregadas no início do século XXI, é necessário comparar as características do
trabalho dos meados do século passado com o trabalho à luz do modelo da
sociedade da informação ou da economia baseada no conhecimento.
Sabendo-se que o trabalho é uma atividade presente nas diversas culturas, o
estudo do motivo por que as pessoas trabalham, como vivenciam e o que o
trabalho significa para elas é de suma importância para o entendimento desse
importante aspecto da vida das pessoas.
A expectativa é que esse conhecimento possa ser uma ferramenta útil para a
atuação das áreas de recursos humanos, tanto da administração pública como de
empresas privadas, com a finalidade de promover programas de incentivo e
motivação, visando a melhorias no desempenho desses funcionários, à medida que
passa a haver o entendimento de sua forma de pensar e sentir.
O objetivo neste estudo é verificar os fatores que influenciam e conferem
sentido ao trabalho em uma população, cuja metade aproximadamente é composta
por empregados do setor público e outra metade por outros setores (privados).
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Pesquisas sobre o significado do trabalho ' sobre características do trabalho
desenvolvido e padrões pessoais, como sexo, grau de instrução e outros ' têm
demonstrado que existem variações do significado do trabalho conforme a
natureza e o conteúdo do trabalho executado, ocupações com maior ou menor
status e diferenças psicossociais dos indivíduos. Podem ser citadas as
pesquisas empíricas de Lyman (1955), Morse e Weiss (1955), Friedlander (1965),
Tausky (1969), Samuel e Lewin-Epstein (1979), Cacioppe e Mock (1984), MOW
(1987) e Williams (2002).
2.1. O trabalho
Com a expressão vita activa, Arendt (2008) denominou três atividades humanas
fundamentais, que são o labor, o trabalho e a ação. O labor seria o metabolismo
e o desenvolvimento do ser humano do nascimento até o declínio ao final da
vida, com todo o processo biológico que faz parte da vida. O trabalho, por sua
vez, seria a parte artificial da existência humana, produzindo um mundo não
natural que extrapola a existência individual, sobrevivendo e transcendendo às
vidas individuais. A ação, por fim, seria a atividade do relacionamento entre
os homens, estes de natureza plural, isto é, são todos humanos, porém
diferentes entre si. A ação tem a conotação de atividade política, condição
humana da pluralidade, que é especificamente a condição para a existência de
toda vida política. O labor e a ação necessitam do auxílio do trabalho para
minorar seus sofrimentos para subsistência e construir um lar na terra, mas
dentro de um equilíbrio entre essas atividades, em que não se privilegia uma ou
outra atividade.
Conforme Carmo (2001, p.15), o trabalho pode ser definido como
"toda atividade realizada pelo homem civilizado que transforma a
natureza pela inteligência. E realizando essa atividade, o homem se
transforma, se auto-produz e, ao se relacionar com outros homens,
estabelece a base para as relações sociais".
A palavra trabalho, em si, tem origem do latim tripalium, que era um
instrumento com três estacas que servia para manter presos bois ou cavalos
difíceis de serem ferrados.
Pocock, Skimer e Williams (2008, p.23) definem trabalho como trabalho pago e
como vida fora do trabalho:
"as atividades fora do trabalho pago, incluindo-se as atividades
domésticas e as atividades com a família, amigos e comunidade,
inclusive atividades beneficentes e voluntárias".
A respeito do que o trabalho representa sob o protestantismo germânico,
Anderson (1961, p.25) escreveu que
"trabalho é qualquer atividade consciente e proposital que com
satisfação provê as necessidades materiais e espirituais de um
indivíduo e da sua comunidade".
No período produtivo da vida, segundo Anderson (1961), o trabalho encontrava o
principal papel na família, pois pelo trabalho se conseguiam estabelecer a
sobrevivência e o padrão de vida da família, que exercia o papel central da
vida das pessoas.
O trabalho nas linhas de montagem, fragmentado, pode levar a uma economia de
dinheiro para os empresários. Entretanto, a divisão das tarefas foi ao extremo,
com a intenção de aumentar o rendimento individual, diminuir os custos e
aumentar o lucro. As unidades de trabalho ficaram tão pequenas que não
correspondem mais às necessidades psicológicas de muitos indivíduos. Fica
faltando a satisfação de dominar a tarefa como um todo e o decorrente
significado do trabalho (FRIEDMANN, 1964, p.108).
2.2. Relações históricas no trabalho
Para Carmo (2001), diferentes classes sociais, em diferentes épocas e culturas,
têm exaltado ou desprezado o trabalho, sem meio-termo. Quando exaltado, como
ocorre na sociedade atual, para muitas pessoas, o ócio e mesmo o lazer causam
forte sentimento de culpa.
Na antiguidade, segundo Grazia (2000), os gregos clássicos queriam ser sábios
e, para ser sábio, era necessário ter ócio. Ócio não no sentido de descanso do
trabalhador, mas no sentido de Aristóteles, das atividades da contemplação e da
música. Contudo, nem todos os gregos podiam dedicar-se à contemplação e à
música. Ainda o corpo precisava de alimento e abrigo e para isso era preciso
que alguém trabalhasse. Assim, para cada cidadão ocioso, quatro escravos
trabalhavam. Os escravos trabalhavam na agricultura, em minas e em casas ricas.
O homem livre podia ser agricultor, sapateiro, carpinteiro ou comerciante. No
entanto, quem tivesse de trabalhar, no conceito de Aristóteles, encontrava o
caminho bloqueado para a sabedoria e sofria, no que se refere ao ócio, o mesmo
destino dos escravos.
Para Aristóteles, o ócio é uma condição ou estado, não uma fase ou algo
temporal. O ócio é um estado de estar livre da necessidade de trabalhar e assim
alcançar a felicidade, pois somente os que podem contemplar são os mais
autenticamente felizes (GRAZIA, 2000).
Com o declínio da civilização grega e a ascensão romana, ainda influenciada
pela cultura helênica, houve a difusão do latim e dos valores culturais de Roma
nas numerosas províncias conquistadas. Havia o ensinamento de direitos e
deveres dentro de valores romanos de justiça e disciplina, pois a educação de
Roma era, antes de mais nada, utilitária e militarista. Com a dificuldade de se
conseguirem novos escravos, aos poucos seu trabalho forçado foi diminuindo e
sendo substituído por outras formas de trabalho (GOMES, 2008).
Na idade média, segundo Carmo (2001), o trabalho, na visão do catolicismo, era
uma oportunidade de redenção divina dos pecados cometidos e, na visão do
protestantismo, era uma forma de obter riqueza, servindo a Deus, na medida em
que mantinha o ócio e a luxúria à distância.
A visão do catolicismo ante o trabalho pode de alguma forma ser entendida por
um trecho do Sermão da Montanha, no Evangelho de Mateus, no qual Jesus propõe
buscar a verdadeira riqueza:
"Não podeis servir a Deus e às riquezas (ao mesmo tempo). Por
isso vos digo: não vos preocupeis de vossa vida com o que havereis de
comer, nem de vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não será a
vida mais que o alimento e o corpo mais que o vestido? Olhai as aves
do céu: não semeiam nem colhem nem guardam em celeiros e, no entanto,
o Pai celeste as alimenta. E vós não valeis muito mais do que elas?
Quem de vós, com suas preocupações, pode aumentar a sua idade de um
momento sequer? E com o vestido, por que vos preocupais? Olhai como
crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. E eu vos digo que
nem Salomão com toda sua glória se vestia como um deles. Se Deus
veste assim a erva do campo, que hoje cresce e amanhã será queimada,
quanto mais a vós, homens de pouca fé" (BÍBLIA SAGRADA, 1982,
p.1184).
Pode-se interpretar esse trecho como uma crítica ao apego demasiado ao trabalho
(CARMO, 2001), assim como crítica aos poderosos em defesa aos mais humildes. O
importante seria não se esquecer de venerar a Deus, pois as coisas materiais
não importariam tanto. Tendo fé, Deus tudo daria. O trabalho seria encarado
como algo para manter as pessoas ocupadas e não como uma obrigação. Não era
algo nobre ou que trouxesse satisfação, servia somente para ajudar na
resignação cristã e na restauração da pureza da mente. Afastaria a mente e o
corpo das tentações pecaminosas e da preguiça.
Durante o século XIX, após a introdução do modo capitalista de produção,
difundiu-se a ideia de que a riqueza de um país dependia do trabalho. Capital,
terra e trabalho seriam os fatores de produção na escola clássica da Economia,
base de tudo que fosse produzido.
3. CONSTRUTOS E MODELOS ESTRUTURAIS
Nesta seção serão apresentados os construtos utilizados nos modelos sobre o
significado do trabalho.
3.1. Centralidade do trabalho
Na maior parte das sociedades industrializadas, o tempo gasto no trabalho
representa aproximadamente um terço daquele em que a pessoa está acordada. Se
adicionalmente for somado todo o tempo em que o indivíduo gasta preocupando-se,
planejando, em treinamento e em outras situações relacionadas com o trabalho,
uma parte substancial da vida de um adulto será voltada para essa atividade.
Assim, o conceito de centralidade do trabalho está relacionado com a
importância do trabalho na vida de uma pessoa.
Centralidade do trabalho é definida por MOW (1987, p.81) como "o grau de
importância geral que o trabalho tem na vida de um indivíduo para um dado ponto
no tempo" ou "convicção geral acerca do valor do trabalho na vida de
um indivíduo".
Segundo Lundberg e Peterson (1994, p.1461),
"centralidade do trabalho representa uma identificação
individual com o trabalho, ou a significância que a pessoa atribui ao
papel do trabalho".
Son (2006) cita, além da definição sobre o construto centralidade do trabalho
do grupo do MOW (1987), dois indicadores para esse construto: um, denominado
envolvimento com o trabalho, orientado ao valor; outro, chamado de relevância
do trabalho, de natureza comparativa com as demais áreas da vida. O
envolvimento com o trabalho é definido por Lawler e Hall (1970,apud SON, 2006,
p.44) como "o grau pelo qual a situação do trabalho é central para uma
pessoa e sua situação" ou como "a identificação psicológica com seu
trabalho". Lodahl e Kejner (1965, apud SON, 2006, p.44) definem o
envolvimento com o trabalho como "o grau pelo qual uma pessoa é
identificada psicologicamente com seu trabalho ou a importância do trabalho em
sua autoimagem total". A relevância do trabalho é definida pelos autores
(LODAHL e KEJNER, 1965, apud SON, 2006, p.45) como "a importância relativa
do trabalho em relação às outras principais funções da vida de uma pessoa, tais
como família, comunidade, religião e lazer".
Um fato verificado é que um percentual significativo das pessoas continuaria
trabalhando, mesmo se tivesse dinheiro suficiente para parar de trabalhar. Esse
fenômeno teria a ver com o sentimento de que o indivíduo, trabalhando, teria um
elo com a sociedade, fazendo parte ativa dessa sociedade maior. Outro motivo
seria o de ter uma ocupação, ter um propósito de vida. Os desempregados e os
aposentados, por sua vez, caso não achem uma nova atividade, como um emprego ou
um hobby, sofrem um grande impacto quando deixam de ser produtivos e ativos
como o foram em toda a sua vida profissional. Portanto, pode-se concluir que o
trabalho tem grande significado ao indivíduo tanto sob o aspecto econômico como
sob o sociopsicológico.
Segundo Mannheim e Cohen (1978, apud Soares, 1992), os valores de centralidade
variam conforme a atividade, sendo maior em cientistas e profissionais liberais
e menor em trabalhadores manuais.
3.2. Normas sociais do trabalho
As normas sociais, ou seja, as formas de pressão da sociedade sobre o
comportamento das pessoas e as das pessoas sobre a sociedade, têm tido forte
influência no trabalho ao longo dos anos. Mudanças tecnológicas, novos modelos
de técnicas administrativas, aumento na participação feminina na força de
trabalho, aumento do nível educacional, mudança dos empregos para os países do
terceiro mundo e aumento do setor de serviços em vários países têm influenciado
os tipos, a quantidade de empregos e as normas que atuam sobre o trabalho (MOW,
1987).
As normas orientadas para o direito dos trabalhadores referem-se às
responsabilidades das organizações e da sociedade sobre todas as pessoas, no
sentido de que todos teriam direito a um trabalho significativo e interessante;
a um treinamento adequado para iniciar o exercício da função e para dar
continuidade, com qualidade, ao serviço; à participação nas decisões sobre os
métodos de trabalho e outros detalhes relacionados a ele (MOW, 1987).
Por outro lado, as normas orientadas para os deveres referem-se às obrigações
de todos os indivíduos para com a sociedade referentes ao trabalho, e incluem a
obrigação de todos trabalharem em prol da sociedade, obrigação de todos em
garantir seu futuro e em valorizar o trabalho de cada um, qualquer que seja sua
natureza (MOW, 1987).
3.3. Resultados e objetivos valorizados do trabalho
O estudo do significado do trabalho não é completo se não envolver o estudo dos
resultados valorizados do trabalho e os objetivos do trabalho (MOW, 1987).
Entre os vários resultados valorizados do trabalho destacam-se: função de fonte
de renda do trabalho, geralmente considerado o mais importante; função
intrínseca do trabalho, quando o trabalho é interessante e satisfatório para os
indivíduos; função interpessoal do trabalho, como meio para contatos
interessantes com outras pessoas; função de servir à sociedade pelo trabalho;
função de ocupação do tempo com o trabalho; função de fornecer status e
prestígio pelo trabalho (MOW, 1987).
No quadro a seguir são apresentados os indicadores para centralidade do
trabalho, normas sociais e objetivos e resultados valorizados encontrados na
literatura pesquisada e usados na elaboração dos modelos. A coluna MP refere-se
ao modelo proposto neste estudo, a ser detalhado no item 4.4.
3.4. Modelos estruturais
Os diversos modelos encontrados na literatura serão apresentados neste item com
a exposição do modelo de MOW ' Meaning of Working International Research Team
(1987), que é uma das principais referências em estudos sobre o significado do
trabalho, e outros modelos desenvolvidos por pesquisadores e acadêmicos que se
dedicaram ao tema. No item 4.4., será explicitado o modelo proposto para este
estudo à luz das referências bibliográficas pesquisadas.
3.4.1. Modelo MOW ' Meaning of Working International Research Team(1987)
A forma como os indivíduos e os grupos se comportam dentro de uma organização e
a forma planejada pelos gestores para a utilização otimizada dos recursos
humanos são em grande parte determinadas pela noção do significado do trabalho
que os gestores e os indivíduos têm em suas mentes. Eis um dos motivos para as
pesquisas do significado do trabalho (KANUNGO, 1991).
O estudo que se constituiu em um marco neste contexto é o da equipe do MOW '
Meaning of Working International Research Team (1987), primeiro modelo teórico
com referência ao tema sobre crenças, expectativas e valores que os
trabalhadores têm a respeito do trabalho em geral (PÉREZGONZÁLEZ e VILELA,
2005).
O estudo do significado do trabalho pode ter, em termos de nível de análise,
três gradações: individual, organizacional e social. O enfoque principal, para
o trabalho do MOW, é a identificação e o entendimento de uma estrutura comum do
que o trabalho significa para o indivíduo; portanto, o estudo tem enfoque
individual (MOW, 1987).
O objetivo inicial da equipe MOW era fazer uma pesquisa entre culturas e
nações, verificando as consequências da aplicação de algumas variáveis no
tratamento experimental. O segundo objetivo era verificar a incidência de um
dado fenômeno em diferentes ambientes e, finalmente, o terceiro objetivo era
conferir como culturas diferentes solucionam na prática alguns fenômenos
comportamentais relacionados ao trabalho (MOW, 1987).
O modelo inicial é heurístico por natureza, isto é, um modelo idealizado para
servir de diretriz de pesquisa. Ele é baseado no fato de que o significado do
trabalho é determinado pelas escolhas e experiências das pessoas no contexto
dos ambientes e das organizações em que vivem e trabalham. Esse modelo inicial,
em suas variáveis centrais, consiste de cinco construtos, que relacionam os
indivíduos ao fenômeno do trabalho: centralidade do trabalho, normas sociais
acerca do trabalho, resultados valorizados do trabalho, objetivos do trabalho,
papéis do trabalho (MOW, 1987).
Os construtos encontrados no modelo final pela equipe MOW, após a execução de
análise fatorial exploratória, foram: centralidade do trabalho, normas sociais
orientadas para os direitos, normas sociais orientadas para os deveres, função
econômica do trabalho, resultado intrínseco ou expressivo, contato interpessoal
pelo trabalho.
Para facilidade de exposição, os construtos foram agrupados em:
centralidade do trabalho;
normas sociais, juntando as normas sociais orientadas a direitos e
as orientadas a deveres;
objetivos e resultados valorizados para o conjunto de função
econômica do trabalho com resultado intrínseco ou expressivo e
contato interpessoal pelo trabalho.
3.4.2. Outros modelos sobre significado do trabalho
Outros pesquisadores dedicaram-se ao tema e propuseram modelos, como Kanungo
(1982) que realizou estudos sobre centralidade do trabalho, por meio de dois
construtos: um primeiro com o que seria o trabalho atual (job) e o segundo com
o trabalho como conceito geral (work). O trabalho atual está mais relacionado
com o quanto as necessidades pessoais estão sendo satisfeitas, enquanto o
envolvimento com o trabalho em geral, ou a centralidade do trabalho, representa
o quanto o trabalho é valorizado na vida de uma pessoa, sendo função de
condicionantes culturais e sociais.
Outros pesquisadores propuseram uma série de modelos, em geral derivados do
modelo de MOW. São os casos das pesquisas de Soares (1992), Lundberg e Peterson
(1994), Bastos, Pinho e Costa (1995), Harpaz e Fu (2002), Pérezgonzález e
Vilela (2005) e Son (2006), que subsidiaram, de uma forma ou de outra, a
elaboração do modelo proposto neste artigo.
4. MÉTODO
Nesta seção, são descritos os procedimentos metodológicos adotados neste
estudo.
4.1. Tipo de pesquisa
Para o alcance do objetivo deste estudo, realizou-se uma pesquisa descritiva
exploratória classificada como survey.
Para Collis e Hussey (2005, p.70),
"survey é uma metodologia positivista na qual uma amostra de
sujeitos é retirada de uma população e estudada para se fazerem
inferências sobre essa população".
Por meio desta pesquisa, realizada no primeiro semestre de 2009, foi possível
relacionar variáveis e validar construtos do modelo usado como referência para
o estudo aqui abordado.
4.2. População e amostragem
A população focalizada neste estudo é geral e circunscrita aos residentes no
Brasil. Considerando-se que a população é maior do que cem mil, a população
pode ser classificada como infinita para efeito do cálculo do tamanho da
amostra.
Adotando-se o nível de confiança de 90% e erro máximo de 5%, tem-se a
necessidade de uma amostra do tamanho aproximado de 269 respondentes. A amostra
efetiva deste estudo foi de 304 participantes.
4.3. Coleta de dados
A coleta de dados foi feita por meio de um levantamento mediante questionário
armazenado em um site predeterminado na Internet. O questionário tem como base
o modelo descrito no item 4.4.
A fórmula de amostragem casual simples foi empregada para o cálculo do número
de respondentes necessários, apenas para se ter uma ordem de grandeza. Devido à
inexistência de um cadastro de e-mails da população geral para o sorteio dos
participantes da pesquisa, utilizou-se amostragem não probabilística. Foram
acessados e-groups dos atuais e ex-alunos da Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) que estão
inseridos no mercado de trabalho e outros e-groups de funcionários públicos.
Houve também indicação de novos e-mails por parte dos respondentes.
4.4. Modelo desenvolvido neste estudo
O modelo de pesquisa adotado pode ser considerado fusão do modelo de Son (2006)
com o modelo final do MOW (1987).
No modelo proposto para o presente estudo, há uma adaptação do modelo final do
MOW (1987) com a fusão dos três construtos: resultados valorizados extrínsecos;
resultados valorizados intrínsecos; contatos interpessoais em um construto
denominado como resultados e objetivos valorizados intrínsecos e extrínsecos. O
modelo pode ser considerado também como uma adaptação do modelo de Son (2006),
com a separação das normas sociais, únicas nesse modelo, em dois construtos:
normas sociais orientadas aos direitos e normas sociais orientadas aos deveres.
Os construtos do modelo para pesquisa são: centralidade do trabalho, normas
acerca dos direitos sociais, normas acerca dos deveres sociais, resultados e
objetivos valorizados intrínsecos e extrínsecos, como mostrado na figura_1.
A cada construto são associados indicadores, resultados desses construtos, que
terão questões correspondentes no questionário aplicado.
Para o construto centralidade do trabalho, foram incluídos, além das questões
do MOW (1987), quatro indicadores correspondentes a questões de Kanungo (1982)
que tiveram melhores variâncias explicadas no estudo de Peréz-gonzález e Vilela
(2005) para o fator correspondente a esse construto.
Com base nos resultados de pesquisas realizadas pelos autores dos modelos
relatados nos itens 2.4. e 2.5., foram enunciadas as hipóteses a seguir.
H1 A centralidade no trabalho é o aspecto mais relevante na
composição do construto significado do trabalho.
H2 Os objetivos e resultados valorizados são o segundo aspecto mais
relevante na composição do construto significado do trabalho.
H3 As normas sociais são o terceiro aspecto mais relevante na
composição do construto significado do trabalho.
4.5. Técnica de análise dos resultados
Aplicou-se a Modelagem de Equações Estruturais (MEE ou Structural Equation
Modeling ' SEM) para serem obtidas as contribuições de cada constructo na
estimação do significado do trabalho. A MEE "consiste na técnica de
estimação apropriada e mais eficiente para uma série de equações de regressão
múltipla separadas, estimadas simultaneamente" (HAIR JR. et al., 2005,
p.468).
Nessa técnica, os construtos são frequentemente tratados por variáveis latentes
(VL), em razão de não poderem ser medidos diretamente, mas representados ou
medidos por uma ou mais variáveis, também referenciadas como indicadores (HAIR
JR. et al., 2005). Verifica-se na figura_1 que há quatro VLs de primeira ordem
(centralidade, normas orientadas para deveres, normas orientadas para direitos
e resultados e objetivos valorizados) e uma VL de segunda ordem (significado do
trabalho).
A MEE apresenta alguns métodos distintos de estimação dos coeficientes de
mensuração e estruturais dos modelos, sendo os mais conhecidos o baseado em
covariâncias (BC) e o Partial Least Squares (PLS). Neste estudo, o método de
estimação utilizado foi o PLS em razão de sua maior simplicidade de aplicação e
flexibilidade quanto à distribuição dos dados e ao tamanho amostral. Utilizou-
se o software SmartPLS 2.0 M3 (RINGLE, WENDE e WILL, 2005) para os
processamentos.
A confiabilidade dos indicadores em cada construto (VL de primeira ordem) do
modelo proposto (MP) para este estudo é a avaliação do grau de consistência
entre múltiplas medidas de uma variável (HAIR JR. et al., 2005) e pode ser
medida de duas formas: interna e externa.
Confiabilidade externa é obtida medindo-se seguidas vezes e
verificando-se que os resultados são consistentes, próximos entre si.
Confiabilidade interna tem como objetivo verificar que os
indicadores individuais da escala medem o mesmo construto. A medida
mais utilizada é o Alfa de Cronbach. Uma crítica a essa medida é que
ela aumenta com o aumento do número de indicadores (HAIR JR. et al.,
2005); logo, escalas com muitos indicadores devem ser vistas com
cautela. Uma alternativa ao Alfa de Cronbach é a confiabilidade
composta.
Quanto à validade das escalas (composições dos construtos), de acordo com
Kinnear e Taylor (1996, apud Nakagawa, 2008), a validade refere-se ao quanto o
processo de medição está isento de erros amostrais e erros não amostrais.
Apresentam-se, a seguir, os métodos de determinação de validade usados neste
estudo e a estatística goodness-of-fit.
Validade convergente' avalia o grau de correlação de duas medidas
do mesmo conceito. As correlações altas indicam que a escala múltipla
está medindo seu conceito pretendido. Pode ser dada pela variância
média extraída (AVE), que mede a quantidade de variância capturada
pelo construto em relação à quantidade de variância devido a erros de
medida (FORNELL e LARCKER, 1981). É recomendado que tenha valores
maiores que 0,5. A AVE só pode ser medida para modelos reflexivos.
Uma medida alternativa de validade convergente é a das cargas dos
indicadores de uma VL, que devem ter valores acima de 0,7 e esses
indicadores devem ser bem maiores que os dos indicadores de outras
variáveis latentes (CHIN, 1998).
Validade discriminante' avalia o grau em que dois conceitos são
distintos. A escala múltipla de um conceito pode ser comparada com a
escala múltipla de outro conceito distinto e apresentar correlação
baixa. Conforme Fornell e Larcker (1981), a validade discriminante é
satisfeita caso o valor da raiz quadrada da AVE seja maior do que os
valores das correlações com as demais VLs. Uma forma alternativa para
verificar a validade discriminante é pela matriz de cargas ou cross-
loadings (CHIN, 1998). Os valores das cargas para suas variáveis
latentes devem ser bem superiores aos das demais variáveis latentes.
Portanto, para a verificação da validade discriminante, pode-se usar
a condição de Fornell e Larcker (1981) e/ou a condição de Chin
(1998).
Goodness-of-fit (GoF) ' índice de adequação que mede quanto da
variância é explicada pelo modelo, proposto por Tenenhaus et al.
(2005, apud ZWICKER, SOUZA e BIDO, 2008), é calculado pela média
geométrica entre o R2 médio (adequação do modelo estrutural) e a AVE
média (adequação do modelo de mensuração).
5. ANÁLISE DOS RESULTADOS
5.1. Perfil da amostra
A idade média é de aproximadamente 43 anos e há predominância de respondentes
casados, do sexo masculino, com pouco contato com religião e de formação
superior. Quanto à classificação por administração pública e privada, há um
equilíbrio com, respectivamente, 159 e 145 respondentes.
Os integrantes da amostra também declararam a importância relativa do trabalho
em relação às outras esferas da vida. No gráfico_1, pode ser visto que trabalho
é a segunda em importância quanto às esferas da vida que os respondentes
indicaram como a mais importante, com 25% dos respondentes, aparecendo família
em primeiro, com percentual de 54%.
![](/img/revistas/rausp/v47n4/a03grf01.jpg)
Os gráficos_2 e 3 mostram que não há muita diferença entre o setor público e
outros setores.
[/img/revistas/rausp/v47n4/a03grf02.jpg]
[/img/revistas/rausp/v47n4/a03grf03.jpg]
5.2. Modelagem para o significado do trabalho
Para o modelo proposto (MP), a exclusão de alguns indicadores (variáveis que
compõem cada construto) seguiu alguns critérios: eliminar os indicadores com
carga fatorial inferior a 0,7; eliminar no máximo um indicador por variável
latente, por processamento; eliminar sempre o de menor carga fatorial; não
eliminar indicador de variável latente com somente dois indicadores; não
descartar os indicadores das variáveis latentes de ordem superior (a um). Após
cinco processamentos, chegou-se a um modelo em que não foi possível descartar
indicador algum. Esse modelo foi denominado de Modelo Final MP.
Na figura_2 é mostrado o diagrama do Modelo MP após cinco processamentos, no
qual se verifica que os indicadores apresentam cargas maiores do que 0,7.
A tabela_1 exibe AVE, Alfa de Cronbach e confiabilidade composta por construto
do Modelo MP.
O modelo tem o construto significado do trabalho com valor de AVE 0,39, menor
do que 0,5; portanto, a validade convergente não é satisfeita para esse
construto. Para os demais construtos, o valor de AVE é maior do que 0,5, e a
validade convergente é satisfeita. Quanto à confiabilidade composta, observam-
se valores acima de 0,7; portanto, é atendida a condição de confiabilidade de
escala.
A constatação da validade discriminante faz-se por meio das tabelas_2 e 3, pois
o valor da raiz quadrada da AVE é maior do que os valores das correlações com
as demais variáveis latentes (tabela_2), e os indicadores têm cargas cruzadas
maiores em seus respectivos construtos do que nos demais (tabela_3).
Quanto à estatística goodness-of-fit, o valor obtido foi de 0,44. Devido ao
baixo valor da estatística goodness-of-fit e aos problemas destacados na tabela
1, decidiu-se analisar um modelo alternativo (MA), exibido na figura_3.
O Modelo MA apresenta os construtos: (nível 1) centralidade Kanungo,
centralidade MOW, objetivos, resultados, normas orientadas a deveres e normas
orientadas a direitos; (nível 2) centralidade do trabalho, normas sociais e
objetivos e resultados valorizados; (nível 3) significado do trabalho.
A tabela_4 apresenta as estatísticas AVE e confiabilidade composta por
construto do modelo MA.
Conforme a tabela_4, os valores de AVE indicam validade convergente, embora o
valor para significado do trabalho (0,484) esteja abaixo de 0,5, mas muito
próximo. Os valores da confiabilidade composta são todos superiores a 0,7;
portanto, a confiabilidade de escala é satisfeita.
Como o valor da raiz quadrada da AVE é maior do que os valores das correlações
com as demais variáveis latentes (tabela_5) e os valores das cargas dos
indicadores para suas variáveis latentes são bem superiores às demais variáveis
latentes (tabela_6), confirma-se a validade discriminante.
O Modelo MA apresenta o resultado 0,589 para a estatística goodness-of-fit, que
é melhor valor do que o do Modelo MP. Comparando-se os dois modelos, MA é
adotado como o modelo final deste estudo.
Quanto às hipóteses enunciadas, houve confirmação das três, de acordo com a
figura_3:
H1 A centralidade no trabalho é o aspecto mais relevante na
composição do construto significado do trabalho (coeficiente 0,818).
H2 Os objetivos e resultados valorizados são o segundo aspecto mais
relevante na composição do construto significado do trabalho
(coeficiente 0,752).
H3 As normas sociais são o terceiro aspecto mais relevante
(coeficiente 0,464).
O Modelo MA rejeitou alguns indicadores de centralidade do trabalho de Kanungo,
em sua expressiva maioria por apresentarem muita semelhança com outro indicador
(importância do trabalho).
Quanto aos indicadores das normas orientadas a direitos, foram eliminados os
referentes principalmente a serviços operacionais, tais como treinamento (v15),
formação (v17) e métodos (v19), pelo fato de a maioria dos respondentes ter
instrução superior.
Os indicadores de normas orientadas a deveres, referentes à valoração do
trabalho, mesmo que monótono (v22), e dever de economizar (v18) foram
eliminados, pois são características dos respondentes de baixo nível de renda,
o que não seria o caso da amostra pesquisada.
Da mesma forma, talvez devido à educação superior, os objetivos valorizados não
são os de ambiente físico (v44), salário (v47), horário (v48), estabilidade
(v43) e relacionamento interpessoal (v45), trabalho interessante (v46), todos
eliminados, sendo valorizados indicadores como autonomia (v40), tarefas
compatíveis (v41), ascensão (v39), variedade (v42) e novidades (v38).
Os resultados valorizados são status (v09) e contatos (v04), sendo eliminados
renda (v02), trabalho interessante (v10), que mantém ocupado (v13), e o
resultado social (v06).
6. CONCLUSÕES
A questão central do presente estudo foi referente aos fatores que influenciam
e conferem sentido ao trabalho, tais como: centralidade do trabalho, em que se
procurou investigar o grau de importância do trabalho no contexto das diversas
áreas da vida das pessoas, tais como família, lazer, religião e vida
comunitária; influências das normas da sociedade tanto como fornecedora de
condições como cobradora de atitudes; objetivos e resultados valorizados,
pesquisando o que os respondentes buscam ao trabalhar.
Com a aplicação da modelagem de equações estruturais, encontrou-se que o
significado do trabalho se reflete, na ordem, na centralidade do trabalho, nos
objetivos e resultados valorizados e, por último, nas normas sociais.
O ser humano ainda é a principal matéria-prima no mundo dos negócios. As
peculiaridades de cada um nos aspectos mais associados ao significado de seu
trabalho podem trazer implicações em seu desempenho profissional e em seu
relacionamento com as pessoas de mesmo nível hierárquico, bem como nos níveis
inferiores e superiores.
Para o bom andamento das atividades empresariais, faz-se necessário focar com
atenção redobrada os aspectos intrínsecos a: centralidade, objetivos e
resultados valorizados, vindo, em terceiro lugar, as normas sociais.
Com a pesquisa apresentada, os autores esperam contribuir para uma melhor
compreensão dos sentimentos das pessoas em relação ao trabalho. Conhecer o que
é mais valorizado e o que não importa muito para essas pessoas, sempre tendo em
vista o perfil da amostra focalizada no estudo, pode beneficiar todos os
agentes envolvidos nas relações de trabalho e a empresa como um todo.